Agência de Jornalismo Investigativo

Telegrama da embaixada dos EUA em Moçambique revela preocupação com o modelo brasileiro de combate a HIV

29 de junho de 2011

Um telegrama enviado a Washington da embaixada americana em Moçambique revela preocupações dos americanos sobre a atuação brasileira no combate a AIDS no país.

O documento datado de 10 de junho de 2005 ainda recomenda que ações de auxílio da Casa Branca ao país lusófono africano aproveitem a experiência e os materiais brasileiros em português, mas sejam conduzidas com cuidado, devido a características do programa brasileiro que divergem de orientações dos Estados Unidos.

O documento descreve os resultados de visitas do então presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e de seu ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, a Moçambique. Uma série de convênios e acordos firmados entre os países são descritos, incluindo ações de educação e desenvolvimento agrícola, que envolveriam a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), estatal vinculada ao Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento.

Em meio aos detalhamentos de termos assinados para o combate à epidemia de HIV em Moçambique, o funcionário da embaixada recomenda o aproveitamento da experiência brasileira no país africano, mas com cautela. “O apoio direto do governo brasileiro a organizações e ONGs em Moçambique podem provocar problemas. Em maio (de 2005), o governo do Brasil recusou US$ 40 milhões da Usaid (agência de ajuda internacional dos EUA, por considerar que assinar uma declaração de condenação a prostutição e tráfico de drogas seria colocar em perigo o sucesso brasileiro de controlar a epidemia”, contextualiza.

O modelo brasileiro para combater HIV/Aids é considerado bem sucedido e o “mais progressista do mundo”, na definição do diplomata. “É baseado na aceitação” e “em políticas abertas” para trabalhadoras do sexo, para usuários de drogas injetáveis, para “homens que fazem sexo com homens” e para “outros grupos de ‘alto risco'”. Por outro lado, as medidas defendidas pelo governo dos EUA demandam que as organizações que pleiteam recursos oponham-se e reprimam o trabalho sexual e o uso de entorpecentes de qualquer espécie.

A recomendação para a Casa Branca é que se considere a possibilidade de apoiar acordos com o Brasil para auxiliar os moçambicanos, mas com uma ponderação. A aproximação do governo de Lula é analisada no âmbito da pretensão brasileira de ser uma “ator no palco mundial”. Assim, qualquer esforço do governo norte-americano teria de ser “abordada com cautela”, levando em conta as “sensibilidades” que afetassem relações bilaterais EUA-Brasil.

Telegrama da embaixada dos Estados Unidos em Maputo, capital de Moçambique, vazado pelo Wikileaks revela preocupação da diplomacia norte-americana com o modelo brasileiro de combate a HIV/Aids.

Por Anselmo Massad, especial paraa Pública

A mensagem datada de 10 de junho de 2005 ainda recomenda que ações de auxílio da Casa Branca ao país lusófono africano aproveitem a experiência e os materiais brasileiros em português, mas sejam conduzidas com cuidado, devido a características do programa brasileiro que divergem de orientações dos Estados Unidos.

O documento descreve os resultados de visitas do então presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e de seu ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, a Moçambique. Uma série de convênios e acordos firmados entre os países são descritos, incluindo ações de educação e desenvolvimento agrícola, que envolveriam a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), estatal vinculada ao Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento.

Em meio aos detalhamentos de termos assinados para o combate à epidemia de HIV em Moçambique, o funcionário da embaixada recomenda o aproveitamento da experiência brasileira no país africano, mas com cautela. “O apoio direto do governo brasileiro a organizações e ONGs em Moçambique podem provocar problemas. Em maio (de 2005), o governo do Brasil recusou US$ 40 milhões da Usaid (agência de ajuda internacional dos EUA, por considerar que assinar uma declaração de condenação a prostutição e tráfico de drogas seria colocar em perigo o sucesso brasileiro de controlar a epidemia”, contextualiza.

O modelo brasileiro para combater HIV/Aids é considerado bem sucedido e o “mais progressista do mundo”, na definição do diplomata. “É baseado na aceitação” e”em políticas abertas” para trabalhadoras do sexo, para usuários de drogas injetáveis, para “homens que fazem sexo com homens” e para “outros grupos de ‘alto risco'”. Por outro lado, as medidas defendidas pelo governo dos EUA demandam que as organizações que pleiteam recursos oponham-se e reprimam o trabalho sexual e o uso de entorpecentes de qualquer espécie.

A recomendação para a Casa Branca é que se considere a possibilidade de apoiar acordos com o Brasil para auxiliar os moçambicanos, mas com uma ponderação. A aproximação do governo de Lula é analisada no âmbito da pretensão brasileira de ser uma “ator no palco mundial”. Assim, qualquer esforço do governo norte-americano teria de ser “abordada com cautela”, levando em conta as “sensibilidades” que afetassem relações bilaterais EUA-Brasil.

Comentários

Mais recentes

Nove meses de luto

20 de Fevereiro de 2018 | por

Impedidas de escolher, grávidas de fetos com órgãos vitais comprometidos se preparam para o luto durante o pré-natal

Celso Amorim: “Para quem viveu os tempos da ditadura, essa prioridade absoluta da segurança interna é preocupante”

19 de Fevereiro de 2018 | por

Em entrevista, ex-ministro da Defesa critica tratamento a imigrantes venezuelanos e diz que intervenção no Rio é política e não militar

Documentos da CPI confirmam: Jacob Barata superfaturou aluguel de garagens no Rio

19 de Fevereiro de 2018 | por

Contratos obtidos pelos vereadores na CPI dos Ônibus confirmam denúncia da Pública; empresário nega

Explore também

O repórter que descobriu o whistleblower da Siemens

23 de agosto de 2013 | por

Há três anos, o jornalista Bryan Gibel veio da Universidade de Berkeley para o Brasil para investigar a corrupção no metrô de São Paulo; aqui, o jornalista encontrou o ex-executivo da Siemens que revelou quase tudo que se publica hoje sobre a relação entre Alstom, Siemens e o PSDB paulista

Após remoções para Transolímpica, Prefeitura do Rio descumpre acordo e deixa moradores endividados

21 de junho de 2016 | por

Moradores da zona oeste reassentados no Minha Casa, Minha Vida estão recebendo cobranças indevidas do Banco do Brasil, o que gera insegurança e medo; alguns estão com nome sujo no SPC

Um tapa na cara

9 de novembro de 2015 | por

As agressões sofridas por Verônica Bolina e o assassinato de Laura Vermont, duas trans de São Paulo, causaram revolta nas redes sociais. Mas suas histórias não são ponto fora da curva: todos os dias, homens e mulheres trans enfrentam uma profusão de desrespeitos e violências