Agência de Jornalismo Investigativo

Para Pauderney Avelino, do DEM, todas as pessoas sem trabalho atualmente foram resultado dos governos Lula e Dilma

8 de maio de 2017
Dilma Rousseff participa de ato político em Salvador
Dilma Rousseff participa de ato político em Salvador. Foto: Roberto Stuckert Filho

“Nós queremos dar emprego aos quase 14 milhões de desempregados que o governo do PT colocou na rua.” – Pauderney Avelino (DEM-AM), deputado federal, em discurso no plenário da Câmara no dia 26 de abril.

Deputado federal pelo DEM de Amazonas, Pauderney Avelino (DEM) afirmou, em discurso durante discussão da reforma trabalhista na Câmara, que o governo do PT seria responsável por colocar na rua “quase 14 milhões de desempregados”. Procurada pelo Truco – projeto de checagem de fatos da Agência Pública, a assessoria do deputado afirmou que o dado apontado pelo deputado está disponível em diversas agências de notícias e que a fonte primária e oficial seria o site do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, referente ao primeiro trimestre de 2017, estimou em 14,17 milhões o número de pessoas desocupadas no Brasil. O número é similar ao apontado pelo deputado, que falou em “quase 14 milhões”. Segundo a metodologia do IBGE, são classificadas como desocupadas as pessoas não ocupadas que tomaram alguma providência efetiva para conseguir um trabalho no período da pesquisa. O número equivale a 13,7% da População Economicamente Ativa brasileira.

Entretanto, não é correto afirmar que o “governo do PT colocou na rua” este contingente. O impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) ocorreu em agosto de 2016. No trimestre em que aconteceu a destituição, que vai de julho a setembro de 2016, a população desocupada no Brasil era menor: 12,02 milhões de pessoas. Em termos porcentuais, o número representava 11,8% da população. O número aumentou cerca de 1% a cada trimestre desde esse período, chegando às mais de 14 milhões de pessoas no trimestre mais recente, que se encerrou em março de 2017.

Além disso, é importante destacar que o número de desempregados que surgiram no governo do PT também não corresponde a 12 milhões de pessoas. Isso porque, quando o partido assumiu, já existiam cidadãos desocupados no país. Como o desemprego registrado no Brasil nunca foi nulo, não é correto afirmar que o governo petista é responsável por todos os desempregados registrados nas pesquisas feitas ao final do governo Dilma.

Por conta de diferenças de metodologia, não é possível comparar os números do final do governo PT com os dados do IBGE de 2003, quando Lula assumiu, ou de 2011, quando Dilma iniciou seu primeiro mandato. A Pnad, pesquisa usada atualmente para indicar o índice de desemprego no país, só assumiu seu formato atual em 2012. Até então, a pesquisa do IBGE que avaliava desocupação era a Pesquisa Mensal do Emprego (PME), realizada em apenas seis capitais brasileiras. A PME, que foi realizada até fevereiro de 2016, só coletava dados em seis regiões metropolitanas. De acordo com a assessora de imprensa do órgão, Adriana Saraiva, o IBGE era muito cobrado pelas lacunas que essa pesquisa trazia. Os dados das seis capitais selecionadas na pesquisa não refletiam o cenário geral do país, já que ela não abarcava informações sobre o desemprego rural, além de fenômenos regionais.

De acordo com estatísticas da PME, a taxa de desocupação em janeiro de 2003, quando Lula assumiu, era de 11,2%. No final de seu primeiro mandato, em 2006, o índice estava em 8,4%. No segundo mandato, o índice começa em 9,3% em 2007 e se encerra em 5,3% em dezembro de 2010.

Já o mandato de Dilma se inicia em janeiro de 2011, com uma taxa de 6%, e acaba com uma taxa de 4,3%, em dezembro de 2014. O segundo mandato da petista tem início em janeiro de 2015, com índice de 5,3%. Em fevereiro de 2016, seis meses antes do impeachment, a PME é suspensa. O índice registrado no último mês da pesquisa foi de 8,2%.

O deputado federal Pauderney Avelino (DEM-AM), em reunião na Câmara
O deputado federal Pauderney Avelino (DEM-AM), em reunião na Câmara. Foto: Cleia Viana/Câmara dos Deputados

Portanto, é incorreto afirmar que o governo do PT é responsável por “colocar na rua” um total de “quase 14 milhões de desempregados”. A afirmação foi classificada como distorcida, pois os dados foram usados na frase para produzir uma falsa interpretação da realidade.

Atualização (08/05, às 14h05): Texto corrigido para deixar mais claro que os 13,7% de desempregados referem-se à População Economicamente Ativa.

Truco

Este texto foi produzido pelo Truco, o projeto de fact-checking da Agência Pública. Entenda a nossa metodologia de checagem e conheça os selos de classificação adotados em https://apublica.org/truco. Sugestões, críticas e observações sobre esta checagem podem ser enviadas para o e-mail truco@apublica.org e por WhatsApp ou Telegram: (11) 99816-3949. Acompanhe também no Twitter e no Facebook. Desde o dia 30 de julho de 2018, os selos “Distorcido” e “Contraditório” deixaram de ser usados no Truco. Além disso, adotamos um novo selo, “Subestimado”. Saiba mais sobre a mudança.

Mais recentes

Vídeo falso diz que eleições de 2014 foram fraudadas

27 de outubro de 2018 | por

Vídeo de suplente de deputada coloca em dúvida eleições de 2014 com dados irreais e um "especialista" não identificado

Em economia, Bolsonaro cita dados falsos e Haddad subestima e acerta

26 de outubro de 2018 | por , e

Em 4 frases checadas, presidenciável do PSL usou informações falsas; já Haddad citou número inferior ao real e fez uma afirmação correta

Alunos da rede pública de ensino do Distrito Federal realizam atividades: candidatos têm propostas distintas para a área

Haddad exagera e Bolsonaro erra em frases sobre educação

26 de outubro de 2018 | por e

Números foram superestimados por candidato do PT, enquanto presidenciável do PSL citou informações falsas

Explore também

Modelo de urna eletrônica adotada na disputa de 2014

Distritão desperdiça votos, atrapalha renovação e dificulta eleição de minorias

31 de agosto de 2017 | por

Cientistas políticos ouvidos pela Pública e estudos confirmam problemas apontados pelo deputado Alessandro Molon

Guilherme Boulos, em entrevista à EBC: dados atuais mostram que 40% dos presos no país são provisórios, não 30%

Boulos subestima o número de presos provisórios

24 de setembro de 2018 | por

Segundo Conselho Nacional de Justiça, 40% dos detentos são provisórios no Brasil – não 30%, como disse o candidato à Presidência pelo PSOL

Alerta! Perigo!

Aumento no uso de carvão mineral. Que medo, Afonso Hamm!

28 de agosto de 2015 | por

“O mundo todo utiliza carvão mineral para 41% da geração elétrica; e o Brasil, menos de 2%. Então, nós temos espaço [para crescer].” – Afonso Hamm (PP-RS), deputado federal, durante evento em que foi reinstalada a Frente Parlamentar Mista em Defesa do Carvão Mineral, na terça-feira (25)