Em 2025, imagens de agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) mascarados e fortemente armados prendendo homens, mulheres e crianças — fora de tribunais, em escolas e em residências — tornaram-se comuns em várias partes dos Estados Unidos (EUA).
O vídeo de um agente do ICE atirando e matando Renee Nicole Good — uma cidadã dos EUA —, na cidade de Minnesota em 7 de janeiro de 2026, é um exemplo das táticas às vezes mortais da agência, assim como as imagens da morte do enfermeiro Alex Pretti, dia 24 de janeiro, na mesma cidade.
Parte do motivo pelo qual as táticas recentes do ICE têm chocado os americanos é que a maioria das pessoas não as tinha visto antes. Historicamente, as práticas militarizadas de fiscalização migratória do país ocorriam mais perto da fronteira com o México. E durante décadas, homens da Agência de Proteção de Fronteira e Aduanas (CBP, na sigla em inglês) foram os responsáveis pela maior parte das deportações próximas à fronteira, não o ICE.
De 2010 a 2020, quase 80% das deportações começaram na fronteira ou perto dela. Durante a pandemia de COVID-19, esse número saltou para 98%. No período, tanto Donald Trump quanto Joe Biden utilizaram o Title 42, um estatuto de saúde pública que permitiu ao governo deportar rapidamente migrantes recém-chegados.
Mas, durante seu segundo mandato, Trump deslocou fortemente a fiscalização de imigração para o norte, avançando pelo território americano. E o ICE desempenhou um papel central nesta estratégia.
Como estudiosos de migração internacional e direitos humanos, examinamos a recente política federal de imigração para determinar por que o ICE se tornou a principal agência que detém e deporta migrantes em uma área afastada da fronteira sul, como na fria cidade de Minnesota, quase na fronteira com o Canadá.
Também exploramos como a transição no controle da imigração, da fronteira sul para os quintais de muitos americanos, pode estar mudando a visão pública sobre as táticas de deportação.
Migração como ameaça
O ICE é uma agência relativamente nova. A Lei de Segurança Interna, de 2002, aprovada após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, criou o Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês) ao fundir o U.S. Customs Service — anteriormente sob controle do Departamento do Tesouro — e o Immigration and Naturalization Service, que estava sob o Departamento de Justiça.
O DHS tem 22 agências, incluindo três voltadas para a imigração: o CBP, o ICE e o Serviço de Cidadania e Imigração (USCIS, na sigla em inglês), que administra a imigração legal e os processos de naturalização.
Não há nenhuma razão inerente para que a fiscalização da imigração esteja subordinada à segurança interna. Mas a imigração passou a ser tratada como uma questão de segurança nacional pela administração de George W. Bush, após o 11 de setembro.
No briefing de 2002 que justificava a criação do DHS, Bush afirmou: “A natureza mutável das ameaças que os EUA enfrentam exige uma nova estrutura de governo para proteger o país contra inimigos invisíveis que podem atacar com uma ampla variedade de armas”.
Desde então, o governo dos EUA tem enxergado a imigração a partir dessa perspectiva de segurança nacional.
O impacto total das deportações
No início de 2025, a administração Trump estabeleceu como meta deportar 1 milhão de pessoas no primeiro ano de mandato.
Mas, com tão poucas travessias — e, portanto, deportações — na fronteira entre os EUA e o México, a administração passou a concentrar seus esforços nos estados, avançando pelo território americano.
O projeto de lei tributária e orçamentária de Trump para 2025 refletiu essa mudança de prioridades: US$ 170 bilhões foram destinados para a fiscalização da imigração ao longo de quatro anos [US$ 42,5 bilhões por ano], em comparação com aproximadamente US$ 30 bilhões alocados em 2024.
Cerca de US$ 67 bilhões vão para a fiscalização migratória na fronteira, incluindo a construção do muro na região. Mas a maior parte do orçamento — ao menos US$ 75 bilhões — é destinada à prisão, detenção e deportação de imigrantes que já vivem nos EUA.
A administração Trump não começou as deportações a partir do interior do país. Na verdade, elas fizeram parte das políticas de governos anteriores, tanto de democratas quanto de republicanos.
A fiscalização migratória nos estados se intensificou no governo do presidente Bill Clinton, nos anos 1990, com a introdução da Lei de Reforma da Imigração Ilegal e da Responsabilidade do Imigrante, de 1996, que ampliou os critérios para deportação. O ex-presidente Barack Obama passou a ser chamado de “Deporter in Chief” (“deportador-chefe”) depois que seu governo fez mais de 3 milhões de deportações em seus dois mandatos, sendo cerca de 69% na fronteira.
Mas o crescimento astronômico do orçamento destinado ao controle migratório — tanto na fronteira quanto em território americano — levou o país à situação atual.
Entre os anos fiscais de 2003 e 2024, por exemplo, o Congresso destinou aproximadamente US$ 24 para a fiscalização da imigração realizada pelo ICE e pela CBP para cada US$ 1 gasto no sistema judicial responsável por analisar pedidos de asilo.
O novo volume de recursos previsto no orçamento de 2025, com a mudança de prioridade para dentro do território, ajuda a explicar por que os americanos agora estão vendo as consequências de longo prazo da militarização da fronteira se manifestarem diretamente em suas comunidades.
Os americanos talvez não conheçam as experiências de migrantes rapidamente deportados perto da fronteira. No entanto, é mais difícil ignorar as recentes imagens de pessoas detidas em seus próprios bairros.
Agora, os alvos visíveis da fiscalização na fronteira são cada vez mais imigrantes que construíram suas vidas nos EUA — vizinhos, amigos, colegas de trabalho —, além de qualquer pessoa que se oponha às táticas do ICE, como Renee Good e Alex Pretti.
Mudança de atitudes políticas
De fato, a violência da campanha de deportações em massa de Trump pode estar mudando a forma como os americanos enxergam a imigração.
Pouco antes da eleição presidencial de 2024, uma pesquisa do instituto Gallup mostrou que 28% dos americanos acreditavam que a imigração era o problema mais importante do país — o maior percentual desde que o Gallup começou a acompanhar o tema, em 1981. Este número caiu para 19% em dezembro de 2025, refletindo o fato de que mais americanos passaram a ver a imigração como uma questão rotineira que o governo pode administrar, em vez de uma crise que precisa ser enfrentada.
Esta percepção é corroborada pela literatura acadêmica. Pesquisadores da área de migração demonstraram que eleitores frequentemente apoiam políticas migratórias rígidas nas urnas, mas resistem e protestam quando os governos tentam implementá-las em comunidades imigrantes organizadas.
Em 2002, por exemplo, a acadêmica Antje Ellermann documentou que agentes de imigração relataram ser mais difícil deter e deportar pessoas em Miami — devido à resistência de uma comunidade imigrante politizada — do que em comunidades relativamente conservadoras e menos organizadas, como na cidade de San Diego.
Mas, em ambos os locais, parlamentares republicanos e democratas foram influentes ao intervir em casos individuais para impedir deportações. Como observou Ellermann, isso ocorre porque altos funcionários da imigração eram pressionados pela mídia e por membros do Congresso.
O apoio à forma como Trump lida com a imigração está em queda. Apenas 41% dos americanos aprovavam sua abordagem sobre imigração no início de janeiro de 2026, em comparação com 51% em março do ano anterior, segundo pesquisa da CNN.
Esse declínio ocorre ao mesmo tempo em que senadores republicanos como Thom Tillis, da Carolina do Norte, Lisa Murkowski, do Alasca, e Joni Ernst, de Iowa, passaram a criticar o ICE e suas operações em Minnesota.






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