Buscar
Agência de jornalismo investigativo
Checagem

Marcos Rogério e aborto legal. Blefe!

“[A obrigação dos serviços de saúde de encaminhar vítimas de violência sexual à delegacia] protege as provas e busca punir os agressores; não vemos razão para que seja retirada do texto”, disse o deputado Marcos Rogério (PDT-RO), na quarta-feira (21)

Checagem
23 de outubro de 2015
19:36
Este artigo tem mais de 10 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
blefe m laranja

A frase do parlamentar esconde questões delicadas. Por mais que a vítima de violência sexual possa desejar a imediata punição do agressor, em alguns casos o registro do boletim de ocorrência pode ser traumatizante. A atual legislação sobre o tema, de 2013, recomenda que os profissionais de saúde apenas facilitem o registro policial da agressão, mas não os obriga a encaminhar a vítima à delegacia, como propõe o substitutivo ao Projeto de Lei nº 5069 de 2013. De autoria do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), a matéria foi aprovada pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) da Câmara na quarta (21) e segue para a análise do plenário.

Marcos Rogério é classificada como falaciosa por Soraia da Rosa Mendes, doutora em Direito Penal pela Universidade de Brasília e pesquisadora da instituição. “Travestido de uma possibilidade de aumentar a criminalização, o projeto cria, na verdade, mais um empecilho para que essas mulheres, já fragilizadas, tenham acesso à interrupção de gravidez no caso de estupro”, completa, ressaltando o momento de fragilidade decorrente da violência sofrida. “Se a mulher sabe que vai ser exigida a elaboração de um boletim de ocorrência ao procurar o serviço de saúde, ela poderá acabar desistindo – o que significa que vai realizar o aborto por outros meios, clandestinos, que sabemos que são utilizados.”

O PL 5069/2013 também muda a definição de violência sexual, substituindo o atual conceito – “qualquer forma de atividade sexual não consentida” – pelos crimes contra a liberdade sexual previstos no Código Penal, com um adendo: nos casos “em que resultam danos físicos e psicológicos”. “O fato de não ter sido violento não torna o ato menos criminoso”, contesta Soraia, para quem a necessidade da existência e da comprovação de tais danos poderá dificultar a punição do agressor.

Autora do livro Criminologia feminista, lançado em 2014, a pesquisadora acredita que o objetivo do projeto de lei parece ser impedir que as mulheres tenham acesso aos casos de aborto legalmente possíveis – além do estupro, o risco à vida da grávida e a gestação de fetos anencéfalos. A deputada Jandira Feghali (PC do B-RJ) tem opinião semelhante e, em entrevista à Agência Pública, classificou o projeto de lei como “medieval”. O temor de ambas acaba se comprovando com a visão externada pelo relator da matéria na CCJ, o deputado Evandro Gussi (PV-SP), em entrevista a um portal de Brasília: “E se ela (a mulher) simplesmente teve uma relação sexual, não quer o bebê e mente dizendo que foi abusada sexualmente?”.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Truco

Este texto foi produzido pelo Truco, o projeto de fact-checking da Agência Pública. Entenda a nossa metodologia de checagem e conheça os selos de classificação adotados em https://apublica.org/truco. Sugestões, críticas e observações sobre esta checagem podem ser enviadas para o e-mail truco@apublica.org e por WhatsApp ou Telegram: (11) 99816-3949. Acompanhe também no Twitter e no Facebook. Desde o dia 30 de julho de 2018, os selos “Distorcido” e “Contraditório” deixaram de ser usados no Truco. Além disso, adotamos um novo selo, “Subestimado”. Saiba mais sobre a mudança.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

A execução de Davi Sebba e a teia de policiais que Goiás levou 14 anos para julgar

|

Letalidade policial quase triplicou em 2012, ano do crime; governador era Marconi Perillo, candidato ao cargo em 2026

Investigação e processos criminais: o rastro legal dos deputados da Comissão de Segurança

|

CSPCCO: 12 deputados ligados a forças de segurança foram parte em procedimentos criminais, que vão de calúnia a agressão
Rio de Janeiro (RJ), 08/03/2023 - Ato denúncia em frente à Câmara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o Feminicídio

Na Amazônia Legal, 9 em cada 10 vítimas de feminicídio em 2025 não tinham medida protetiva

|

Levantamento em oito estados mostra que mulheres morrem desprotegidas; recurso jurídico é alternativa para evitar crime

Nossa Senhora Aparecida vira evento eleitoral e aprofunda crise entre ministros do STF

|

Monitoramento mostra que debate nas redes ultrapassou boato inicial e passa de 12 milhões de interações em poucos dias
Fachada do Congresso Nacional, em Brasília.

Os candidatos das Big Techs nas eleições 2026

|

Levantamento mostra quais políticos brasileiros têm atuado a favor dos interesses das grandes corporações de tecnologia
Antonio Cezar Correia Freire, conhecido como Cezinha de Madureira, é um jornalista, radialista e político brasileiro, filiado ao Partido Liberal. Deputado federal por São Paulo desde 2019

Valéria Linhares nega relação com Cezinha de Madureira mas foi sócia de seu filho em rádio

|

Deputado do PL e advogada são investigados por tráfico de influência em tribunais superiores e ligados a André Mendonça

Quilombolas lutam por território ancestral contra imobiliária no interior de São Paulo

|

Descendentes de escravizados disputam título de terra contra empresa e denunciam ação da polícia

Lula proíbe bets e cita relato de mãe que perdeu o filho para apostas ao assinar Medida

|

Vânia Borges, que perdeu o filho para as apostas online, esteve com o presidente após matéria da Pública com seu relato

Análise da Abin aponta extrema-direita no Brasil como “facilitadora” de ofensiva de Trump

|

Desde novembro de 2025 análises sobre risco “crítico” de interferência vem sendo produzidos pela agência de inteligência
Garimpo na Terra Indígena Baú em 2026.

Indígenas Kayapó se colocam em risco para bloquear garimpo ilegal na Terra Indígena Baú

|

Dois meses após operação da PF, número de invasores quadruplicou, dizem órgãos; há suspeita de participação de facções