Buscar
Nota

MA concentra 85% dos ataques com agrotóxico a comunidades e escalada da violência no campo

4 de dezembro de 2024
14:23
Este artigo tem mais de 1 ano
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Dos 182 casos de contaminação de comunidades por agrotóxicos no primeiro semestre deste ano, 156 foram no Maranhão. A incidência desse tipo de caso aumentou quase dez vezes em relação ao mesmo período de 2023, quando 19 ocorrências foram registradas. Os dados sobre conflitos no campo foram divulgados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) para marcar o Dia Mundial de Luta contra os Agrotóxicos e mostram o retrato da violência rural no país.

A Coordenadora Regional da CPT no Maranhão, Márcia Palhano, conta que os moradores já tinham que lidar com os problemas da grilagem e do desmatamento, inclusive promovidos por queimadas ou uso de correntões [cabos de aço entre tratores que provocam derrubadas por onde passam], mas agora estão sendo aterrorizados pelo constante despejo de toxinas próximo às comunidades.

“A gente tá falando desde infecções na pele, né? Nós estamos falando de queimaduras. Nós temos uma comunidade no município de Timbiras em que um trabalhador teve o corpo queimado pela pulverização aérea, jogada sobre a comunidade, sobre a roça, sobre a casa desse trabalhador. Então ele teve a pele queimada. O neto, a nora dele, que estava grávida, também foi banhada de agrotóxico”, conta Palhano.

Avião pulveriza agrotóxicos sobre a comunidade Manuel dos Santos, em Timbiras (MA), ameaçando a saúde e o meio ambiente local. Crédito: Comissão Pastoral da Terra (CPT) / Cortesia

CPT, Articulação das Pastorais Sociais/Repam e Rede de Agroecologia do Maranhão se mobilizam agora para coletar assinaturas e apresentar um projeto de lei à Assembleia Legislativa do Maranhão para proibir a pulverização aérea de agrotóxicos em um raio de até 10 km de unidades de conservação, terras indígenas, quilombolas ou agroecológicas do estado. A proposta também regularia a aplicação terrestre desses produtos, impondo limites em relação a áreas urbanas, escolas, hospitais e comunidades tradicionais, além de proibir o uso de substâncias já banidas em outros países e de criar o Plano Estadual de Redução de Agrotóxicos.

Pulverizador agrícola despeja agrotóxicos próximos ao território quilombola de Cocalinho (MA), ameaçando a água e a segurança alimentar das comunidades locais. Crédito: Comissão Pastoral da Terra (CPT) / Cortesia
Pulverizador agrícola despeja agrotóxicos próximos ao território quilombola de Cocalinho (MA), ameaçando a água e a segurança alimentar das comunidades locais. Crédito: Comissão Pastoral da Terra (CPT) / Cortesia

“Nós estamos falando de onde as comunidades vivem, plantam, tiram água, [de] onde elas tiram toda a sua subsistência. […] Nós estamos falando de uma realidade, assim, de uma ação totalmente indiscriminada e irregular, complementa Palhano.

A CPT destaca que os números apresentados representam parte da realidade, já que os dados passam por validação e tramitação pelos órgãos competentes antes de serem consolidados, o que significa que o cenário pode ser mais grave do que revelam os relatórios preliminares.

Em nota, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Naturais (Sema) do Maranhão afirmou que, em 2024, intensificou operações para verificar o armazenamento e a destinação correta dos agrotóxicos e que os casos de pulverização estão sendo analisados, com base em estudos técnicos, para identificar possíveis infrações. “Os responsáveis serão notificados, autuados e responderão a processos administrativos caso sejam confirmadas irregularidades”, concluiu.

Matopiba vive escalada de violência no campo

Além da questão dos agrotóxicos, o estado, bem como os demais estados do Matopiba (fronteira agrícola que se destaca pelo cultivo de soja e gado e engloba partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), experimentou um aumento de índices de violência no campo no primeiro semestre de 2024, em relação ao ano anterior.

Segundo a coordenadora nacional do CPT, Cecília Gomes, o Matopiba tornou-se o epicentro de conflitos e registrou crescimento de 150% nas ameaças de expulsão de terras, 60% nas ameaças de despejo, 30% na destruição de roçados e 16,67% no desmatamento ilegal. 

“Nesses lugares, os povos e as comunidades estão muito mais ameaçadas, por se tratar de uma região de fronteira agrícola, uma região de maior disputa. E aí, disputa por quem? Pelas famílias camponesas, ou povos e comunidades tradicionais, que têm uma vida inteira histórica naquele lugar, e pela expansão agrícola, ou pelo agronegócio, ou pela produção de carnes”, explica Gomes.

A violência contra pessoas também reflete essa tensão crescente com registros de 42 ameaças de morte e quatro episódios de intimidação contra comunidades. “É expulsar aqueles que já estão na terra sem direito de dizer nada, para serem silenciadas. […] Fazer com que essas famílias saiam desse lugar, saiam, desocupem esses terrenos, porque [para os grandes empresários] esses terrenos [seriam] destinados para essa produção”, completa.

Edição:
CPT/divulgação
CPT/divulgação

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 227 A cortina de fumaça das empresas de tecnologia – com Daniela da Silva

Ex-chefe de Políticas Públicas do WhatsApp aponta alternativas para o enfrentamento do monopólio e abusos das Big Techs

0:00

Notas mais recentes

Embaixada dos EUA acionou líder do PL para visita que questionaria urnas no Brasil


Corrida eleitoral: Tarcísio de Freitas confirma candidatura e PT tem convenções estaduais


Estudantes brasileiros são ameaçados de morte após Argentina perder a Copa


Corrida eleitoral: partidos já podem oficializar candidaturas; vice de Flávio é incógnita


Caso Rafael: Após morte, MPF instaura investigação criminal contra plataformas de bets


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Estudo denuncia como contribuinte brasileiro subsidia Coca-Cola em “mágica tributária”

|

Big Food inflacionaria preço de xarope da Zona Franca de Manaus e faria uso de royalties fantasmas para evitar impostos

Partido Missão: o projeto de poder de Renan Santos e do MBL

|

Como o grupo estrutura a formação militante defendendo pautas que flertam com a ruptura democrática

Meta, Telegram e X fecham acordo com TSE sobre desinformação sem punição caso não cumpram

|

Termos mostram plataformas tentando se blindar de responsabilidades sobre conteúdo desinformativo nas eleições de 2026

Ministério Público investiga flagrantes plantados por policiais no interior de São Paulo

|

Investigação resultou em mandados de busca e apreensão em endereços de dez PMs
Imagem aérea de fábrica da BYD em Camaçari

Os detalhes não esclarecidos de como BYD escapou da lista suja do trabalho escravo

|

Parceira da BYD, Engenova incorporou quadro da Jinjiang, banida na lista suja, e tem sócia sediada em paraíso fiscal
Flávio Bolsonaro chora em conveção do PL

As lágrimas de Flávio Bolsonaro e o aceno eleitoral do filho de Jair às mulheres

|

Com menos apoio no eleitorado feminino que Lula, Flávio destaca esposa em meio a tensões com Michelle

Letalidade policial na Baixada Fluminense dispara em 2025, mesmo com queda nas operações

|

Região com 13 municípios foi alvo de 5.298 operações policiais em cinco anos, segundo pesquisa; 282 pessoas foram mortas