Buscar
Agência de jornalismo investigativo
Reportagem

O atentado de Boston e a “fábrica de terror” do FBI

Como o FBI de Boston incentivou um terrorista lunático a seguir em frente com seu plano mirabolante, para depois prendê-lo

Reportagem
31 de maio de 2013
12:00
Este artigo tem mais de 13 anos

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Será que os ataques de Boston poderiam ter sido impedidos? Logo depois dos ataques, essa pergunta ganhou destaque com as notícias de que o FBI estava seguindo o rastro do suposto terrorista Tamerlan Tsarnaev mais de dois anos atrás. Mas a pergunta é ainda mais enfatizada por outra operação que o FBI realizou na área de Boston durante o mesmo período – focada em um assunto diferente, e de importância duvidosa.

Em janeiro de 2011, quando o FBI examinou a ficha do suposto terrorista da Maratona de Boston e o descartou como ameaça, agentes do escritório de Boston foram atrás de outro suspeito de terrorismo. Ao mesmo tempo que decidiu parar de rastrear Tsarnaev – cuja viagem de seis meses para a Rússia, feita na época, é agora de primordial interesse dos investigadores – o FBI conduziu uma intrincada operação policial contra um jovem muçulmano que tinha um plano fantasioso de atacar o Capitólio dos Estados Unidos com um avião de controle remoto.

O contraste entre os dois casos ocorridos em Boston no início de 2011 levanta questões sobre a efetividade da estratégia antiterrorista do FBI.

Desde os ataques de 11 de setembro, em 2001, a prioridade do FBI tem sido prevenir um próximo ato terrorista. O órgão gasta US$ 3,3 bilhões com antiterrorismo todos os anos, a maior porção de seu orçamento anual de US$ 8,2 bilhões. (Isso representa US$ 650 milhões a mais do que o FBI gasta investigando o crime organizado, sua segunda maior prioridade de financiamento). Um elemento chave da estratégia do FBI tem sido fazer operações contra supostos terroristas – em muitos casos percorrendo longos caminhos para capacitar perpetradores improváveis, como dem onstrado em reportagem de 2011 na revista MotherJones, e no livro A Fábrica do Terror.

Tamerlan Tsarnaev, suspeito do atentado de Boston (Foto: Johannes Hirn)

O FBI tem atuado sobre esses suspeitos usando informantes e vigilância online, como análise da presença e do histórico do suspeito na internet, como atividades em fóruns extremistas, interesse em vídeos militantes jihadistas e outras coisas que indiquem simpatia por organizações terroristas.

Foi desta maneira que o FBI perseguiu vigorosamente Rezwan Ferdaus, formado pela Universidade de Northeastern, nascido em Massachusetts, que morava com os pais no subúrbio de Boston.

Ferdaus chamou a atenção do FBI por meio de um informante que fingiu ser agente da Al Qaeda – um homem que recebeu US$ 50 mil do FBI por seus esforços, enquanto escondia seu vício em heroína dos agentes.

De acordo com registros da justiça, Ferdaus segredou ao informante que queria destruir a cúpula de ouro do Capitólio dos EUA utilizando um avião de controle remoto recheado com granadas. Se esse plano já era improvável, a possibilidade de que Ferdaus pudesse tentar colocá-lo em prática também era: ele não tinha armas, e mesmo que soubesse onde comprar explosivos, Ferdaus estava falido.

Mas, através do seu informante pago, o FBI encorajou Ferdaus a seguir com sua ideia de atacar o Capitólio dos Estados Unidos.

A agência destinou recursos significativos para a operação, dando a Ferdaus US$ 4 mil para comprar um avião de controle remoto F-86 Sabre e fornecendo “explosivos” para ele – 25 quilos de C-4 falso e três granadas inertes.

Em maio de 2011, Ferdaus viajou para Washington, para analisar locais a partir de onde poderia lançar sua arma – tudo isso enquanto estava sendo secretamente filmado por agentes do FBI. Finalmente, em 28 de setembro de 2011, após uma operação policial de nove meses, agentes do FBI prenderam Ferdaus, acusando-o de, entre outras coisas, de tentar destruir um prédio federal e fornecer material de apoio para terroristas.

Ferdaus se declarou culpado e foi sentenciado a 17 anos de prisão, ainda que nenhuma prova indicasse que ele poderia ter construído e lançado uma arma sem o dinheiro e o material dado pelo FBI.

Desde os ataques de 11 de setembro, o FBI prendeu mais de 175 supostos terroristas usando operações como a de Boston, em que Ferdaus foi preso. Nessas operações caras e elaboradas, os alvos são geralmente homens às margens das comunidades muçulmanas. Muitos estão economicamente desesperados e alguns são doentes mentais, e são facilmente manipulados por informantes pagos e agentes secretos.

Trevor Aaronson é co-diretor do Centro de Reportagem Investigativa da Flórida e autor de A Fábrica do Terror: dentro da guerra fabricada do FBI contra o terrorismo ((The Terror Factory: Inside the FBI’s Manufactured War on Terrorism).

Baseado em reportagem publicada pelo Florida Center for Investigative Reporting. Leia aqui a reportagem original, em inglês. 

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Meta bloqueia conteúdos políticos pró-Lula e contra Flávio acusando terrorismo e nudez

|

Ministério Público Federal abre investigação contra a empresa e X por violação à liberdade de expressão

Um jumento na filarmônica

|

Contrabaixista na Europa volta ao Recife e reencontra crianças de projeto social que o iniciou na música há 20 anos

Em foto, Eduardo Bolsonaro aparece cercado de apoiadores da extrema direita na festa de gala da Hispanic Heritage

Eduardo Bolsonaro vive noite de celebridade na festa da extrema direita nos EUA

|

Ao som de “La Bamba” e “Macarena”, festa teve clima de vitória de Flávio Bolsonaro e ingressos de R$ 15 mil a R$ 50 mil

A misoginia de diálogos de Vorcaro e CEO que expôs atrizes: “Mulher não pode fazer isso”

|

CEO da Globo demitido hoje fez comentários machistas sobre Deborah Secco e Sabrina Sato, e chamou prefeita de vaca

Líder da oposição no Senado, senador Rogério Marinho (PL-RN) durante entrevista

Chefe da campanha de Flávio Bolsonaro esteve no Senado mas não votou na 6×1

|

Rogério Marinho (PL-RN) fez uma reunião de 3h, se encontrou com aliados e saiu sem falar com a imprensa

Daniel Vorcaro, do Banco Master, e Fred Kachar, do Grupo Globo

A linha direta de Vorcaro dentro do Grupo Globo: “Quer que peça pra corrigir?”

|

Vazamento de mensagens do ex-banqueiro a Fred Kachar expôs interferências editoriais e levou à demissão do executivo

Montagem feita por IA com imagens do presidente Lula e do candidato Flávio Bolsonaro

Meta barra mais conteúdos pró-Lula e progressistas que pró-Flávio, aponta levantamento

|

Levantamento documentou mais de mil casos de restrições e banimentos nas plataformas em outubro

Plenário do Senado Federal durante sessão que votou PEC do fim da Escala 6x1

Fim da escala 6×1 é a maior mudança na jornada do trabalhador brasileiro desde 1988

|

Com 75 votos a favor e um contra nos dois turnos de votação, PEC aprovada garante dois dias de descanso a trabalhadores

Um quarto dos senadores que apoiam a PEC da Flexibilidade tem antepassados escravocratas

|

Levantamento da Agência Pública no Projeto Escravizadores mapeou famílias de mais de cem políticos brasileiros

Tropa do Esquadrão de Polícia Montada que atua no entorno dos estádios de futebol, passam por instrução, na sede de Itapuã em Salvador.

No meio do caminho tinha uma norma – o que explica mortes causadas por policiais da Bahia

|

Instrução normativa de 2019 dificultou investigação de policiais militares; estado é onde as polícias mais matam

Integrantes da Bancada Indígena do Congresso Nacional, Sônia Guajajara (à esquerda) e Célia Xakriabá (à direita)

Bancada indígena diminui no Congresso e lideranças se preparam para desmonte e retrocesso

|

Representantes do movimento indígena citam risco às demarcações, imposição do Marco Temporal e aparelhamento da Funai

Colagem com frames de vídeos de Lula nas redes sociais

Do susto ao mutirão: como a campanha de Lula tenta virar o jogo nas redes e nas ruas

|

Campanha tenta virar o jogo com nova abordagem nas redes, atos pelo Brasil e engajamento de influenciadores e artistas