Buscar
Coluna

Corpo do ‘índio do buraco’ passa por exames em Brasília

Indigenistas pedem que, depois, ele seja devolvido à sua terra em Rondônia

Coluna
29 de agosto de 2022
15:47
Este artigo tem mais de 4 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

O corpo do indígena conhecido como “índio do buraco”, encontrado na semana passada em seu tapiri numa área de mata em Rondônia, chegou a Brasília neste domingo (28). Transportado de Vilhena (RO) por avião, ele passará por exames da perícia da Polícia Federal no INC (Instituto Nacional de Criminalística), no Setor Policial Sul da capital federal. A morte foi revelada pela Agência Pública na manhã do sábado (27), e confirmada somente horas depois pela Funai numa nota divulgada na tarde do mesmo dia.

Indigenistas concordam com os exames, mas pedem que o corpo seja devolvido o mais rápido possível e sepultado no mesmo local em que ele vivia isolado desde, pelo menos, 1996. Esse desfecho é apoiado por setores da Funai e pelo Ministério Público Federal, que esperam conseguir apoio do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) a fim de preservar os 8 mil hectares que estão interditados por portaria desde os anos 1990 para a garantia do modo de vida do “índio do buraco”.

Também está sendo examinada uma série de materiais encontrados ao lado do corpo, como cabaças, flechas, espigas de milho e colheres de pau. Foi retirada uma amostra da vegetação do entorno e água do córrego usado pelo indígena para se checar a presença de alguma contaminação por agrotóxico ou outra substância que possa ter contribuído para uma doença ou morte. Até aqui, Polícia Federal e Funai trabalham com a hipótese de morte natural, pois não foram achados sinais de violência no corpo nem vestígios de que outras pessoas invadiram o tapiri.

Na imagem, podemos ver entre a vegetação o ''Índio do buraco''.
“Índio do buraco” se recusou várias vezes a manter contato com não indígenas e mesmo outros indígenas da região

Será analisada ainda uma imagem captada do indígena cerca de um mês antes de sua morte. A Funai havia instalado uma câmera de vigilância na vegetação perto do tapiri já com a intenção de prevenir eventual violência contra o indígena. Segundo indigenistas, a imagem mostra o “índio do buraco” caminhando com apoio de um cajado, o que pode indicar que ele estava com alguma debilidade física.

A equipe de peritos criminais federais da PF, incluindo um especializado em medicina, tentará determinar a causa do óbito e definir o estado geral de saúde do indígena quando de sua morte. Ela teria ocorrido há mais de um mês e foi constatada na última quarta-feira (24) por servidores da Funai (Fundação Nacional do Índio) que monitoravam o indígena há quase três décadas e estranharam seu sumiço de alguns setores da mata que ele costumava frequentar.

Na semana passada, a PF e a Funai foram acionadas pelo servidor da Funai que primeiro chegou ao local, o indigenista Altair Algayer – que, ao lado do indigenista Marcelo dos Santos, outros indígenas e servidores da Funai, também fez os trabalhos que confirmaram a existência do indígena nos anos 1990. Em meados de 1996, Algayer e Santos investigaram a informação repassada pelo cozinheiro de uma serraria na região sobre um misterioso índio cuja presença na mata estava causando temor entre madeireiros. Parte das tentativas de contato foi filmada pelo documentarista Vincent Carelli. Desde então, o “índio do buraco”, sobre o qual nunca se soube nome, língua e grupo étnico – embora a Funai tenha emitido a nota neste sábado (27) com o título “Índio Tanaru”, na verdade, um nome inventado por não indígenas –, se recusou várias vezes a manter contato com não indígenas e mesmo outros indígenas da região.

Equipes da PF de Brasília e a Funai estiveram no tapiri onde o corpo foi encontrado e realizaram uma série de exames, a chamada “perícia do local”, incluindo o escaneamento do último dos 53 buracos escavados pelo indígena, para compor imagens 3D. Deslocada de Brasília, a equipe inclui quatro peritos que também atuaram na investigação sobre o assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips no Vale do Javari, no Amazonas, em 5 de junho.

Os objetos reunidos pelos peritos poderão ajudar a iluminar os últimos dias da vida do “índio do buraco”. A imagem de vídeo indica que ele aparentemente estava debilitado nas semanas ou dias anteriores à sua morte. Sua dieta provavelmente estava reduzida a mamão e milho (acharam seis espigas ao lado do corpo).

Uma queixada foi encontrada intacta numa das armadilhas – ele cavava buracos, instalava uma lança no fundo e os cobria com folhagem –, o que indica que a partir de algum momento ele não teve mais forças para retirá-la e prepará-la como alimento. As várias flechas que ele fabricou ao longo do tempo – eram pelo menos quatro tipos de flechas, segundo indigenistas, uma para caçar arara, outra para caçar paca, e assim por diante – estavam enfeixadas ao lado do corpo, como se indicasse que, enfim, ele não precisaria mais usá-las, de acordo com um servidor que teve acesso ao local.

Cova aberta pelo ''Índio do buraco''
Indígena ficou conhecido por abrir covas no chão

Indígena manteve sua decisão até o final de não procurar contatos

Apesar desses sinais sobre a saúde, o indígena manteve sua decisão até o final de não procurar contatos com não indígenas ou mesmo indígenas. Indigenistas lembram que outros grupos de isolados na região, como os Kanoê e os Akuntsu, sofreram perseguições e massacres ao longo de décadas, ações que muito provavelmente também devem ter exterminado o grupo do “índio do buraco”, tornando-o resistente e desconfiado sobre qualquer aproximação de estranhos. Ele se recusava a tocar alimentos deixados como presente pelos indigenistas na mata. Isso se junta à notícia de que indígenas foram envenenados na região com carne contaminada deixada por invasores.

Para os indigenistas especializados em povos indígenas isolados Marcelo dos Santos, que trabalhou nos anos 1990 na localização do “índio do buraco”, Antenor Vaz e Sydney Possuelo, o corpo deve ser restituído o mais rápido possível e enterrado no mesmo local em que o indígena morreu, em Rondônia.

“O primeiro passo é manter a terra livre e protegida. Embora eu duvide que esse governo, que é um governo anti-indígena, vai se esforçar para isso de alguma forma. É boa a ideia de fazer um marco em homenagem a esse povo, um centro de estudo que fosse aberto ao público em geral também”, disse Possuelo, que nos anos 1980 e 1990 estabeleceu frentes de proteção etnoambiental em pontos diversos da Amazônia a fim de monitorar e preservar indígenas isolados e seus territórios.

Santos e Vaz disseram que associações indígenas de Rondônia já falam na necessidade de organizar uma cerimônia fúnebre para o enterro do indígena na mesma mata em que viveu por décadas. “Para nós é fundamental que o corpo seja devolvido. E que se faça um memorial, um centro de treinamento e estudos, que se preserve o território de alguma forma. Que se façam os exames, isso é necessário, mas que o devolvam para sua casa”, disse Santos.

Reprodução Vídeo Funai
Reprodução Funai

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

O ex-senador Eduardo Suplicy é detido em reintegração de posse próximo a Cohab Educandário

Levantamento aponta um caso de violência política a cada 37 horas durante campanha de 2026

|

Monitoramento exclusivo da Pública por 17 dias chegou a 11 casos cujos agressores são, na maioria, agentes de segurança

Dos clubes de tiro ao poder: segmento de armas injeta mais de R$ 1,2 milhão nas eleições

|

Empresários do setor doaram para 96 candidatos – PL, Republicanos e Novo lideram recebimento de recursos

Visita à Heritage Foundation de Sérgio Sant'Ana e Eduardo Bolsonaro

Empresário que fundou Instituto com Eduardo Bolsonaro presta serviço para campanhas

|

Empresa de Sérgio Sant’Anna recebeu R$340 mil; empresário diz que ICL está “inativo” e que se afastou do ex-deputado

O senador Flávio Bolsonaro, durante sessão da Comissão de Desenvolvimento Regional do Senado

Flávio Bolsonaro, os hospitais federais e a pandemia de Covid no Rio de Janeiro

|

Contratos superfaturados, demissões e hospitais sucateados: como Flávio influenciou a saúde do Rio no governo do pai

Ex-jogador da seleção brasileira de basquete dos anos 1980 Nilo Guimarães. Ele foi secretário de esportes de Mogi da Cruzes, na região metropolitana de São Paulo, por 12 anos (2009-2020).

Empresa de ex-secretário de Esportes de Mogi recebeu dinheiro de emenda Pix de Mario Frias

|

Sócio de Nilo Guimarães na Pulsa Uniformes diz que material foi entregue, mas não envia comprovação

A execução de Davi Sebba e a teia de policiais que Goiás levou 14 anos para julgar

|

Letalidade policial quase triplicou em 2012, ano do crime; governador era Marconi Perillo, candidato ao cargo em 2026

Investigação e processos criminais: o rastro legal dos deputados da Comissão de Segurança

|

CSPCCO: 12 deputados ligados a forças de segurança foram parte em procedimentos criminais, que vão de calúnia a agressão

Rio de Janeiro (RJ), 08/03/2023 - Ato denúncia em frente à Câmara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o Feminicídio

Na Amazônia Legal, 9 em cada 10 vítimas de feminicídio em 2025 não tinham medida protetiva

|

Levantamento em oito estados mostra que mulheres morrem desprotegidas; recurso jurídico é alternativa para evitar crime

Nossa Senhora Aparecida vira evento eleitoral e aprofunda crise entre ministros do STF

|

Monitoramento mostra que debate nas redes ultrapassou boato inicial e passa de 12 milhões de interações em poucos dias

Fachada do Congresso Nacional, em Brasília.

Os candidatos das Big Techs nas eleições 2026

|

Levantamento mostra quais políticos brasileiros têm atuado a favor dos interesses das grandes corporações de tecnologia