Buscar
Nota

Fazendeiros ameaçam assentados da reforma agrária e servidores do Incra em Mato Grosso

5 de agosto de 2024
14:09
Este artigo tem mais de 2 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) conduz, desde 23 de julho, a reintegração de posse de seis lotes de terras ocupados ilegalmente por fazendeiros no Projeto de Assentamento Tapurah/Itanhangá, um dos maiores da América Latina, em área dos municípios de mesmo nome, a 429 km de Cuiabá.

Fazendeiros de soja e pecuaristas se reuniram em praça pública em Itanhangá (MT), para discutir como impedir a retomada na região – que tem 115 mil hectares divididos em mais de mil lotes. Dias depois, homens armados ameaçaram famílias e servidores do Incra que trabalhavam na reintegração. Os invasores montaram barreiras na entrada do assentamento para bloquear o acesso e dificultar a retomada.

A ofensiva dos fazendeiros também incluiu pedidos judiciais para frear a reintegração. O desembargador João Carlos Mayer Soares, da 6ª Turma do Tribunal Federal Regional da 1ª Região (TRF-1), concedeu uma liminar proibindo a retomada de parte dos lotes reclamados pelo Incra, sem impedir a reintegração de parte dos lotes. 

A gravidade da situação fez com que a Defensoria Pública da União (DPU) e o Ministério Público Federal (MPF) pedissem reforço policial contínuo durante a reintegração, dado o risco de conflitos. Segundo os órgãos, o governo Mauro Mendes (União) “adotou uma controversa política de ‘tolerância zero’ a invasões e ocupações”, tornando “indispensável que o mesmo vigor protetivo seja observado em favor das famílias assentadas”.

De acordo com a Procuradoria Federal Especializada do Incra, há autorização judicial para retomada de outros 136 lotes na área – dominada por lavouras de soja, com poucos resquícios da vegetação originária desse ponto do Cerrado.

Mapa do Incra mostra distribuição dos lotes no Projeto de Assentamento Tapurah/Itanhangá
Distribuição dos lotes no Projeto de Assentamento Tapurah/Itanhangá

Crimes na região estão no radar há mais de dez anos

Em 2014, o MPF e a Polícia Federal (PF) deflagraram a operação Terra Prometida, revelando um esquema milionário de invasão de fazendeiros nas terras públicas da área do Projeto de Assentamento Tapurah/Itanhangá. Em 2016, a operação Theatrum aprofundou o caso, identificando o envolvimento de servidores públicos no esquema, com fraudes documentais em processos do Incra.

Há pelo menos 80 inquéritos policiais sobre a exploração ilegal de terras no assentamento por crimes como associação criminosa armada, desmatamento, extração ilegal de madeira, estelionato, corrupção ativa e passiva, além de ameaças.

“Estamos retomando apenas lotes controlados por grandes fazendeiros. Investigações da PF já identificaram tais lotes, bem como ‘laranjas’ e concentradores [de terras] relacionados às invasões, pois há latifundiários dentro do assentamento”, disse à Agência Pública a diretora da Câmara de Conciliação Agrária (CCA) do Incra, Maíra Coraci Diniz, que acompanhou in loco o início da reintegração.

A Pública apurou que os seis lotes retomados não eram habitados por nenhum dos invasores, que usavam as áreas apenas para o cultivo de soja. Com as terras novamente sob controle do governo federal, as áreas serão divididas em lotes de 25 a 30 hectares cada um, a serem passados a 15 famílias de agricultores sem-terra – que terão acesso a crédito agrícola para restauro e manejo rural na área.

A região em questão se tornou um dos polos do agronegócio no centro-norte de Mato Grosso ao longo dos últimos 20 anos. Desde a criação do Projeto de Assentamento Tapurah/Itanhangá, em 1996, houve a venda ilegal de mais de mil lotes na área, segundo a PF, além da invasão de fazendeiros e grileiros. 

Até setembro de 2023, o Incra contabilizava pelo menos 82 ações judiciais para retomada de 244 lotes dentro do assentamento, dos quais já havia autorização para retomar 142 deles.

Prefeito deu “dica” a fazendeiros: “Cada um ‘em cima’ do seu sítio”

Meses antes da retomada, o atual prefeito de Itanhangá, Edu Laudi Pascoski (PL), alertou os fazendeiros da região sobre o avanço do Incra na retomada do Projeto de Assentamento Tapurah/Itanhangá. Somada à manifestação da Associação Mato-grossense de Municípios (AMM), na qual Pascoski ocupa uma das vice-presidências, a fala foi vista pelo Incra como prova da resistência do poder local às decisões judiciais contra os invasores.

Em áudio gravado meses antes do início da reintegração, obtido pela Pública, o prefeito de Itanhangá relatou que um “coronel da polícia de Mato Grosso” estaria visitando os lotes que o Incra reclama na Justiça, para identificar as áreas “vazias”.

Pascoski disse ainda: “Tem que avisar os ‘caras’ pra cada um estar ‘em cima’ do seu sítio, pro coronel saber que tem gente lá e fazer o documento [dizendo] que [o lote de terras] tem proprietário, que cada um tá trabalhando no seu. […] Não é retomada nem nada, é um ‘estudo’ para saber se tem produção no sítio, se o ‘cara’ tá em cima. Porque se tá vazio, se ninguém aparecer, aí ele vai colocar que está vazio, abandonado, e aí vai ser mais fácil pra Força Nacional vir com o Incra e retomar”.

A Pública entrou em contato com a prefeitura de Itanhangá, para saber o que ela tem feito para auxiliar a reintegração de posse, além dos motivos por trás do áudio enviado pelo prefeito a fazendeiros da região, mas não houve retorno. Caso se manifeste, este texto será atualizado.

Edição:
Reprodução

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 228 O fracasso do Estado em proteger mulheres – com Juliana Brandão

Coordenadora de gênero e raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública analisa as falhas de crimes contra a mulher

0:00

Notas mais recentes

Corrida Eleitoral: sabatinas eleitorais continuam enquanto Congresso volta de recesso


Senado dos EUA aprova Daniel Perez antes de aval do Brasil para vaga de embaixador


Indústria de ultraprocessados tenta impedir combate à obesidade, diz diretor-geral da OMS


Escala 6×1, PEC da Segurança, minerais raros: o que o Congresso pode votar durante eleição


Corrida eleitoral: registro de candidaturas termina nesta semana


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Deputado Alfredo Gaspar e senador Flávio Bolsonaro durante evento do PL

Após pressão por uma vice mulher, PL fecha chapa apenas com homens

|

‘Michele está fazendo comida para o marido’, responde Damares Alves sobre ausência de ex-primeira dama

Eleições: legislação não é o suficiente para barrar conteúdos de IA nas redes sociais

|

Decisões do TRE-BA determinam que Meta retire vídeos com IA do Instagram, mas cópias seguem na rede
Foto mostra plataforma de trem da Estação Luz, no centro de SP. Estação integra a linha 12 da CPTM.

As denúncias por trás dos acidentes e da greve de trens em São Paulo

|

Funcionários apontam problemas elétricos em linha que pegou fogo, falta de treinamento e de pessoal

Terras raras brasileiras estão no radar do Departamento de Defesa dos EUA

|

BNDES incentiva produção para transição energética, mas empresas firmam laços com a indústria militar norte-americana
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição pelo Partido dos Trabalhadores (PT), discursou na convenção partidária e oficializou sua candidatura.

Lula aposta no combate ao feminicídio para fortalecer apoio entre eleitoras em 2026

|

Apesar de acenar para as mulheres, nenhuma mulher, nem mesmo Janja, havia sido escalada para discursar no evento

Estudo denuncia como contribuinte brasileiro subsidia Coca-Cola em “mágica tributária”

|

Big Food inflacionaria preço de xarope da Zona Franca de Manaus e faria uso de royalties fantasmas para evitar impostos

Partido Missão: o projeto de poder de Renan Santos e do MBL

|

Como o grupo estrutura a formação militante defendendo pautas que flertam com a ruptura democrática

Meta, Telegram e X fecham acordo com TSE sobre desinformação sem punição caso não cumpram

|

Termos mostram plataformas tentando se blindar de responsabilidades sobre conteúdo desinformativo nas eleições de 2026