Buscar
Coluna

O Hamas como parceiro

A única força armada na isolada Gaza é estratégica para o projeto do governo israelense de aniquilar os palestinos

Coluna
14 de outubro de 2023
06:00
Este artigo tem mais de 3 anos

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a Newsletter da Pública, enviada sempre às sextas-feiras, 8h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

Liguei na segunda-feira para Reginaldo Nasser, professor livre-docente de relações internacionais da PUC-SP, a quem sempre recorro em casos de conflitos internacionais, tema no qual é especialista. Nasser acompanha atentamente a imprensa e frequentemente aponta erros e distorções na mídia ocidental, principalmente quando um dos envolvidos é aliado dos Estados Unidos. Portanto, uma ótima fonte para quem estava com a cabeça cheia de dúvidas depois de ficar grudada na cobertura do fim de semana.

A primeira delas: o ataque surpreendeu também por que a questão palestina, que se configura “em um apartheid imposto por Israel”, na definição da Anistia Internacional, foi esquecida pela mídia? 

O professor confirmou. “Só aparece nos jornais quando entra o Hamas”, ironizou, para em seguida chamar a atenção para uma publicação do Haaretz, o maior jornal israelense, naquela mesma segunda-feira. Sob o intertítulo “Hamas como parceiro” o jornal revelou que, em uma reunião fechada de seu partido de extrema-direita, o Likud, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmou: “qualquer pessoa que queira impedir o estabelecimento de um estado palestino tem de apoiar o fortalecimento do Hamas e a transferência de dinheiro para o Hamas. Isso faz parte da nossa estratégia”.  

“Eu já sabia, mas ver essa declaração de Netanyahu entre aspas, publicada no principal jornal de Israel, é chocante”, disse Nasser. Nenhum órgão brasileiro de imprensa, com exceção do Intercept, repercutiu a bombástica revelação. 

Por outro lado, o professor contou que já havia recebido pedidos de dois grandes veículos para que falasse do Hamas. “Não falo, só falo se for para falar também de Gaza, uma área do tamanho de Parelheiros (bairro de São Paulo) completamente isolada do mundo, com 2 milhões de pessoas vivendo de forma desumana, cercadas e controladas por Israel. O terrorismo desvia a atenção da questão palestina”, explicou. 

“A Autoridade Palestina está cada vez mais desgastada, humilhada, desacreditada”, continua o professor. “O Hamas é sim, muito criticado na Palestina, por exemplo, entre os palestinos que conheço por aqui, nunca ouvi alguém elogiar o Hamas. Mas quando tem um conflito, é um território que não tem força armada. A Autoridade Palestina é polícia, uma polícia que bate nos palestinos – há pouco tempo houve uma revolta lá, bateram, prenderam e mataram. Então em momentos de pico de crise, o Hamas aparece como defensor – e claro que ele não é. No cotidiano é mal avaliado, repressor, a situação em Gaza é péssima, mas a forma como Gaza está cercada, isolada, facilita para o Hamas”, diz o professor.

Não há nada mais conveniente para a extrema-direita israelense, que pretende aniquilar os palestinos, como deixam claro as recentes declarações de Netanyahu, do que apresentar para o mundo a questão palestina sob a face do terror. Internamente, os atos bárbaros do Hamas no final de semana também têm uma função interna importante em Israel, já que atiçam o medo e o preconceito diante dos palestinos, “justificando” a crueldade da resposta.

Um sentimento cultivado desde a infância, no próprio sistema de ensino público de Israel, independentemente de quem está no governo, como comprovou a pesquisadora Nurit Peled-Elhanan, da Universidade Hebraica de Jerusalém. 

Em entrevista à repórter Júlia Dolce, Nurit, que analisou os livros didáticos utilizados pelas escolas israelenses, disse que o sistema educacional do país tem como objetivo educar as crianças e adolescentes para serem soldados e temerem palestinos. 

“Cidadãos palestinos não são mencionados como parte da sociedade israelense, mas sim como o inimigo interno. É a lógica de eliminação e não aculturação, porque eles não são candidatos para integração na sociedade israelense. Há um determinismo sobre eles, é considerado que eles têm um instinto assassino inato, no sangue. O que eles fizeram agora não é lido através de nenhuma razão com exceção de que isso é o que eles são. E assim, os israelenses se livram de qualquer análise do que aconteceu, quando dizem ‘está no sangue’”, disse a educadora. 

Enquanto os israelenses não aprenderem a olhar os palestinos como seres humanos iguais a eles, o que tornaria intolerável manter o cerco à Gaza e a condição miserável, análoga à escravidão, imposta a 5 milhões de pessoas, Israel não pode se considerar uma democracia, apesar da propaganda internacional. Sem direitos iguais, incluindo a participação política dos palestinos nos destinos do que se tornou, à força, um território compartilhado, não há nem vislumbre de solução.

Até por que, como explicou Nasser, a corrosão do território palestino pela expansão ilegal israelense e o fracasso dos acordos de paz conduzidos pelas grandes potências tornaram inviável a solução – almejada pelos palestinos e por humanistas de todo o mundo – de dois Estados e dois povos. 

“Hoje é impossível a solução de dois Estados. Pessoas do mainstream americano, de diferentes posições políticas, escreveram um artigo na Foreign Affairs, dizendo que um Estado e dois povos é mais real. Um Estado democrático e dois povos. Mas é claro que isso exigiria uma grande transformação de Israel e também uma outra liderança palestina. É difícil, sofrido, mas parece ser a única solução viável”. 

Para os que querem se aprofundar no assunto, segue o link do artigo citado pelo professor. Está na hora de pensar além do ódio.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Políticos têm rede ‘paralela’ na Meta sem declarar ao TSE

|

Flávio Bolsonaro tem mais de sete perfis de apoio não declarados; Janones, um; Campopiano e Pavanato também têm rede

Colagem com as fotos do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e do cantor Gusttavo Lima

Bolsonarista, Gusttavo Lima pressionou Vorcaro por acordo para movimentar R$ 23 bilhões

|

Cantor que declarou apoio a Flávio Bolsonaro propôs a dono do Master fornecer maquininhas em MG: "Vamos trabalhar, bb"

Flávio Bolsonaro & família: as perguntas que a Pública já respondeu e você precisa saber

|

Rumor? Exagero? Mentira? Reunimos um guia de questionamentos que estão na cabeça do eleitor para nossas investigações

Imagem aérea de local desmatado em Rurópolis

Segundo turno das eleições será referendo sobre futuro da Amazônia

|

Volta a índices de desmatamento do governo Bolsonaro podem aproximar floresta de ponto de não retorno

Willer Tomaz de Souza, empresário e advogado brasileiro, proprietário do escritório de advocacia Willer Tomaz Advogados Associados em Brasília

Empresa ligada a Willer Tomaz foi administrada por diretor da Polícia Civil do DF

|

Diretor de TI da PCDF administrou empresa de advogado investigado no Caso INSS; lei proíbe administração por policiais

Diretor do Instituto Sivis, Jamil Assis, durante audiência pública no Senado sobre regulação de redes sociais com foco em moderação de conteúdo e remoção de contas de usuários.

Departamento de Estado dos EUA financia ONG que questiona liberdade de expressão no Brasil

|

Instituto Sivis recebeu aporte de R$ 150 mil. Entidade negou ingerência externa e diz ter autonomia

‘Dark Horse da Shopee’: 2º filme sobre Bolsonaro teve convite a Vorcaro e é alvo da Ancine

|

Agência apura custo declarado de apenas R$ 4,5 mil de ‘A Colisão de Destinos’, que pode ter contado com grana de emendas

Sem educação, clima ou fome: O dito e não dito na propaganda eleitoral de Flávio Bolsonaro

|

Discurso de guias que foram ao ar na TV mostra aposta em "medo" e "mulheres" e ignora temas como educação, fome e clima

Quando o patrão pede voto

|

Desde setembro, foram 24 denúncias diárias de assédio eleitoral no trabalho; 99% dos casos são apurados, diz MPT

Master: Em mensagens, Vorcaro declarou lado sem margem para dúvida: “apoiamos a direita”

|

Banqueiro preso no escândalo do Banco Master tinha entre contatos Flávio Bolsonaro e Nikolas, a quem disse ter ajudado

Clubes de tiro fazem anúncios proibidos de descontos em armas para apoiar Flávio Bolsonaro

|

Empresas não podem fazer campanha de candidatos; clubes fazem ofertas de rifles com número de urna de Bolsonaro