Buscar
Reportagem

“Faz você perder dinheiro”: Governo federal obriga Bets a alertar sobre riscos das apostas

Portarias determinam que publicidade de empresas de apostas devem conter alertas sobre riscos e dependência

Reportagem
13 de julho de 2026
09:00

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Tomaz Silva/Agência Brasil

Esta reportagem é parte de uma investigação especial da Agência Pública financiada pelos nossos Aliados, sem nenhum dinheiro de bet. Apoie mais reportagens como essa clicando aqui.

O governo federal está tomando medidas para tornar mais rígidas as regras para a publicidade das casas de apostas. Entre elas, está a obrigatoriedade de que os anúncios sejam veiculados com alertas do Ministério da Fazenda sobre os riscos oferecidos pelas Bets. A partir do dia 17 de julho, toda publicidade sobre apostas deve acompanhar mensagens como “apostar faz você perder dinheiro”, “apostar pode causar dependência” e “aposta não é investimento”.

A decisão do governo ocorre após a divulgação massiva de apostas esportivas durante as transmissões dos jogos da Copa do Mundo de 2026. No dia 24 de junho, o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) abriu uma investigação sobre o canal digital CazéTV para investigar uma suposta configuração de publicidade enganosa ou abusiva.

A empresa detém os direitos de transmissão de todas as partidas do Mundial, e tem exibido no YouTube para milhões de pessoas quadros patrocinados por casas de apostas, com a apresentação, por comentaristas do canal, de palpites sobre potenciais acertos em uma aposta específica (as odds).

Conforme revelou a Agência Pública, apesar de figurar como um canal independente, a CazéTV possui grandes aportes de grupos empresariais e financeiros, entre eles o Grupo XP, que lucram com estes anúncios, para além dos próprios donos das bets.

Por que isso importa?

  • Brasileiros gastaram mais de R$ 30 bilhões com apostas online, entre janeiro de 2023 e março de 2026, segundo estimativa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
  • A entidade ainda afirma que as apostas podem ter levado 270 mil famílias à situação de “inadimplência severa”.

Formuladas em conjunto pelo Ministério da Fazenda e o MJSP, as ações do governo federal pretendem endurecer, inclusive, esse tipo de ação publicitária. Entre as medidas, fica proibida a veiculação de “senso de urgência” nas publicidades de bets, além da utilização de comentaristas e especialistas para levar o consumidor a pensar que determinada aposta é a mais indicada.

“Não é regular, não é lícito que se induza a erro o consumidor, que se induza a erro o potencial apostador, misturando comentário de alguém que é especialista, alguém que é um comentarista especializado sobre um determinado jogo, sobre um determinado assunto. Ele dizendo que a melhor aposta é uma, ou o caminho a ser adotado é aquele, portanto induzindo o consumidor a adotar uma certa prática com um verniz de respaldo técnico”, afirmou o ministro da Fazenda, Dario Durigan, a jornalistas na última quinta-feira, 9 de julho.

Ainda de acordo com o chefe da pasta, o governo federal irá proibir o histórico de premiação, “que leve a induzir o consumidor a achar que tem o histórico positivo por um determinado time, por uma determinada circunstância, que ele se sinta encorajado a apostar”.

Além do executivo, as apostas online também estão motivando projetos de lei no Congresso Nacional. O deputado federal Aécio Neves (PSDB-MG) apresentou na última quarta-feira, 8, o Projeto de Lei 3.545/2026, que propõe a proibição de propaganda de Bets em todos os veículos de comunicação do país. A proposta ainda vedaria a contratação de artistas, celebridades e influenciadores para divulgação de Bets.

Inspirada no caso de Vânia de Souza Borges e seu filho Rafael, a deputada federal Dandara Tonantzin (PT-MG) protocolou, no mesmo dia, o Projeto de Lei 3.613/26 (PL Rafael), que visa à responsabilização solidária de toda a cadeia de divulgação de apostas – influenciadores, afiliados, anunciantes, operadores e plataformas – por eventuais danos causados ao consumidor. Além disso, tenta proibir o modelo de contrato que prevê comissões aos influenciadores e permite remuneração proporcional às perdas registradas por seus seguidores.

Bets ilegais

As portarias anunciadas pelo Ministério da Fazenda se somam a outras medidas referentes ao setor tomadas em menos de um mês pela gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No dia 19 de junho, Durigan anunciou que o governo federal vai bloquear recursos de Bets ilegais e destinar ao Fundo Nacional de Segurança Pública para financiar o combate ao crime organizado no país.

Segundo a pasta, ao identificar um operador de apostas não autorizado, a Secretaria de Prêmio e Apostas (SPA), ligada à Fazenda, formalizará a irregularidade por meio de um auto de constatação, que registra e fundamenta a exploração ilegal do recurso. Após o auto, a secretaria deve notificar as instituições financeiras e de pagamentos para que bloqueiem, em até 24 horas, os valores existentes e interrompam novas transações relacionadas à empresa irregular. As instituições devem reportar o cumprimento da medida em até 48 horas.

Na ocasião, o ministro da Fazenda anunciou, também, que influenciadores digitais e empresas que divulguem casas de apostas ilegais estão sujeitos a responder pelas obrigações fiscais e impostos que não foram pagos pelos operadores irregulares.

A Pública apurou que abrir uma bet ilegal no Brasil custa menos de R$ 1 mil e há diversos grupos de pirataria espalhados no WhatsApp e Telegram que divulgam, até de graça, o código necessário para rodar uma plataforma de cassino ilegal. De acordo com a Fazenda, cerca de 56 mil sites que hospedam apostas clandestinas já foram derrubados pelo governo federal.

Edição:

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Foragido, líder do garimpo ilegal Rodrigo Cataratas tem empresas e bens de luxo nos EUA

|

Condenado por garimpo na terra Yanomami ajudou na fuga de Alexandre Ramagem e, por isso, também está foragido da Justiça

Ministério Público encurrala Meta para barrar bloqueios e restrições nas eleições

|

Ação quer impedir que algoritmos barrem conteúdos; Pública mostrou que grupos pró-Lula foram acusados de terrorismo

Políticos têm rede ‘paralela’ na Meta sem declarar ao TSE

|

Flávio Bolsonaro tem mais de sete perfis de apoio não declarados; Janones, um; Campopiano e Pavanato também têm rede

Colagem com as fotos do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e do cantor Gusttavo Lima

Bolsonarista, Gusttavo Lima pressionou Vorcaro por acordo para movimentar R$ 23 bilhões

|

Cantor que declarou apoio a Flávio Bolsonaro propôs a dono do Master fornecer maquininhas em MG: "Vamos trabalhar, bb"

Flávio Bolsonaro & família: as perguntas que a Pública já respondeu e você precisa saber

|

Rumor? Exagero? Mentira? Reunimos um guia de questionamentos que estão na cabeça do eleitor para nossas investigações

Imagem aérea de local desmatado em Rurópolis

Segundo turno das eleições será referendo sobre futuro da Amazônia

|

Volta a índices de desmatamento do governo Bolsonaro podem aproximar floresta de ponto de não retorno

Willer Tomaz de Souza, empresário e advogado brasileiro, proprietário do escritório de advocacia Willer Tomaz Advogados Associados em Brasília

Empresa ligada a Willer Tomaz foi administrada por diretor da Polícia Civil do DF

|

Diretor de TI da PCDF administrou empresa de advogado investigado no Caso INSS; lei proíbe administração por policiais

Diretor do Instituto Sivis, Jamil Assis, durante audiência pública no Senado sobre regulação de redes sociais com foco em moderação de conteúdo e remoção de contas de usuários.

Departamento de Estado dos EUA financia ONG que questiona liberdade de expressão no Brasil

|

Instituto Sivis recebeu aporte de R$ 150 mil. Entidade negou ingerência externa e diz ter autonomia

‘Dark Horse da Shopee’: 2º filme sobre Bolsonaro teve convite a Vorcaro e é alvo da Ancine

|

Agência apura custo declarado de apenas R$ 4,5 mil de ‘A Colisão de Destinos’, que pode ter contado com grana de emendas

Sem educação, clima ou fome: O dito e não dito na propaganda eleitoral de Flávio Bolsonaro

|

Discurso de guias que foram ao ar na TV mostra aposta em "medo" e "mulheres" e ignora temas como educação, fome e clima