Buscar
Crônica

Quintal, rua e campinho

A paixão pelo futebol amador, desde as brincadeiras de quintal até a várzea

Crônica
27 de junho de 2026
04:00
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Se há alguma coisa redonda e chutável, pode ser futebol. Essa é uma das regras não ditas do quintal, da rua e do campinho. Mas cada uma dessas modalidades do esporte possui suas próprias engenharias e peripécias.

O futebol de quintal é o coração dentro do coração. Precisa de um quintal, óbvio. Mas de que tamanho? Depende do tamanho das pernas da molecada. Ou do cachorro. No quintal todo mundo joga: visita, carteiro, capô de carro. Nem todo mundo aceitou de bom grado participar da partida, é preciso dizer. Às vezes o juiz pode ser a mãe, questionando o sequestro das vassouras ou dos dois vasos de Comigo Ninguém-Pode para ser a trave.

Entre as traves, o que passar é gol. Saco de lixo amarrado, pão duro, fruta madura, meia enrolada e até mesmo uma bola de mentira, totalmente presa ao mundo das ideias – diferente da bola-fruta-madura, que é absolutamente verídica. No quintal, os primeiros dribles, a primeira catimba e então o grito de “Você vai arrumar essa bagunça!”

Na rua, a coisa precisa ser um pouco organizada. A bola, se for de meia, deve ser caprichada. Porém, na rua quase sempre tem alguém com uma bola de futebol mais ou menos como as da tevê, com o som seco e inconfundível da disputa.

A bola de futebol também é o som que ela faz, que ecoa nos portões, agita cães (mesmo os mais preguiçosos) e bota alguns vizinhos para esticar o pescoço. É isso, tem público e ninguém pagou para assistir, o comprometimento é zero, mas, para cativar, vale o sacrifício.

Os tijolinhos marcam os limites e interditam o espaço para quem passar entender que há um jogo de futebol acontecendo ali. É senhora com compra na mão? Pode passar. Mulher com bebê de colo? Passa. Carro também pode passar. Criança pode, dependendo da criança. Para os outros, o futebol não para.

Dois jogadores pra cada time já servem de campeonato. Se tiver só três atletas, uma longuíssima disputa de pênaltis já resolve. Mas há algumas falhas imperdoáveis no futebol de rua: a desonestidade e a chuva. É imperdoável alguém vencer um jogo “se esquecendo” de marcar o placar. E quando a chuva vem, sem dar tempo para o último drible? Tanta hora para chover, tantas ruas sem futebol.

Calejado pelas ruas, é possível partir para o campinho, o auge da carreira, o motivo de ser chamado de “várzea’” (um terreno que pode ser inundado). No campinho, um gol é um gol, que pode ter rede ou não. As linhas estão demarcadas, as regras devem ser respeitadas e tem inclusive um juiz com apito e muita coragem (ou pouca, depende do campeonato). Já pode ter um uniforme – um time sem camisa, e o outro com, custeado pelo mercadinho. E o campeonato pode valer alguma coisa, o que é um salto de seriedade.

Ali as funções são mais definidas, isso até antes do apito. Logo depois, o goleiro sai driblando geral, o atacante tira chute com a mão, o meio-campo se distrai com a torcida – que são sete ou oito pessoas, três delas empinando pipa, porque todo campinho é plural –, e o zagueiro, bom, ao zagueiro cabe ser zagueiro, em qualquer modalidade. O campinho é onde a brincadeira vira esporte, mas, mesmo assim, ainda é futebol. É só começar que o quintal invade a rua, a rua invade o campinho e tudo vira o único futebol que sobrevive a todas as inundações: o amador.

Edição:

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 222 O caldeirão político em que ferve a América Latina

Flavia Loss analisa o crescimento da extrema direita na América do Sul e o papel dos Estados Unidos nas eleições

0:00

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Quer escrever uma crônica para esta coluna? Mande um email para cronicadesabado@apublica.org e coloque no assunto Crônica para Avaliação e seu nome completo.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Artigos mais recentes