Buscar
Nota

Governo brasileiro coloca irmãos Batista da JBS em “lista VIP” da COP30

11 de novembro de 2025
18:18
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Mr. Joesley Mendonça Batista e Mr. Wesley Mendonça Batista. Assim estão os nomes dos irmãos bilionários donos da J&F holding, que entre outras empresas é dona da marca JBS, na “lista VIP” da COP30, que garante acesso à zona azul da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025. E quem colocou os dois nessa seleção foi o Brasil. Isso mesmo, os irmãos Batista são convidados do anfitrião, no caso, o Estado brasileiro.

A Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC) publicou a lista preliminar dos participantes da conferência nesta segunda-feira, 10 de novembro. Nela, constam os nomes de Wesley e Joesley Batista como “convidados do país anfitrião”, representando a JBS.

Existem várias formas de ser credenciado para a Zona Azul, a área restrita da COP30, onde são realizadas as negociações diplomáticas entre os quase 200 países que assinaram a Convenção da ONU sobre mudanças climáticas. O país anfitrião tem direito a um número limitado de convidados – lista na qual estão os irmãos Batista, além de representantes da indústria petrolífera, como Petrobras e ExxonMobil, da mineração, como Vale, Samarco, Sigma e o Instituto Brasileiro da Mineração.

A lista de convidados do Brasil também inclui representantes de organizações da sociedade civil, como Instituto Alana, voltado para educação, e de povos indígenas e comunidades tradicionais, como a associação Yanomami Hutukara e o Conselho Indígena de Roraima. Contudo, quilombolas vêm se queixando há semanas pelo baixo número de credenciais para seus representantes no evento – e a lista liberada agora mostra que eles conseguiram apenas cinco credenciais indicadas pelo Brasil.

O Brasil também pode indicar uma série de pessoas para serem party overflow, que, assim, passam a integrar a delegação brasileira, ainda que não atuem como “negociadoras” (que são chamadas de “partes”). Nesse grupo estão desde representantes de ONGs e associações de comunidades tradicionais a empresas.

A Pública apurou que Wesley e Joesley não estavam na lista da COP anterior, realizada no Azerbaijão, apesar da JBS estar com três nomes de representantes credenciados. Por telefone, a reportagem foi informada que os empresários não estão participando da COP nesta terça-feira, mas não foi desmentido que eles foram credenciados.

JBS: multas ambientais e a crise climática

A JBS, dos irmãos Batista, a maior produtora de carne bovina do mundo e principal empresa do setor agropecuário, tem impacto direto no clima — e vem sendo cobrada e multada por isso.

Segundo a Pública apurou, apenas neste ano, a JBS SA foi alvo de quatro multas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Juntas, as quatro multas passam dos R$ 660 mil, por infrações no estado do Pará, no Mato Grosso do Sul e em São Paulo. A multa mais cara, justamente no Pará, está ligada a mais uma etapa da Operação Carne Fria, que vem apurando desmatamento e criação de gado ilegais na Amazônia.

Neste ano, a Pública mostrou que a JBS pode ter exportado para a União Europeia carne bovina e couro produzidos com gado proveniente de fazendas ilegais no Pará. Relatório da Human Rights Watch (HRW) apontou que o gado irregular afeta a Terra Indígena Cachoeira Seca, lar do povo Arara, e o Projeto de Desenvolvimento Sustentável Terra Nossa.

Em 2024, a Pública mostrou que um levantamento da ONG norte-americana EIA (Agência de Investigação Ambiental, na sigla em inglês) encontrou registros que a JBS teria comprado gado criado em fazendas ilegais na Terra Indígena Apyterewa, no próprio estado do Pará.

Além das irregularidades, as produtoras de carne representam um impacto direto no aquecimento global: se fossem um país, as 45 maiores empresas que produzem carne e laticínios – com a JBS nessa conta – seriam o nono maior emissor de gases do efeito estufa do mundo, mostrou levantamento divulgado às vésperas da COP30.

O império dos irmãos Batista vai além da JBS. O grupo J&F também possui a produtora de celulose Eldorado, a mineradora Lhg Mining, a prestadora de serviços financeiros PicPay e a Âmbar, produtora de energia, que inclusive comprou termelétricas no Acre neste ano. Outro ativo da companhia é a usina de Candiota III, no Rio Grande do Sul, movida a carvão, o pior entre os combustíveis fósseis. A usina foi a maior emissora de gases do efeito estufa entre as térmicas do país (incluindo as movidas a gás e a diesel) em 2024, segundo o Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA). Além disso, Candiota III registrou a maior taxa de emissão por eletricidade gerada: 1.205 toneladas de gás carbônico equivalente por gigawatt hora. Mesmo assim, recebeu um subsídio estatal pela compra de carvão mineral, conforme a Pública mostrou.

*Atualização às 18h53 de 11/01/2025: incluída a resposta da assessoria da JBS.

*Erramos: O texto afirmava que em 2025 a JBS SA já havia sido multada pelo Ibama em R$ 660 milhões e, na verdade, o valor é R$ 660 mil. O texto foi atualizado no dia 12/11/2025 às 10h30.

Edição:

Notas mais recentes

Campanha de Flávio ignora relação com Vorcaro e tenta associar briga no STF a Lula


STF define rumo do embate Moraes x Mendonça, e TSE lida com prazos finais para as eleições


Instituto de André Mendonça é alvo de representações para investigar irregularidades


Com despesas pagas pelos EUA, ida de procurador a evento sobre Irã é cancelada pela PGR


Semana tem presidenciáveis no 7 de setembro e STF na apuração sobre denúncias de ministros


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Recordar é votar: 13 investigados pela CPI da Covid disputam eleições neste ano

|

Apontados pelos senadores por diversos crimes durante a pandemia concorrem a cargos – de deputado estadual a presidente

Pessoas negras são alvo da maioria dos gastos com prisões em 25 estados e DF, diz estudo

|

Para advogada do Justa dado demonstra seletividade penal e políticas estaduais com lógica punitivista

Esposa de Ramagem usa verba de campanha para ex-assessora e irmã de Allan dos Santos

|

Candidata a deputada federal exilada nos EUA repassou R$80 mil a empresa de ex-assessora de Ramagem em agosto

Policiais candidatos fazem autopromoção no YouTube e podem lucrar com violência e machismo

|

Estudo estima monetização de 15 influenciadores; agente eleito não pode se apresentar como policial, diz governo de SP

Bolsonaristas capturam perfis nas redes para inflar apoio religioso a Mendonça

|

Contas no Instagram trocam de nome para enaltecer juiz e simular apoio popular — prática conhecida como ‘astroturfing’

Mãe que perdeu o filho para as bets pede proibição em encontro com Lula

|

Professora mineira foi ouvida pelo presidente após reportagem da Pública motivar projetos de lei e investigação no MPF

Câmeras, IA e repressão unem candidatos dos estados com polícias mais letais do país

|

Esquerda, direita e extrema direita propõem mais tecnologia e inteligência na segurança, mas ignoram violência policial

Ministra Cármen Lúcia dá o tom do dia no STF: “não garantimos o rigor que deveríamos”

|

Sessão do Supremo para avaliar se Alexandre de Moraes seria investigado acaba com pedido de vista e troca de farpas