Buscar
Reportagem

Operação do Ibama na terra Yanomami demonstra que garimpeiros persistem na invasão

Relatos indicam que mais barcos estavam subindo em direção aos garimpos e não o contrário; veja vídeos inéditos

Reportagem
8 de fevereiro de 2023
13:38
Este artigo tem mais de 3 anos

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Agente do Ibama durante operação de combate ao garimpo no dia 07/02/2023 na terra indígena Yanomami. Na imagem é possível ver o agente de costas para a câmera com o uniforme do Ibama. À sua frente há uma aeronave pegando fogo em meio a um campo aberto na floresta
Ibama

BOA VISTA – Uma operação desencadeada nesta semana na Terra Indígena Yanomami pela fiscalização do Ibama, com apoio da Funai e da Força Nacional, é a primeira incursão de agentes do governo no território desde o início do governo de Luiz Inácio Lula da Silva com o propósito de “retomar o território” e debelar o garimpo que levou a uma tragédia humanitária entre os indígenas durante o governo de Jair Bolsonaro. Pela primeira vez, o governo passou a reocupar bases que, nos últimos anos, haviam sido abandonadas pelo Estado ou tomadas pelos garimpeiros dentro do território. O primeiro ponto reocupado é estratégico no rio Uraricoera. Por ali passam barcos usados para o abastecimento de diesel e alimentos de inúmeros garimpos.

Imagem aérea do rio Uraricoera na Terra Indígena Yanomami. Na imagem é possível ver trecho do rio margeado por floresta, com construções do garimpo próximo, na beira do rio
Grande área de garimpo com dezenas de barracões na região do rio Uraricoera na Terra Indígena Yanomami

A ação do Ibama, que começou sob sigilo nesta segunda-feira (6) e foi revelada pelo órgão nesta quarta-feira (8), revela que a invasão garimpeira ao território indígena ainda está longe de ser resolvida, apesar de vários vídeos e mensagens disseminados em redes sociais e grupos de garimpeiros indicarem que uma parte dos invasores já começou a deixar a terra indígena. Mas a realidade encontrada pelos fiscais do Ibama, segundo apurou a Agência Pública, foi bem diferente.

Líderes indígenas da região relataram aos fiscais que, nos últimos dias, mais barcos estavam subindo em direção aos garimpos com combustíveis e alimentos do que no sentido contrário. A informação foi confirmada pelo Ibama, que já conseguiu apreender três embarcações com cerca de 5 mil litros de combustível que seria usado para o abastecimento dos garimpos. Além do combustível, os barcos apreendidos carregavam “cerca de uma tonelada de alimentos, freezers, geradores e antenas de internet”, como informou a assessoria do Ibama e do MMA (Ministério do Meio Ambiente). O volume de produtos demonstra a disposição dos garimpeiros de permanecerem nos locais de extração do minério.

Objetos encontrados pelo Ibama durante operação nesta terça-feira (7) – (Vídeo: Ibama)

Mensagens em grupos de garimpeiros também indicam que as atividades do garimpo seguem normais em outras partes da terra indígena, como na região de Mucajaí.

A incursão do Ibama no território Yanomami, batizada no Ibama de “Operação Xapiri”, referência a espíritos da floresta na cultura Yanomami, foi acompanhada de perto pelo presidente substituto do órgão, Jair Schmitt, que viajou a Boa Vista (RR). Durante a ação, os fiscais ambientais destruíram um helicóptero, um avião, cujas ligações com um empresário de Boa Vista (RR) serão investigadas, um trator de esteira, usado para abrir estradas na mata, e estruturas de apoio logístico ao garimpo. Foram apreendidas duas armas de fogo. A operação teve apoio de helicópteros modelo B4 do GEF (Grupo Especializado de Fiscalização) do Ibama.

Fiscais ambientais destruíram aeronave durante operação nesta terça-feira (7) – (Vídeo: Ibama)
Trator usado pelos garimpeiros para abrir mata, encontrado pelo Ibama durante operação nesta terça-feira (7) – (Vídeo: Ibama)

A ideia da ação deflagrada pelo Ibama, Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) e Força Nacional é estrangular o fornecimento de alimentação e de diesel aos garimpos abastecidos por barcos pelo rio Uraricoera. Os motores das dragas usadas para destruir a terra Yanomami funcionam com óleo diesel. A partir do decreto presidencial que determinou o combate ao garimpo, a Aeronáutica bloqueou o espaço aéreo na semana passada. Após reclamações de garimpeiros, a Aeronáutica abriu corredores aéreos, até o próximo dia 13, exclusivos para a saída dos invasores. Mas o abastecimento pelos rios continua um problema, que o Ibama agora procura atacar.

O plano é estabelecer bases em outros rios a fim de “garantir a permanência das equipes de fiscalização por prazo indeterminado”. O Ibama informou que também “fiscaliza distribuidoras e revendedoras responsáveis pelo comércio irregular de combustível de aviação que abastece os garimpos”. O Ibama trabalha com a hipótese de que a operação de desintrusão dos estimados 20 mil garimpeiros demore “vários meses”. O Ibama tem uma preocupação especial com áreas de garimpo dominadas por facções criminosas dentro da terra Yanomami.

Desintrusão dos garimpeiros pode levar meses (Vídeo: Ibama – 07/02/2023)
Bruno Kelly/Amazônia Real

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Integrantes da Bancada Indígena do Congresso Nacional, Sônia Guajajara (à esquerda) e Célia Xakriabá (à direita)

Bancada indígena diminui no Congresso e lideranças se preparam para desmonte e retrocesso

|

Representantes do movimento indígena citam risco às demarcações, imposição do Marco Temporal e aparelhamento da Funai

Colagem com frames de vídeos de Lula nas redes sociais

Do susto ao mutirão: como a campanha de Lula tenta virar o jogo nas redes e nas ruas

|

Campanha tenta virar o jogo com nova abordagem nas redes, atos pelo Brasil e engajamento de influenciadores e artistas

Deputados federais mais votados da direita gastam o dobro com anúncios que os da esquerda

|

Os dez candidatos mais votados da direita gastaram R$ 5,3 milhões com anúncios na Meta; os da esquerda, R$ 2,6 milhões

Ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista em 2026. Manifestante segura poster contra o ministro do STF Alexandre de Moraes

STF pode ser enfraquecido por interesses políticos se Flávio for eleito, avaliam juristas

|

Para especialistas, Tribunal abusa de decisões monocráticas, mas usar crise como arma política prejudica democracia

Da sua mão para o crime organizado: o que acontece quando seu celular é roubado?

|

Quase cem celulares são subtraídos por hora no Brasil e então eles podem tomam 4 caminhos, inclusive sites de compras

Gestão Tarcísio exonera professoras com regra da ditadura

|

Três docentes contestam exonerações na justiça e uma delas morreu antes de reaver cargo

Processo da Advocacia da União contra bets tem 14 empresas que passaram impunes por CPI

|

Ação pede R$ 1 bilhão por danos coletivos; parte das empresas estava nos documentos da CPI, que “terminou em pizza”

Plataformas mantêm anúncios e recomendações políticas irregulares no dia da votação

|

Monitoramento encontrou golpes que imitavam o TSE e diziam que eleitor poderia votar pela internet

Pela 1ª vez desde redemocratização, Brasil terá 10 militares no Congresso e nos governos

|

Ex-Forças Armadas governarão dois estados e ocuparão oito cadeiras no Congresso, sendo quatro no Senado

Vânia Borges do Amaral e presidente Lula

O tempo das bets e a hora da luta: a perda familiar que não está em jogo no STF

|

Mãe que perdeu filho para bets fala de emoção por MP que proíbe apostas no Brasil na véspera da suspensão de plataformas