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Agência de Jornalismo Investigativo

O jornalista britânico manda uma mensagem para aqueles que protestam contra a Copa das Confederações e a Copa do Mundo

18 de junho de 2013
16:25
Este texto foi publicado há mais de 7 anos.
Especial: Copa Pública

Aos meus queridos amigos dos Comitês Populares, com quem me reuni no ano passado; aos jornalistas e estudantes com quem conversei naquela mesma semana; e a todos que estão nas ruas protestando.

Oscar Niemeyer ficaria tão orgulhoso da noite passada! Foi a união da arte com a ação política! Aquele lindo Congresso construído por ele, decorado e aprimorado por uma nova geração de radicais no telhado, pedindo mudanças, o fim da corrupção e o fim da cooperação com a gananciosa máfia da Fifa.

As fotos dessa ocupação respeitosa foram vistas mundo afora. E são mais do que fotos novas. Elas mandam um sinal ao resto do mundo: você não precisa mais sofrer pagando impostos que são roubados por políticos corruptos e empreiteiros tortos, que distribuem esse dinheiro aos cartolas internacionas e à guarda avançada do capitalismo McDonalds, Coca-Cola, Visa e Castrol, que vêm tomando de assalto o seu país.

A mensagem era clara: nós repudiamos veementemente os lucros ultrajantes com a Copa do Mundo e a não-aplicação desses recursos em necessidades sociais básicas.

A resposta de Dilma e de Aldo Rebelo foi dar apoio à violência policial contra as pessoas que foram às ruas nas cidades brasileiras.

Eu acabei de ler as 676 páginas da CPI coordenada por Aldo Rebelo em 2001, para investigar a corrupção de Ricardo Teixeira na CBF, os acordos íntimos com a FIFA e a notória manipulação do contrato com a Nike, que vendeu o futebol que era do povo à fabricante de calçados dos EUA.

A raiva de Rebelo contra a máquina era muito clara.

Onde estava Aldo Rebelo ontem? Ele estava… Na favela? Ou explicando aos torcedores que ele não teve outra escolha a não ser deixar que os contratos fraudulentos com as construtoras fossem executados? Talvez ele estivesse se encontrando e simpatizando com a causa das famílias removidas por especuladores que lucraram com a Copa do Mundo?

Não. Rebelo preferiu a companhia do inimigo. Ele foi escolhido como palestrante principal durante uma conferencia no Copacabana Palace organizada pela voz do mercado internacional, o Financial Times. Apresentado como ‘aquecimento para o ritmo da política e dos negócios do futebol em Copacabana’, Rebelo abraçava seu novo camarada, companheiro de discurso na noite, Sepp Blatter.

Junto deles havia patrocinadores, empreendedores do futebol nacional e mundial, e o grupo cativo de parasitas que se alimentam dos jogos do povo, e o chefe incrivelmente rico da Copa de 2022 no Qatar. E claro, a Globo.

Como o poder mudou o camarada Rebelo. O que houve com a raiva de Rebelo?

Será que Rebelo foi visto nas ruas do Rio, tentando impedir o roubo do Maracanã, que pertencia ao povo? Não ouvi nada a respeito.

Será que Rebelo protestou contra a construção de luxuosos camarotes que reduziram o espaço do Maracanã a torcedores comuns? Esses camarotes estão sendo vendidos a preços exorbitantes para membros da comunidade internacional de negócios.

Outra imagem clara do que tem sido feito no Brasil são as fotografias de dois anos atrás que mostram o chefão da FIFA, Jérôme Valcke, abraçado a Ricardo Teixeira, no Rio. Teixeira é visto como um corrupto, suspeito de envolvimento em casos de propinas com as construtoras dos estádios da Copa. E Valcke não é bobo. Ele fez o maior barulho sobre a necessidade do Brasil por esses novos estádios. Onde estão os policiais federais? O trabalho começou, lentamente, em São Paulo mas precisa ser espalhados por todas as doze cidades-sede.

Em dezembro do ano passado, em São Paulo, quando as plateias começaram a me aplaudir depois das palestaras, eu as interrompi. “Não! Me vaiem”, exigi! “Treinem para quando chegar a hora do Blatter. Me vaiem. Mais alto! Mais alto ainda!”

E, essa semana, vocês vaiaram. A prática leva à perfeição.

Continuem vaiando, camaradas. Continuem vaiando Blatter e os ardilosos da FIFA seja lá onde eles aparecerem durante a Copa das Confederações.

Tirem os ladrões das ruas, dos hotéis, das extravagantes celebrações regadas a champanhe e, principalmente, tirem eles dos futuros elefantes brancos que vão se tornar os estádios.

Vaiem e assobiem quando as limousines deles chegarem, vaiem nos camarotes VIPs, vaiem tão alto que impeça o início dos jogos, que o apito do juiz não seja ouvido.

Forcem o Blatter e a FIFA a deixarem os estádios. Tirem a FIFA da Copa do Mundo.

E depois disso? Direcionem sua raiva para reclamar seu país de volta e tirar de cena os seus próprios trapaceiros.

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