Buscar
Coluna

O desejo mutante de Madonna

Ícone da mulher desejante, a diva pop revolucionou o mundo controlado pelo desejo dos homens

Coluna
4 de maio de 2024
06:00
Este artigo tem mais de 2 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Ouça Marina Amaral

Marina Amaral

Ícone da mulher desejante, a diva pop revolucionou o mundo controlado pelo desejo dos homens

0:00

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a Newsletter da Pública, enviada sempre às sextas-feiras, 8h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

A figura de Madonna sempre me impressionou mais do que a sua música, uma admiração que cresce com o tempo. Para mim, que completei 65 anos – a mesma idade da diva –, é inspirador ver uma mulher, idosa para os padrões brasileiros, chegar a Copacabana para o maior show de sua superlativa carreira, se a expectativa de 1,5 milhão de pessoas na noite carioca se confirmar neste sábado. 

Para mim, companheira de geração, os números importam menos do que o desejo de Madonna de subir naquele palco imenso, na cara do mar, para energizar a multidão de brasileiros de todas as idades que vai passar o dia na praia, em um calor de quase 40 graus, até que a noite traga o esperado show. 

Madonna é o ícone da mulher desejante, que substituiu no imaginário ocidental a figura da mulher desejada, como Marilyn Monroe, a pin-up de final trágico – vítima do desejo dos homens. 

No seu corpo vibrante, o “divônico” sutiã, não por coincidência inspirado em Marilyn, é sexy porque não é objeto, mas instrumento de seu próprio desejo. 

Ninguém controla o corpo desta mulher nem sua sexualidade. A liberdade de gestos, passos, letras, atos, instiga não a rebeldia, como dizem alguns, mas a revolução, que só os sujeitos desejantes podem realizar. 

Nada fica no lugar quando a diva dança, canta, beija, apalpa. As fantasias são livres como os corpos, que não aceitam fronteiras, nem de gênero. A androginia pode ser tão forte em Madonna quanto o hiperfeminino, ou masculino.

É dessa energia erótica que, aos 30 anos, eu vi o feminismo, ainda preso a referências masculinas, reinventar-se em corpos livres, autônomos, que recusam qualquer tipo de controle – do assobio na rua aos limites ao prazer. “What it feels like for a girl?

Agora Madonna rompe também outro padrão: aquele que confina o direito ao desejo, principalmente das mulheres, a corpos jovens. 

Sim, o etarismo atinge homens e mulheres, um preconceito revelador da falta de autoconhecimento, desprezando não apenas o acúmulo de experiência dos mais velhos, mas seu próprio e inevitável futuro. 

Mas, enquanto os mais velhos são patriarcas, que não raro carregam como troféu uma esposa ou acompanhante jovem, às mulheres mais velhas é reservado o lugar da “vovozinha”. Uma caricatura ingênua, sem tesão ou opinião, que se contenta em fazer o almoço de domingo e docinhos para os netos quando as costas não doem. 

Madonna é uma estrela, não um prodígio. Sua força está em revelar no palco aquilo que todos somos e negamos para nós mesmos ou para o outro. Seres eróticos, desejantes, donos de nossos corpos, mentes, desejos e aspirações até que a vida acabe.

Que Madonna em Copacabana seja pura alegria e respeito à diversidade de gêneros, idades, desejos. É essa a melhor estratégia contra os abutres da necropolítica.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 72 Terras raras, soberania e eleições nada normais

Podcast analisa as diferentes visões sobre soberania nacional de Brasil e EUA

0:00

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Crise no STF após divulgação de conversas entre Moraes e Vorcaro: como chegamos até aqui?

|

André Mendonça escancara divisões na Corte ao tirar sigilo de investigação citando colega e tema deve impactar eleições

Resgates de pessoas em condição de escravidão caem no Brasil, mas disparam em SP, diz CPT

|

Em 6 meses de 2026, o estado teve mais pessoas resgatadas em condições análogas à escravidão que em todo o ano passado

Fiesp defende modelo inconstitucional de Bukele na segurança e afaga candidatos da direita

|

Candidato ao governo do Paraná, Sergio Moro promete presídio “El Salvador” durante abertura de evento em São Paulo

Mansões, carros de luxo, viagens: a vida de Eduardo Bolsonaro e Figueiredo nos EUA

|

Levantamento revela que ex-deputado e influenciador mantêm vida de alto padrão nos EUA

Como a caça conservadora ao voto feminino alimenta a violência contra a mulher

|

Fragilidade, hormônios e até intelecto: movimento tenta reduzir papel da mulher em ação violenta que começa no discurso

Com auxílio-reclusão restrito, famílias de encarcerados gastam R$ 4 bi por ano em visitas

|

Enquanto uma visita a presídio chega a custar mais de mil reais, Lei Antifacção diminui o acesso a benefício

Funai revê posição adotada no governo Bolsonaro e pede suspensão da licença de Belo Sun

|

Órgão agora cobra análise de 20 comunidades ignoradas e quer suspender licença retomada na Justiça em fevereiro de 2026

Imagem mostra ícones dos aplicativos de redes sociais da Meta em celular

Meta usa influenciadores para direcionar debate sobre proteção a crianças nas redes

|

No Brasil, empresa promove ideia de que as suas ferramentas são melhor que leis que proíbam o acesso dos mais jovens

Eleitores gerados por IA fazem campanha no TikTok e põem em xeque regra do TSE

|

Vídeos criados com IA em que eleitores declaram seus votos para presidente têm 7,4 milhões de views no TikTok