Buscar
Crônica

O ócio na era do algoritmo

Numa era de estímulos incessantes o ‘nada’ pode ser o começo de tudo

Crônica
14 de março de 2026
04:00

Era um dos primeiros dias do ano, daqueles inacabados, como se estivessem presos num limbo desde o Natal. Um tempo suspenso, em que a gente já não sabe se é quinta ou sábado, mas que carrega em si um clima de domingo permanente, onde a ansiedade da segunda é substituída pela espera de um ano inteiro que mal começou.

Nesses dias, tudo parece exigir um sentimento, um equilíbrio. É preciso sentir, é preciso desejar; o recomeço imposto pelo calendário é uma armadilha. Mas dessa vez, não quis que fosse assim. Resolvi atravessar aqueles dias como se fossem quaisquer dias, embora estivesse completamente fora da rotina. Me propus a um ócio quase completo, um ato de desobediência às convenções sociais, apenas para ver o desfecho.

O que acontece quando a gente se permite o nada? Acendi um cigarro. E no primeiro trago, a vida real, o aqui, o agora. A fumaça que desmanchava naquela tarde era como um pensamento efêmero. E a sua lentidão calma, quase silenciosa, representava bem a cidade naquele instante.

O que eu ainda não sabia é que nesse movimento eu cometeria uma sucessão de pequenos erros. Não me lembro como o celular foi parar em minhas mãos – ele tem vontades próprias. O primeiro erro, quase ingênuo: buscar apenas distração numa rede de vídeos. Acomodei-me no sofá. Parecia o passatempo perfeito. Seriam horas perdidas com a fofura de cachorrinhos e lontras. Era só o que eu queria.

Você já tentou não fazer nada? De verdade? Conectado às redes sociais, é impossível. Nunca subestime o algoritmo. Ele não é como a TV, que você abandona ligada por preguiça de alcançar o controle. O algoritmo é mais íntimo, mais perigoso. Ele sabe do seu tédio antes mesmo que você o sinta. E, quando ele percebeu minha disposição para o vazio, não me deu descanso: entregou o eco de outras solidões.

De repente, saem os cachorrinhos e entra um melancólico vídeo sobre a beleza de não fazer nada protocolar por um período de férias. Milhares de curtidas. Centenas de comentários. E qual foi meu segundo erro? Mergulhar neles, buscando identificação como quem busca o mar em dia de calor.

Ali, no caldo das opiniões alheias, a guerra: os que acusavam o isolamento e os que o santificavam. Senti o impulso de entrar na briga, de digitar minha verdade. “Gente, é só cada um fazer o que quer, não?”. Apaguei para não atiçar a fera do engajamento.

As redes nos convidam a todo instante para um mergulho contínuo na validação mútua; você entra buscando se refrescar e, quando percebe, já está fundo demais, o que, sem cautela, nos afoga. Melhor seguir meu próprio conselho, sem precisar torná-lo público. Precisava apenas do cigarro. Fui para a janela; queria focar no mundo real. Mas a mente, essa traidora, já estava em chamas com aquelas micro dosagens de dopamina. Olhei para a tarde pacata lá fora e dei mais um trago.

Puxei o ar fundo e respirei o silêncio que era a única coisa realmente minha naquele instante. E cometi meu único acerto: comecei a escrever. Porque, no fim, talvez seja assim que o nada vire algo que dá pra segurar.

Percebi, então, que a minha vida inteira foi um estado de alerta. Aprendi a me calar para não criar ruído. Um silêncio que cansa. O mundo real, mesmo pacato, ainda permite esse respiro fora do mar agitado por estímulos incessantes. Ele exige esforço, mas é preciso escolhê-lo.

Edição:

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 207 Guerra no Irã, protestos e o futuro do regime

Ativista iraniana fala sobre as camadas dos conflitos no Irã e avalia os desafios para redefinir o futuro do país

0:00

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Quer escrever uma crônica para esta coluna? Mande um email para cronicadesabado@apublica.org e coloque no assunto Crônica para Avaliação e seu nome completo.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Artigos mais recentes