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Entrevista

Mulheres rompem barreiras na ciência, mas desafios persistem

Márcia Cristina Barbosa, da Academia Brasileira de Ciências, fala sobre desigualdades no mundo científico

Entrevista
8 de março de 2026
04:00
Brasília (DF), 22/05/2023 - Lançamento do Plano Decenal para a Ciência Antártica do Brasil. Na mesa a Sec. de Politicas e Programas Estratégicos SEPPE - MCTI, Marcia Cristina Barbosa, Ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, o secretário da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar, contra-almirante Marco Antônio Linhares Soares, e o Diretor Científico do CNPq, Olival Freire.
Wilson Dias/Agência Brasil

As mulheres contribuíram em importantes descobertas da história, desde a compreensão da estrutura do DNA às tecnologias que permitiram o desenvolvimento do Wi-Fi e do Bluetooth. Ainda assim, seguem enfrentando obstáculos e desigualdade de gênero no mundo da ciência. Entre elas estão desafios de financiamento, jornadas duplas e tentativas de silenciamento. Muitas pesquisadoras ainda precisam disputar não apenas espaço, mas também reconhecimento pelo próprio trabalho.

Em entrevista ao Pauta Pública, a física Márcia Cristina Barbosa, fala sobre os desafios enfrentados pelas mulheres na produção científica e reflete sobre a importância de dar visibilidade e aproximar as conquistas e o conhecimento científico da sociedade. Reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e membro da Academia Brasileira de Ciências, Barbosa também destaca que o conhecimento científico enfrenta ataques, desinformação e disputas políticas. Para ela, a ciência passa a ser alvo justamente quando confronta interesses ou apresenta verdades incômodas.

“Quando a ciência começa a dizer que fumar faz mal à saúde, ela vira inimiga. E, às vezes, ela incomoda, porque ela vai dizer que uma certa coisa que tem produção não funciona”, afirma. Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.

EP 206 Mulheres na ciência e as barreiras que ainda persistem – com Marcia Cristina Barbosa

Integrante da ABC, Márcia Cristina Barbosa, fala sobre os desafios enfrentados pelas mulheres na produção científica

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Como está hoje a presença das mulheres na ciência? Houve avanços?

As áreas biológicas e ciências sociais melhoraram muito. A área de física e da tecnologia mais hard [envolve disciplinas baseadas em observação sistemática e estudo do mundo natural], como as engenharias química e ambiental, também melhorou, mas aquela engenharia mecatrônica e a informática, elas ou ficaram iguais ou pioraram, porque se a mulher quer ir para a ciência, ela vai para onde ela vê mais espaço. O que a gente não conseguiu ainda? A gente não conseguiu o topo.

Estou terminando um artigo em que a gente mostra que nos artigos mais citados, as mulheres estão em um percentual baixo até nas áreas onde elas são maioria, como na ciências sociais e na saúde. Essa bolha do cientista super, hiper reconhecido, a gente ainda não venceu. E, nesses artigos super citados, as mulheres também não estão nas posições principais. A gente precisa de mudanças no sistema, e mudanças que operem em vários níveis.

Um movimento muito importante é o Parent in Science, que tenta resolver a questão da parentalidade para mães e pais na ciência. Isso ajuda numa fase da carreira, ali pelos 30 anos. Mas o poder é outra coisa. O poder envolve um estereótipo do que é uma pessoa poderosa, e esse estereótipo foi construído na cabeça das pessoas.

Eu ganhei um prêmio internacional importante, o L’Oréal-Unesco, e me reuni com outras cientistas premiadas. Muitas delas são cientistas excelentes, mas nem sempre têm consciência da questão de gênero. Em uma conversa, perguntei: o que uma mulher precisa para ser uma boa cientista? E disseram: tem que ser bem falante, decidida, impressionar as pessoas.

Mas eu conheço vários físicos que falam olhando para o chão e têm carreiras brilhantes. Essas qualidades são exigidas das mulheres, não dos homens. Então, além de fazer ciência, a mulher precisa fazer um esforço extra, porque ela será sempre cobrada. Eu sabia que meu grupo tinha que ser muito bom. A gente não podia ser medíocre. Os homens podem ser medíocres, mas a gente não podia ser.

O sistema te manda uma mensagem muito clara: você só vai chegar ao topo se se abandonar. E, se você se abandona, quando chega lá em cima não consegue mudar o sistema. Eu sempre tive um plano: subir sem deixar de ser quem eu sou, para poder transformar as coisas quando tivesse mais poder. Só que isso é muito difícil, porque você sofre críticas o tempo todo.

Qual é a relação entre o fortalecimento democrático e o fortalecimento da ciência, pensando no negacionismo e desinformação?

Se a gente olhar a história da ciência, nós nunca fomos muito bons em falar com o público. Isso é uma fraqueza dos cientistas. Durante muito tempo, a ciência esteve ligada aos faraós, depois à igreja, depois aos Estados e às empresas. Mas raramente falava diretamente com as pessoas. Mesmo assim, a ciência seguiu avançando porque produz conhecimento que, no mundo capitalista, vira produto. Então, é de interesse.

Quando é que a ciência começa a apanhar? Primeiro, quando ela traz a verdade inconveniente, como “fumar faz mal à saúde”, aí ela vira inimiga. Ou quando ela começa a ter consciência. E,às vezes, ela incomoda, porque ela vai dizer que uma certa coisa que tem produção não funciona. Quando ela começa a fazer isso, ela confronta quem fez ela crescer. O capitalismo fez ela crescer, a revolução industrial fez crescer, o Estado fez ela crescer.

E ela, aos pouquinhos, está se dando conta que ela tem que finalmente falar com as pessoas. Mas,cada vez que um cientista sai desse papel do acadêmico, formal, e vai falar com as pessoas, é atacado. E isso é ainda mais forte quando quem fala é uma mulher.

A democracia é essencial para enfrentar esse cenário. Quando governos começam a atacar universidades, ciência e diversidade, isso enfraquece a capacidade de um país produzir conhecimento e se preparar para o futuro.

Como você avalia a cobertura da ciência pela mídia?

Eu sou a favor de uma coisa: cubram errado, mas cubram. Porque aí a gente tem espaço para dizer: não é assim, é assado.

Mesmo quando as pessoas não entendem o método científico, isso abre espaço para explicar que não existe um único método, que cada área funciona de uma forma diferente. Isso precisa ser discutido na escola, precisa aparecer na mídia.

A ciência é autorregulada. Às vezes, dois cientistas discordam, batem boca, defendem ideias diferentes, e isso faz parte do processo. No final, com o tempo, a gente chega a um consenso.

Acho importante que jornalistas busquem boas fontes. Hoje existem iniciativas como a plataforma Bori, que ajudam a encontrar especialistas confiáveis. Mas, mesmo quando a cobertura erra, ainda assim é importante falar de ciência.

Porque colocar ciência no debate público permite que o assunto seja discutido. E, na ciência, a verdade pode demorar um pouco, mas ela aparece.

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