Buscar
Reportagem

Terreiro de jarê é destruído pelo ICMBio e aguarda reparação na BA: “Dor no coração”

ICMBio reconheceu erro em demolição e apresentará plano de compensação; diretor de Lençóis aponta indícios de racismo

Reportagem
20 de agosto de 2024
04:00
Este artigo tem mais de 2 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Rafael Martins/Agência Pública

A porta azul que exibe o salmo 91 já não guarda o pequeno altar do terreiro de jarê do Peji Pedra Branca de Oxóssi, em Lençóis (BA), na mata do Vale do Curupati, a cerca de 420 km de Salvador. A construção se encontra parcialmente destruída e ainda abriga pequenas esculturas religiosas, incluindo uma Iemanjá agora decapitada e cabeças de carneiros, mas não vem recebendo celebrações de fé desde que servidores do Instituto Chico Mendes (ICMBio) iniciaram sua demolição, em 21 de julho. Os planos de reparação do ocorrido devem ser apresentados até o fim de agosto.

“Já tiveram várias enchentes dentro de Lençóis, mas nunca uma destruição como essa”, lamentou Gilberto Tito de Araújo, conhecido como Damaré, líder religioso do terreiro e integrante das 28 famílias nativas entre as 277 que habitam o Parque Nacional da Chapada Diamantina (PNCD), segundo dados coletados pela pesquisadora Maria Medrado Nascimento, da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), de Ilhéus (BA).

O jarê é uma religião indígena, de matriz afro-brasileira, específica da região da Chapada Diamantina, que mistura elementos da umbanda, espiritismo e catolicismo influenciada pelas crenças e modos de vida de garimpeiros tradicionais. O templo de 20 metros quadrados foi erguido há cerca de 45 anos, herança do pai de Damaré, garimpeiro posseiro da terra, ocupada antes da criação do parque de preservação ambiental. O material de construção foi trazido a pé por moradores e as imagens que compõem o interior são heranças de famílias locais, passadas entre gerações.

Erro reconhecido

Três dias após a ocorrência, o ICMBio reconheceu o erro. A operação apurava denúncias de desmatamentos e ocupações irregulares nas proximidades dos rios Lapão, Mandassaia e São José e apreendeu caminhões e armas, além de fechar serrarias e quatro sítios rurais. Dezesseis construções foram vistoriadas e dez delas, identificadas como não ocupadas ou construídas recentemente, foram demolidas. “Assim que os objetos de caráter religioso foram identificados no imóvel, a operação foi imediatamente interrompida”, disse, em nota, o ICMBio.

No dia 1º de agosto, uma audiência pública na Câmara Municipal de Lençóis foi realizada com representantes do órgão, do Ministério da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos e da Secretaria Estadual de Direitos Humanos e da Promoção da Igualdade Racial. Ao instituto foi estabelecido prazo de 30 dias para elaborar um plano de reparação.

Fé não interrompida

“Ver isso aqui assim é uma dor no coração. Tudo destruído. Não consigo dormir, não tenho fome”, disse Damaré durante visita da Agência Pública. Ele foi surpreendido por relatos da intervenção no Curupaiti enquanto iria a uma celebração em outro terreiro de Lençóis. “Vim correndo para cá”, lembra.

Ele aponta que a estrutura da sala de festejo, feita em adobe e pedras, foi danificada. Também foi demolida parte do quarto anexo, onde fica o altar, ou “peji”. A placa da entrada, agora sobre escombros, resistiu. Nela se lê “Peji Pedra Branca de Oxóssi: A mata se levanta, poeira levanta, pedra do morro desce e a terra estremece”. 

“Nós somos descendentes de Nagô, as nossas raízes não apodrecem, continuam. O espaço do candomblé é tudo”, diz Damaré, que garante que a relação com a religião vai além do físico e que a fé resiste. “A gente já nasce com o dom”, conclui.

Governo, responsabilidade e consequências

Para o diretor da promoção da igualdade racial da Secretaria de Assistência Social de Lençóis, Uilami Dejan de Azevedo Ferreira, há fortes indícios de que a demolição teria sido um ato de racismo religioso. “É impossível estar naquele local e não perceber que se trata de um terreiro”, avalia. O profissional aponta ainda que não houve comunicação prévia do ICMBio com moradores para averiguar possível crime ambiental. 

Após o caso ganhar repercussão e ser usado como ataque ao governo Lula, acusado de não respeitar povos de terreiros, o presidente do Instituto Chico Mendes, Mauro Pires, divulgou entrevista em canal oficial em que diz ser necessário “aprender com esse caso” e admite: “o estrago estava feito”.

“Há perguntas que precisam ser respondidas, como, por exemplo, as deficiências e limitações do instituto, órgão gestor do parque, que impediram o conhecimento prévio de que havia ali um terreiro de jarê, e que ali havia praticantes dessa religião, que, me parece, é bem característica da Chapada Diamantina. Ora, uma das finalidades dos parques nacionais é o uso público, entre os quais os usos religiosos”, afirmou Pires. “Se a falha ocorreu, é preciso entender suas causas e, mais do que isso, devemos agir para que não aconteça novamente.”

A relatora especial das Nações Unidas sobre formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância correlata, Ashwini K. P, foi informada do ocorrido e deve apresentar relatório público com observações sobre o caso ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas em junho de 2025.

Fotógrafo:
Rafael Martins/Agência Pública
Rafael Martins/Agência Pública
Rafael Martins/Agência Pública
Rafael Martins/Agência Pública
Rafael Martins/Agência Pública
Rafael Martins/Agência Pública
Rafael Martins/Agência Pública
Rafael Martins/Agência Pública
Rafael Martins/Agência Pública
Rafael Martins/Agência Pública

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 230 O que é o Partido Digital Bolsonarista? – com Marcos Nobre

Professor e pesquisador, Marcos Nobre, fala sobre as mudanças estruturais na forma de fazer política no Brasil

0:00

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Imagem mostra ícones dos aplicativos de redes sociais da Meta em celular

Meta usa influenciadores para direcionar debate sobre proteção a crianças nas redes

|

No Brasil, empresa promove ideia de que as suas ferramentas são melhor que leis que proíbam o acesso dos mais jovens

Eleitores gerados por IA fazem campanha no TikTok e põem em xeque regra do TSE

|

Vídeos criados com IA em que eleitores declaram seus votos para presidente têm 7,4 milhões de views no TikTok

O método: como a extrema direita ataca professores para engajar eleitores

|

Gravações clandestinas e ataques online evidenciam como docentes são explorados politicamente desde 2022

Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

|

Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura