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“Tomaram a frente, as fundiárias e depois as costelas”

Assentada pelo Incra teve sua terra invadida por grileiro, que colocou cercas em áreas que pertencem a ela

Reportagem
29 de fevereiro de 2012
07:25
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Antonia Maria dos Santos, 53 anos, nasceu no seringal Oco do Mundo, no Acre, onde aprendeu a viver do que tira da floresta e do que planta. Foi isso que ela fez nos últimos 10 anos dentro do assentamento Gedeão onde, com o fomento dado pelo Incra, plantou arroz, milho, macaxeira, banana, abacaxi e melancia. Hoje, porém, ela está impedida de plantar, tirar castanha, açaí ou borracha, pois o seu terreno foi quase todo tomado por grileiros.

Começou há quatro anos, quando ela teve de ir para Rio Branco passar umas semanas com a mãe doente. O marido estava sozinho em casa quando descobriu que um grileiro tinha mandado abrir uma “picada” (caminho no meio da mata) que cortava o terreno de Antônia pela metade. Os homens contratados para o serviço trabalhavam armados e diziam que a área havia sido vendida para um grileiro.

“Veio um bocado de gente aqui do assentamento para me ajudar”, diz Raimundo Paiva da Costa, marido de Antônia. “A gente disse que não podia entrar porque tinha que respeitar o pique feito pelo falecido Gedeão [primeiro líder do assentamento]. Eles responderam que o Gedeão agora tá medindo pique no inferno. Aí o povo desistiu”.

A área tomada era a parte preservada do lote, a mata nativa de onde a família tirava castanha, açaí e borracha. Meses depois, o irmão de Antônia andava por essa área quando foi encontrado pelo grupo e agredido com um soco no rosto. Em outro episódio, Raimundo teve sua enxada tomada e quase apanhou quando a pediu de volta.

Com medo das ameaças se concretizarem, o casal resolveu tocar a vida na metade que sobrou do terreno. No segundo semestre de 2011, porém, logo depois de uma visita do Incra, o mesmo grileiro cercou a frente e o lado do lote, deixando o casal restrito à área ao redor da casa. “Tomaram a frente, as fundiárias e depois as costelas, me deixaram só com esse pedacinho aqui que não dá pra nada”, diz Antônia.

Uma carta relatando o caso foi enviada ao Incra em novembro de 2011. Hoje, o grileiro arrenda o terreno que tirou dela. Ele ganha R$ 7 por cabeça de gado ao mês para alugar o pasto que invadiu.

 

Leia mais:  Nilcilene, com escolta e colete à prova de balas: “eles vão me matar” 

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