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Venda de prédio da Sabesp pode colocar em risco abastecimento na Avenida Paulista

24 de fevereiro de 2026
14:00

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A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) está prestes a vender um imóvel que abriga um sistema de bombeamento estratégico para a segurança hídrica da região da Avenida Paulista, que concentra pelo menos 20 hospitais de alta complexidade.

Estimada em pelo menos R$ 240 milhões, a venda é intermediada pelo grupo de negócios imobiliários Primaz. A empresa tinha como CEO o atual diretor de Operações da regional Leste da Sabesp, Cláudio Hermolin – que deixou o cargo para ingressar na companhia paulista no ano passado.

O prédio à venda, com cerca de 3 mil metros quadrados, fica a uma quadra da Rua Oscar Freire, nos Jardins, um dos locais mais valorizados pelo mercado imobiliário em São Paulo – e do mundo, segundo a consultoria Cushman & Wakefield. Os preços praticados em 2025 foram 65% maiores em relação ao ano anterior, de acordo com a empresa. 

  • Fachada do prédio da Sabesp na Av.Paulista

Os valores bateram no teto diante da escassez de terrenos disponíveis na região, que tem poucas áreas livres para novos empreendimentos. Nesse cenário, o prédio da Sabesp entrou no radar. Ao menos 10 incorporadoras manifestaram interesse, entre elas Cyrela e Trisul, ambas com foco em empreendimentos residenciais de alto padrão.

No local funcionava uma estação de bombeamento de água para regiões altas das proximidades da Avenida Paulista, a mais icônica de São Paulo e um dos principais pontos turísticos da cidade. A estação atualmente está desativada. No entanto, estudos da própria Sabesp, aos quais a Agência Pública teve acesso, dizem que ela deveria ser recuperada e religada para garantir a eficiência da rede.

Em uma revisão do plano diretor que elencou alternativas para expansão da rede integrada de abastecimento da região metropolitana até 2045, todos os sete cenários analisados incluíam a reativação da estação, classificada como “importante conexão entre os sistemas Guarapiranga e Cantareira”. A requalificação representaria, segundo o estudo, um “grande aumento na segurança de atendimento”.

Segundo a Sabesp, a unidade operacional citada está desativada há mais de 10 anos. “O abastecimento da região passou a ser realizado por outro sistema, que utiliza adutoras e uma estação de bombeamento na Vila Mariana para transferir água do Sistema Guarapiranga até a região da Avenida Paulista, mantendo a flexibilidade operacional entre os sistemas”, disse, em nota. Leia na íntegra.

“No processo de revisão do portfólio imobiliário, o imóvel foi classificado como ativo não operacional e, portanto, passível de alienação, considerando sua ausência de função estratégica e seu valor de mercado”, continua. A companhia afirma que recebeu propostas para aquisição do imóvel, atualmente em fase final de avaliação técnica e econômica, e que a eventual transação está sujeita à análise da Arsesp.

A Pública ouviu dois engenheiros da companhia que afirmam o contrário. Eles optaram pelo anonimato para evitar represálias e afirmam que a Sabesp não tem outras opções para garantir o abastecimento da região caso haja algum problema com o sistema que opera atualmente.

“Essa é uma região que precisa ter uma redundância maior do que outras. Se essa via colapsar, a Sabesp não vai ter capacidade de abastecer toda essa região. Eles estão colocando em risco toda a população que é atendida nos vários hospitais da área”, diz um deles.

“Todos os estudos de projeção de abastecimento para o futuro dizem que a estação do Jardins deveria ser recuperada. Ela serve como estepe para uma região que não pode ficar sem água”, afirmou outro engenheiro, lembrando que, além dos hospitais, o local também concentra centenas de prédios residenciais e comerciais, escolas, bancos e shoppings. “É surpreendente que a Sabesp vá vender uma área operacional sem ter outra alternativa.”

A venda do terreno faz parte de um movimento de revisão dos ativos da companhia, que foi privatizada em julho de 2024 e quer aumentar o caixa. No ano passado, o CEO da Sabesp, Carlos Piani, já havia afirmado que a empresa tem mais de 11 mil imóveis pelo estado de São Paulo e que a venda de alguns deles poderia ajudar a reduzir a tarifa da água. 

“Vamos ter o que é necessário para cumprir o serviço básico. Se tiver que reduzir a nossa presença geográfica, o faremos, mas com bastante serenidade, cautela e no tempo que for possível”, ele disse em uma entrevista à CNN.

A empresa não informou quantos prédios já foram vendidos até o momento. No início deste ano, a tarifa de água subiu 6,11%, referente à inflação entre julho de 2024 e outubro de 2025.

Diretor regional era sócio de empresa envolvida na compra

Cláudio Hermolin, atual diretor de Operações e Manutenção para a região Leste da cidade de São Paulo e outros nove municípios da região metropolitana, era CEO da Primaz até janeiro de 2025. Em março, ele ingressou na Sabesp, de acordo com o seu LinkedIn. A Primaz é a empresa responsável pela intermediação da venda do imóvel do Jardins com as incorporadoras interessadas. 

O diretor se apresenta como um executivo com mais de 30 anos de experiência no mercado imobiliário. Além do cargo na diretoria da Sabesp, ele é conselheiro de duas construtoras com atuação em São Paulo e também presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon) do Rio de Janeiro.

Os funcionários da Sabesp ouvidos pela Pública dizem que Hermolin tem trânsito com a atual diretoria da companhia e que estaria sendo treinado para chefiar a Diretoria de Operações em breve – uma das mais importantes da empresa. 

De acordo com a companhia, Hermolin não teve relação com o processo em questão. “O ingresso do referido diretor na Sabesp ocorreu após o encerramento de qualquer vínculo profissional anterior com a empresa citada”, disse. Hermolin não respondeu ao pedido de entrevista.

Edição:
José Cícero/Agência Pública
José Cícero/Agência Pública
José Cícero/Agência Pública

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