Buscar
Agência de jornalismo investigativo
Reportagem

Banco Mundial violou suas próprias regras na Etiópia, diz relatório vazado

Órgão interno de fiscalização encontra ligação entre financiamento do Banco Mundial e reassentamento em massa de grupo indígena por governo etíope

Reportagem
23 de janeiro de 2015
09:16
Este artigo tem mais de 11 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Crianças Anuak no campo de refugiados Gorom, no Sudão do Sul. Muitos Anuak fugiram da Etiópia durante a campanha de reassentamento do governo chamada "villagization" (formação de vilas). Foto: Andreea Campeanu/ICIJ
Crianças Anuak no campo de refugiados Gorom, no Sudão do Sul. Muitos Anuak fugiram da Etiópia durante a campanha de reassentamento do governo chamada “villagization” (formação de vilas). Foto: Andreea Campeanu/ICIJ

Por Sasha Chavkin, do ICIJ

O Banco Mundial violou sistematicamente suas próprias regras ao financiar uma iniciativa de desenvolvimento na Etiópia acusada de ter causado remoções forçadas de milhares de indígenas, de acordo com um relatório vazado, feito pelo Painel de Inspeção, órgão de fiscalização interna do Banco Mundial.

O relatório, obtido pelo International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ), examina uma iniciativa de educação e saúde que foi financiada por cerca de US$ 2 bilhões do Banco Mundial ao longo da última década. Membros do grupo indígena Anuak, da província de Gambella, na Etiópia, acusaram as autoridades do país de destinar parte do dinheiro do projeto a financiar um programa de remoções forçadas em massa. Além disso, acusaram os soldados de bater, estuprar e matar os Anuak que se recusaram a abandonar suas casas. O banco continuou financiando a iniciativa de educação e saúde ao longo de anos após as alegações emergirem.

O relatório do Painel de Inspeção descobriu uma “ligação operacional” entre o programa financiado pelo Banco e o esforço de reassentamento do governo etíope conhecido como “villagization” (formação de vilas). Ao não reconhecer essa ligação e não agir para proteger as comunidades afetadas, o Banco Mundial violou suas próprias políticas de avaliação de projetos e de riscos, análise financeira e proteção de comunidades indígenas, concluiu o relatório do Painel.

“O Banco permitiu a transferência forçada de dezenas de milhares de indígenas de suas terras ancestrais”, disse David Pred, diretor da Inclusive Development International, organização sem fins lucrativos que apresentou a reclamação ao Painel de Inspeção em nome de 26 refugiados Anuak.

O Banco Mundial se recusou a responder as perguntas do ICIJ sobre o relatório. “Como procedimento padrão, o Banco Mundial não pode comentar os resultados das investigações do Painel de Investigação até o Conselho Executivo do Grupo Banco Mundial ter tido a oportunidade de analisar o relatório do Painel nas próximas semanas”, disse Phil Hay, porta-voz do Banco para a África, em comunicação por escrito.

Em respostas dadas anteriormente à mesma reclamação, a administração do banco disse que não havia evidências de remoções ou abusos generalizados e que os Anuak “não foram nem serão, direta ou negativamente afetados por uma falha de implementação das políticas e procedimentos do Banco.”

Como o relatório do Painel ainda não foi publicado, partes do texto podem ser revisadas antes do lançamento da versão final, mas espera-se que suas conclusões básicas não mudem.

O relatório não chega a responsabilizar o Banco pelos abusos mais sérios. As alegações de remoções forçadas e violações de direitos humanos amplamente relatadas não foram verificadas pelo Painel, que considerou essas questões além do escopo de sua investigação. O Banco não violou sua política de reassentamento forçado, diz o relatório, porque as realocações foram conduzidas pelo governo etíope e não eram parte “necessária” ao programa de saúde e educação.

Desde 2006, o Banco Mundial e outros doadores internacionais financiam o programa Promoting Basic Services (PBS – Promoção de Serviços Básicos), que concede a governos locais e regionais recursos para serviços como saúde, educação e água potável. O programa PBS foi estruturado para impedir a canalização de recursos assistenciais diretamente para o governo federal da Etiópia, que havia reprimido violentamente seus opositores após as disputadas eleições de 2005.

Até 2010, autoridades federais e provinciais trabalhavam para tirar cerca de 2 milhões de pessoas pobres de casas rurais isoladas e realocá-las em vilas em locais selecionados pelo governo em quatro províncias do país. Autoridades prometeram que nessas novas vilas as comunidades realocadas teriam acesso a sistemas de saúde, educação e outros serviços básicos – o que antes elas não possuíam.

Em Gambella, o governo realocou residentes de 37.883 domicílios, aproximadamente 60% de todas as casas da província, de acordo com estatísticas do governo da Etiópia citadas pelo Painel de Inspeção. O governo etíope disse que todos os reassentamentos foram voluntários.

Muitos dos Anuak, um grupo indígena majoritariamente cristão de Gambella, disseram porém que não queriam se mudar. Os indígenas e seus advogados declararam que eles foram retirados de suas terras férteis por soldados e policiais e que, depois, boa parte das terras foram arrendadas pelo governo a investidores. As remoções foram “acompanhadas por violações de direitos humanos generalizadas, incluindo desalojamento forçado, prisões e detenções arbitrárias, espancamentos, estupros e outras violências sexuais, de acordo com um relatório da ONG Human Rights Watch, publicado em 2012.

O relatório da Human Rights Watch e a reclamação dos refugiados Anuak ao Painel de Inspeção denunciam o uso de recursos do Banco por autoridades locais e regionais para sustentar realocações forçadas. Eles dizem, por exemplo, que os salários dos oficiais do governo que ajudaram a realizar as remoções foram pagos com recursos da iniciativa PBS.

O Banco Mundial continuou apoiando o programa PBS ao longo da campanha de formação das vilas. Em 2011 e 2012, o Banco aprovou novos financiamentos para o PBS e até hoje apoia a iniciativa. Desde o lançamento do PBS, a Etiópia vem registrando avanços na redução da mortalidade infantil e no aumento das matrículas na educação primária.

A campanha da realocação para as novas vilas terminou em 2013 e acredita-se que tenha reassentado número substancialmente menor do que a estimativa de 2 milhões de pessoas antecipada pelo governo.

O caso da Etiópia é um entre uma série de projetos recentes financiados pelo Banco Mundial que atraíram críticas de grupos ativistas por supostamente terem também financiado violações de direitos humanos. Entre eles está um empréstimo para uma empresa produtora de óleo de palmeira em Honduras, cujos guardas foram acusados, por advogados de direitos humanos, de assassinar dezenas de camponeses envolvidos em uma disputa por direitos agrários com a companhia; e um programa de conservação ambiental do governo do Quênia denunciado pelo povo Sengwer como ferramenta para forçá-los a sair de suas florestas ancestrais.

No caso da Etiópia, o Painel de Inspeção decidiu que as alegações mais severas de remoções forçadas e violência estavam fora da competência do seu mandato; em parte porque as regras do banco limitam a investigação a ações realizadas com recursos da parcela mais recente de financiamento ao programa PBS.

Durante sua investigação, o Painel de Inspeção pediu a Eisei Kurimoto, professor da Universidade de Osaka no Japão e especialista no povo Anuak para viajar a Gambella e ajudar a analisar a reclamação dos Anuak.

Kurimoto relatou ao ICIJ que os Anuak com quem ele falou disseram que as autoridades etíopes usaram ameaças de violência para forçá-los a se mudar. Os oficiais da Etiópia que conduziram o programa de reassentamento “sempre iam com policiais e soldados armados”, contou Kurimoto. “Está muito claro que o governo regional pensava que muitas pessoas não iriam se mudar feliz ou voluntariamente. Então eles precisaram mostrar seu poder e a possibilidade de usar a força”.
.yarpp-related{display:none;}
David Pred, da Inclusive Development International, disse que agora cabe ao presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, decidir se a “justiça será feita” no caso dos Anuak. “A justiça começa com a aceitação da responsabilidade pela culpa – o que o Painel de Inspeção encontrou em abundância – e termina com o fornecimento de compensações significativas”, afirmou.

 

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia também

Desconstruindo Luanda Sul

|

Como uma offshore da Odebrecht investigada na Lava Jato participou do projeto que levou a remoções violentas, segregação social e enriquecimento da elite na capital angolana

A multinacional que veio do Brasil

|

Vale conclui megaprojeto para exportação de carvão em Moçambique que expulsou mais de 10 mil pessoas e hoje emprega menos de 2 mil trabalhadores locais

Notas mais recentes

Últimas pesquisas e fim da propaganda eleitoral marcam semana antes do primeiro turno


Paulo Gonet segue no caso Master após decisão do Conselho do Ministério Público Federal


Nossa Senhora Aparecida: boato sobre padroeira domina redes e chega ao TSE


Deputadas de Minas pedem suspensão de decreto de Zema que beneficiou mineradora Cedro


Lula discursa na ONU e Conselho do Ministério Público avalia ações de Gonet no caso Master


Leia também

Desconstruindo Luanda Sul


A multinacional que veio do Brasil


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Rio de Janeiro (RJ), 08/03/2023 - Ato denúncia em frente à Câmara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o Feminicídio

Na Amazônia Legal, 9 em cada 10 vítimas de feminicídio em 2025 não tinham medida protetiva

|

Levantamento em oito estados mostra que mulheres morrem desprotegidas; recurso jurídico é alternativa para evitar crime

Nossa Senhora Aparecida vira evento eleitoral e aprofunda crise entre ministros do STF

|

Monitoramento mostra que debate nas redes ultrapassou boato inicial e passa de 12 milhões de interações em poucos dias

Fachada do Congresso Nacional, em Brasília.

Os candidatos das Big Techs nas eleições 2026

|

Levantamento mostra quais políticos brasileiros têm atuado a favor dos interesses das grandes corporações de tecnologia

Antonio Cezar Correia Freire, conhecido como Cezinha de Madureira, é um jornalista, radialista e político brasileiro, filiado ao Partido Liberal. Deputado federal por São Paulo desde 2019

Valéria Linhares nega relação com Cezinha de Madureira mas foi sócia de seu filho em rádio

|

Deputado do PL e advogada são investigados por tráfico de influência em tribunais superiores e ligados a André Mendonça

Quilombolas lutam por território ancestral contra imobiliária no interior de São Paulo

|

Descendentes de escravizados disputam título de terra contra empresa e denunciam ação da polícia

Lula proíbe bets e cita relato de mãe que perdeu o filho para apostas ao assinar Medida

|

Vânia Borges, que perdeu o filho para as apostas online, esteve com o presidente após matéria da Pública com seu relato

Análise da Abin aponta extrema-direita no Brasil como “facilitadora” de ofensiva de Trump

|

Desde novembro de 2025 análises sobre risco “crítico” de interferência vem sendo produzidos pela agência de inteligência

Garimpo na Terra Indígena Baú em 2026.

Indígenas Kayapó se colocam em risco para bloquear garimpo ilegal na Terra Indígena Baú

|

Dois meses após operação da PF, número de invasores quadruplicou, dizem órgãos; há suspeita de participação de facções