Buscar
Nota

Mortes e tortura no PA: Presos sobreviventes de ação policial são libertados em Marabá

1 de novembro de 2024
13:53
Este artigo tem mais de 1 ano
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Após 20 dias, quatro trabalhadores rurais sobreviventes da operação Fortis Status, da Polícia Civil do Pará, no último dia 11 de outubro, foram soltos da prisão por determinação da juíza Alessandra Rocha da Silva Souza, da 1ª Vara Criminal da Justiça do Pará em Marabá, nesta quinta-feira (31). A ação policial na fazenda Mutamba resultou na morte de duas pessoas e no desaparecimento, até o momento, de outras três. 

Adão Rodrigues de Sousa e Edson Silva e Silva estavam em um “barracão” na fazenda Mutamba, onde dormiam junto a outros 16 trabalhadores, e acabaram mortos a tiros durante a operação, conduzida pelo delegado Antônio Mororó, da Delegacia de Conflitos Agrários da Polícia Civil do Pará (Deca), como noticiado pela Agência Pública.

A soltura dos quatro sobreviventes presos durante a ação ocorreu a pedido da Defensoria Pública do Pará e do representante legal dos presos. O Ministério Público Estadual se manifestou a favor, para “evitar o constrangimento ilegal por excesso de prazo” das prisões, dizendo que “não há, no momento, elementos para o oferecimento de denúncia” contra eles.

Os trabalhadores relataram ter sido mantidos sob a mira de armas, levados para junto dos corpos dos colegas mortos e sofrido agressões até o amanhecer. “Se não confirmassem, com o cano de fuzil encostado no ouvido, eram ameaçados de execução imediata”, afirmou uma nota divulgada por sete movimentos sociais locais, incluindo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Coletivo Veredas e a Comissão Pastoral da Terra (CPT), emitida logo após a sangrenta operação policial.

“Dos quatro trabalhadores presos, nenhum deles tinha mandado de prisão e só um tinha condenação pela Justiça. Os dois mortos também não tinham prisões decretadas e nem passagem pela polícia”, diz ainda o documento divulgado pelos movimentos sociais atuantes na região.

A ofensiva da Polícia Civil do Pará foi vista como “desproporcional” pela diretora do Departamento de Mediação e Conciliação de Conflitos Agrários do Ministério do Desenvolvimento Agrário, Cláudia Dadico, por ter contado com a participação de 20 agentes, cinco viaturas e um helicóptero, apenas para cumprir mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão – expedidos pela Comarca da Justiça Estadual do Pará em Marabá.

Destacando que os sobreviventes estavam presos desde o dia 11 de outubro e que “não houve o oferecimento da denúncia” por qualquer acusação, a juíza Alessandra Souza autorizou a soltura deles. 

A magistrada também ordenou medidas para esclarecer o caso, incluindo a necessidade de apresentação, por parte da Polícia Civil, dos laudos de perícia do local do crime e de “balística/mecanismo/potencialidade e recenticidade de disparo”. A exigência busca esclarecer a distância do disparo das armas de fogo contra as vítimas, considerando-se o calibre das armas, o comprimento dos canos, as lesões provocadas e o tipo de munição utilizada. 

O laudo de balística deverá conter fotografias tanto das lesões das vítimas quanto das armas apreendidas e das armas dos policiais envolvidos na ação.

A juíza de Marabá ordenou também que a Polícia Civil esclareça o local exato onde foram cumpridos os mandados da operação Fortis Status, a quem pertencia o “barraco” e as identidades das pessoas que estavam na área da fazenda durante a operação.

Além disso, a magistrada determinou que a polícia esclareça “a conduta dos indiciados [os quatro sobreviventes presos], se foram identificados atirando ou se foram presos em flagrante por se encontrarem no barraco junto com os demais”, quais armas de fogo apreendidas supostamente pertenciam a eles e que a Polícia Civil junte aos autos o “procedimento que tenha dado origem à operação”.

O local da operação é alvo de disputa há 16 anos. Proprietária do imóvel, a família Mutran possui três fazendas autuadas por trabalho análogo à escravidão, conforme a Repórter Brasil; em 2002, 25 trabalhadores foram libertados na fazenda Mutamba, onde ocorreu a violenta operação em 11 de outubro passado.

Procurada, a assessoria de comunicação da Polícia Civil do Pará não se pronunciou até o momento sobre a libertação dos trabalhadores rurais. A Corregedoria e a assessoria de comunicação da corporação afirmaram, logo após a operação policial, que “a ação [na fazenda Mutamba] foi realizada em conformidade com a lei e as investigações sobre o caso estão em andamento”. A Fortis Status envolveu agentes da Coordenadoria de Operações e Recursos Especiais (Core), 10ª Região Integrada de Segurança Pública (Risp), Grupamento Aéreo de Segurança Pública (Graesp) e Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) do Pará, além dos policiais civis da Deca.

Edição:

Notas mais recentes

Campanha de Flávio ignora relação com Vorcaro e tenta associar briga no STF a Lula


STF define rumo do embate Moraes x Mendonça, e TSE lida com prazos finais para as eleições


Instituto de André Mendonça é alvo de representações para investigar irregularidades


Com despesas pagas pelos EUA, ida de procurador a evento sobre Irã é cancelada pela PGR


Semana tem presidenciáveis no 7 de setembro e STF na apuração sobre denúncias de ministros


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Com pai, marido e irmão presos, Natália Vorcaro Zettel segue à frente de 54 empresas

|

Irmã de Daniel Vorcaro é alvo de representação no MPF por suspeita de lavagem de dinheiro

Recordar é votar: 13 investigados pela CPI da Covid disputam eleições neste ano

|

Apontados pelos senadores por diversos crimes durante a pandemia concorrem a cargos – de deputado estadual a presidente

Pessoas negras são alvo da maioria dos gastos com prisões em 25 estados e DF, diz estudo

|

Para advogada do Justa dado demonstra seletividade penal e políticas estaduais com lógica punitivista

Esposa de Ramagem usa verba de campanha para ex-assessora e irmã de Allan dos Santos

|

Candidata a deputada federal exilada nos EUA repassou R$80 mil a empresa de ex-assessora de Ramagem em agosto

Policiais candidatos fazem autopromoção no YouTube e podem lucrar com violência e machismo

|

Estudo estima monetização de 15 influenciadores; agente eleito não pode se apresentar como policial, diz governo de SP

Bolsonaristas capturam perfis nas redes para inflar apoio religioso a Mendonça

|

Contas no Instagram trocam de nome para enaltecer juiz e simular apoio popular — prática conhecida como ‘astroturfing’

Mãe que perdeu o filho para as bets pede proibição em encontro com Lula

|

Professora mineira foi ouvida pelo presidente após reportagem da Pública motivar projetos de lei e investigação no MPF

Câmeras, IA e repressão unem candidatos dos estados com polícias mais letais do país

|

Esquerda, direita e extrema direita propõem mais tecnologia e inteligência na segurança, mas ignoram violência policial

Ministra Cármen Lúcia dá o tom do dia no STF: “não garantimos o rigor que deveríamos”

|

Sessão do Supremo para avaliar se Alexandre de Moraes seria investigado acaba com pedido de vista e troca de farpas