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Do Carnaval libertador ao sufoco da jornada 6×1

O Carnaval afirma outras possibilidades para um mundo que produz e consome ao ponto de exaurir a vida

Coluna
20 de fevereiro de 2026
17:00

O desfile deslumbrante da Viradouro no Rio de Janeiro, em homenagem a mestre Ciça, emocionou a Marquês de Sapucaí, comoveu os componentes da escola e mereceu a nota 10 em todos os quesitos na avaliação de todos os jurados. Uma combinação perfeita de emoção, arte, técnica e estratégia, digna do artista cultuado por sua originalidade e excelência à frente da bateria, símbolo da resistência do samba e representante de todos os que fazem o Carnaval – do chão do barracão às luzes da avenida.

Ao comemorar a vitória – “ganhou o sambista e o samba” – e agradecer à comunidade pela homenagem, mestre Ciça falou sobre um ingrediente fundamental do sucesso, para além do amor à escola, da solidariedade e da multiplicidade de talentos: “Foi tudo cronometrado nos mínimos detalhes”, explicou, orgulhoso. Uma afirmação de inteligência e trabalho coletivos que têm muitos sentidos sob a aparência mágica do espetáculo.

Um desfile de escola de samba é uma soma de esforço, união e disciplina regida de forma oposta aos exércitos, fábricas, escritórios ou guichês: ele é organizado pelo desejo e não pela repressão. Assim se forma o canto que contagia, o ritmo que une passos e danças em um único corpo artístico que celebra a potência de cada um na harmonia do conjunto.

Muito diferente do que costuma acontecer no trabalho cotidiano da maioria das pessoas.

Gosto de imaginar o que fariam tantas mentes e corpos talentosos com mais dias livres, sem ter que cumprir ordens aleatórias, obrigações maçantes, não raro desprovidas de sentido, nem passar pela humilhação recorrente de receber menos do que o necessário em troca de seus bens mais preciosos: o tempo, a capacidade de trabalho, a criatividade.

Não é à toa que a energia do Carnaval está confinada ao prazo restrito da folia, assim como o período de folga de boa parte dos trabalhadores do Brasil corresponde a um sétimo da semana, sufocando a força e a energia vital de quem é capaz de mudar o mundo.

Sim, as pessoas querem produzir, trabalhar, gerar riqueza e utilizar seus dons em harmonia com os talentos dos demais, como fizeram em ruas, praças e avenidas neste Carnaval. O que elas não querem – e, a meu ver, ameaça também nosso potencial como país – é a prisão perpétua em empregos exaustivos, com um único dia de folga que mal dá para repor as forças, que dirá para imaginar futuros.

A jornada 6×1, que pode ter seu final decretado nos próximos dias pelo Congresso, sabota nossa energia como país e suga a potência dos trabalhadores, enquanto enriquece aqueles que têm no lucro para si mesmos a única medida de sucesso. Não nos faz crescer, ao contrário, impede a construção de um país à altura da capacidade e do poder de seu povo, enquanto favorece oportunistas, preguiçosos e ultrapassados, artífices de um desenvolvimento que nos destrói.

Mais do que uma conquista trabalhista dos movimentos sociais, das mulheres submetidas à dupla carga de trabalho, dos jovens exauridos antes mesmo de revelar a seu potencial, o fim da jornada 6×1 seria um primeiro passo para a libertação de um país que tem o seu melhor no brilho de seu povo. Resiliente, sim, porque sabe viver de outro jeito, mesmo quando o ar se torna quase irrespirável.

É nessa resistência que temos que confiar para pressionar os deputados que representam interesses de empresários que exploram os trabalhadores ao máximo para compensar sua própria incompetência. Se o setor industrial, parece ter mais especuladores do que produtores, se o agronegócio se expande à custa da destruição e da morte de culturas ancestrais e o setor de comércio e serviços vive de empregos desumanos e consumo desenfreado, o soft power é nosso melhor trunfo para influenciar o mundo. E ele está nas mãos e na cabeça do povo brasileiro.

No fim de semana tem os desfiles das campeãs, os bloquinhos de pós-carnaval e o primeiro show do Bad Bunny no Brasil, com muita afirmação de brasilidade e latinidade para nos lembrar do que somos capazes. O momento não poderia ser mais auspicioso para a luta pela humanização da jornada de trabalho, batalha que se trava também às vésperas do Oscar, quando um filme estupendo, que fala de nossos segredos – dos mais feios aos mais exuberantes -, pode se sagrar vencedor.

Chega de mediocridade, deputados, aproveitem o gancho eleitoral e encerrem a jornada 6×1. De qualquer modo, de um jeito ou de outro, saibam que a imaginação ainda vai chegar ao poder com muito samba no pé, farto molho baiano y mucho sazón – um sabor que não se encontra nas latas de conserva.

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