Agência de Jornalismo Investigativo

A audiência pública sobre a privatização do estádio símbolo do futebol brasileiro contada por quem estava lá

9 de novembro de 2012

A reforma e a privatização do Maracanã foram tema de uma audiência pública promovida pelo governo do estado do Rio de Janeiro na última quinta-feira (8), marcada por protestos e resistência da sociedade civil e dos movimentos sociais que foram noticiadas em todo o país. Isso porque o estádio símbolo do futebol carioca (e brasileiro) está em vias de ser repassado à iniciativa privada após uma série de reformas bancadas com dinheiro público. Fora isso, várias intervenções, como as demolições da Escola Municipal Friedenreich, do Parque Aquático Julio Delamare, do Estádio de Atletismo Celso de Barros e do Museu do Índio causam revolta entre os movimentos sociais.

Maracanosso ou Maracadeles?

O Copa Pública pediu ao membro do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas Gustavo Mehl, que participou da audiência pública, contar o que de fato aconteceu por lá. Leia:

“Logo no início da audiência de ontem, a gente pediu a fala. Era uma estratégia que estava combinada entre pais da Escola Municipal Friedenreich, alguns atletas, o pessoal da Aldeia Maracanã e o Comitê Popular. Eu li uma carta dizendo que a audiência não era válida porque um debate anterior deveria ter sido feito, sobre qual o tipo de gestão que o Maracanã deve ter, se pública ou privada e dizendo que a gente não iria participar desta farsa. Havia mais de 500 pessoas no lugar e todas estavam revoltadas, aplaudindo e gritando de forma unânime contra o teatro que estava montado para a entrega do Maracanã.

A partir daí foram duas horas de protestos, não houve audiência. Nós temos acompanhado várias audiências públicas do Estado do Rio de Janeiro e a verdade é que inverteram a lógica do que deveria ser uma conquista histórica de participação popular. São apresentados projetos, abre-se para algumas interferências e independente do que é falado, eles tocam o barco da maneira como querem. As audiências públicas são uma obrigação legal, mas estão funcionando como um rito formal para legitimar processos arbitrários.

Nós chegamos à audiência ontem conscientes de que esse circo iria ser armado novamente. Foram duas horas de vaias, apitaços, os ânimos estavam exaltados mas não houve violência em momento algum. De fato um indígena jogou uma sacola com fezes em direção à mesa, mas foi uma coisa dele, nós não sabíamos de nada. Alguns parlamentares concordaram que seria melhor cancelar a audiência pública e ainda assim o secretário estadual da Casa Civil, Régis Fichtner, como a gente esperava, seguiu com uma atitude extremamente patética, dizendo que “não era um pequeno grupo que iria fazer com que ele acabasse com a audiência”. E isso revoltou o pessoal ainda mais porque não era um “grupinho”, eram mais de 500 pessoas! Não existiu audiência pública. O que aconteceu foi uma grande confusão, falas da mesa ao microfone sendo abafadas pelas vaias e pelo clamor das pessoas.

Ainda assim, eles foram levando do jeito que dava e no fim o secretário declarou que seria uma derrota para a democracia se ele encerrasse a audiência. Mas que demoracia é essa? Nós estamos justamente criticando este processo tão arbitrário, quando o governo demoliu o Maracanã que tinha acabado de passar por duas reformas de mais de 400 milhões de dinheiro público. Era ali que deveria ter acontecido o debate. Desde o ano passado, quando o governo começou de forma mais concreta a afirmar para a imprensa que o Maracanã iria ser privatizado. Agora eles “destombam” o Julio Delamare às vésperas da minuta do edital, divulgam a nota do edital sem ter consultado a população ou os grupos afetados, fazem essa audiência pública mas na mesma semana o próprio secretário, o Sérgio Cabral e a secretária de esportes e lazer vão à imprensa para dizer que já está tudo fechado, que o modelo de privatização é esse, que a demolição da escola vai acontecer, que os equipamentos esportivos vão ser demolidos, que o Museu do Índio vai ao chão. De que adianta uma audiência Pública se as cartas já estão marcadas? Foi um escândalo, um escárnio e um grande símbolo de como a gente vive um momento muito delicado, não só no Rio de Janeiro mas em todo o país, de crise dos processos democráticos.

A demolição do Maracanã, a privatização e a intenção de elitizar o uso do estádio é um dos maiores crimes da história do Rio de Janeiro e da história do Brasil. Estão ignorando a nossa relação com o estádio e a vontade dos verdadeiros donos do Maracanã, as pessoas que usam, se relacionam, os torcedores brasileiros. O Maraca é nosso, não é a toa que os torcedores cantam isso. Se houve algum sentido nessa audiência pública de ontem, foi o de mostrar claramente o que a sociedade civil está dizendo sobre este processo. Não nos representa, não reconhecemos, não aceitamos e manifestamos repúdio absoluto à prepotência e autoritarismo do governo que imagina que vai tocar projetos contrários à vontade da população de forma impune.

Temos registros suficientes para provar que essa audiência não aconteceu. E vamos acionar os mecanismos competentes para questionar judicialmente a legitimidade dessa audiência. Não é possível que a demoracria brasileira aceite tamanho autoritarismo. Algum dia vão analisar o processo de destruição, reconstrução e venda do Maracanã, como um evento histórico emblemático da falta da participação popular e atentado à democracia”.

O blog Copa Pública é uma experiência de jornalismo cidadão que mostra como a população brasileira tem sido afetada pelos preparativos para a Copa de 2014 – e como está se organizando para não ficar de fora.

Mais recentes

Número de mortes causadas por PMs no Rio de Janeiro deve bater recorde com a intervenção, diz pesquisadora

23 de outubro de 2018 | por

Em entrevista à Pública, Sílvia Ramos avalia que presença das Forças Armadas não inibiu violência policial e há um comando para atirar e matar

Grupos pró-Bolsonaro no WhatsApp orquestram fake news e ataques pessoais na internet, diz pesquisa

22 de outubro de 2018 | por

Pesquisadores da Uerj acompanharam grupos de vários candidatos no aplicativo desde maio; bolsonaristas têm maior alcance e organização

Maioria das denúncias de coação eleitoral é pró-Bolsonaro

19 de outubro de 2018 | por e

Levantamento da Pública revela que pelo menos 28 empresas foram denunciadas por coação eleitoral pró-Bolsonaro e uma por coação contrária a ele. Há casos de camisetas e comunicados idênticos distribuídos por empresas diferentes

Truco!

Mesmo atrasado, projeto da avenida João Paulo II não custou R$ 86 mi por quilômetro

23 de outubro de 2018

Cálculo feito pelo candidato Helder Barbalho (MDB) não é correto, dizem especialista em planejamento e Núcleo de Gerenciamento do Transporte Metropolitano, responsável pela obra.

Em ranking de bancos de 2017, Banpará esteve entre líderes

23 de outubro de 2018

A classificação consta no Anuário Finanças Mais publicado em 2017. No entanto, o levantamento mais recente mudou a metodologia e o Banco do Estado do Pará não é considerado no ranking geral.

Certo, Anastasia: PIB de Minas e do Brasil eram bem melhores em 2010

22 de outubro de 2018

Anastasia acerta cenário econômico há 8 anos, quando governou o estado após a saída de Aécio Neves; Lula era presidente

Explore também

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que aceitou pedido de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff (PT).

| Flashback da semana | Governo empurra rombo para Congresso cobrir

4 de setembro de 2015 | por

Inédita previsão de déficit de R$ 30,5 bilhões para o Orçamento de 2016 agita ânimos em Brasília

A direita abraça a rede

22 de junho de 2015 | por

A ascensão dos grupos conservadores nas redes sociais – da revolta “pop” ao uso de perfis fake e robôs importados da campanha eleitoral

Terra de ninguém

15 de outubro de 2012 | por

Disputada por Ceará e Piauí, região de 3 mil Km2 vive isolada do resto do Brasil e sofre com a falta de serviços públicos, a seca e os políticos que, em vez de resolver, se aproveitam da situação