Buscar
Agência de jornalismo investigativo
Reportagem

Diário: à beira da estrada, uma comunidade sem papeis

|17/07/2013| O indígenas tilcara de Angosto el Perchel brigam contra a burocracia argentina e os turistas, que "chegam e ficam" na sua terra

Reportagem
20 de julho de 2013
12:28
Este artigo tem mais de 13 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Liliana Canchi tem 42 anos, todos vividos à beira da Rota Nacional 9, ou RN 9, que corta a Argentina desde sua capital, Buenos Aires até o limite ao norte com a vizinha Bolívia. Há um ano foi eleita presidente da comunidade em que cresceram seu pai, seu avô e onde crescem seus filhos. Pela manhã, costuma manejar o preparo do mate para a família; um lenço azul lhe cobre os cabelos, o mesmo que no dia anterior lhe cobria e o mesmo que lhe acompanha em tantos outros afazeres.

Liliana Canchi, presidenta da comunidade Angosto el Perchel
Liliana Canchi, presidenta da comunidade Angosto el Perchel

“Como é meu dia? Fatal!”, solta. “Trabalhar na terra é muito sacrificante. Todo o tempo tem de se estar atento à sua agricultura. Faça calor, chuva ou frio, há que trabalhar”. Como Liliana, os outros membros da comunidade em que vive também são agricultores. Pequenos produtores de frutas e verduras, a serem vendidas em Tilcara, cidadezinha ali próxima.

Liliana é presidenta da Comunidade Indígena Angosto el Perchel, ao norte da Argentina, no departamento de Jujuy .Tanto a comunidade como a cidadezinha de Tilcara estão na região da Quebrada de Humahuaca, considerada Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO desde 2003 por ter, há 5 mil anos, abrigado a comunidade Chincorro, uma das mais antigas da Américas. Angosto el Perchel hoje conta com cerca de 70 famílias descendentes da etnia indígena tilcara, mas apenas 30 vivem ali permanentemente. As outras, que saíram em busca de trabalho ou estudo, voltam sempre no carnaval, festejado com música folclórica – o carnavalito, dançado com trajes que lembram os dos tradicionais gaúchos.

Aqui em Angosto as casas são de barro, como nas antigas roças do interior paulista. No quintal das casas há sempre cachorros e, nas poucas que são mais prósperas, também ovelhas e cavalos. Para os membros da comunidade – e para todos os indígenas – a terra onde trabalham, crescem e vivem é especial. A ela chamam Pacha, e sempre que vão realizar algum trabalho importante – seja a construção de uma casa ou uma conferência com estudantes – fazem o ritual de pedir permissão a terra, ofertando-a álcool, vinho e folhas de coca.

Jovens da Rota Inca caminham pela entrada norte à comunidade

Há 20 anos, segundo o vizinho Raul Sarrama, realizar esse tipo de ritual à luz do dia era impossível por causa do preconceito que sofriam aqueles que o praticassem. Assim, eram realizados na calada da noite, nas madrugadas, às escondidas. Agora pode – mas nem tanto. “A Argentina nega a seus povos originários”, acredita Raul.

“As crianças têm vergonha de dizer que são indígenas. Querem se parecer com os brancos”, explica Noemi Perez, vice-presidente de Angosto el Perchel. A única arma que temos é a educação que damos em casa, os pais.

Há quatro anos a comunidade foi reconhecida como associação pelo Estado argentino. Mas o reconhecimento do território como indígena ainda está longe de acontecer. No povoado onde que todos trabalham duro a terra no verão para sobreviverem o duro inverno, a desconfiança em relação ao Estado argentino é grande. “É contraditório, não? Pedir permissão para o que é seu”, questiona Noemi Perez. Para tentar solucionar a questão, a comunidade contratou um advogado particular, que atua na capital do estado de Jujuy. A defensoria públicos, conta Noemi, não dão ouvidos às queixas. “Nos dizem pra voltar depois, amanhã, ou que falta tal papel, que está incompleto”.

Raul e Liliana realizam o ritual de agradecimento à terra, Pacha, pedindo benção para realizar o intercâmbio com os integrantes da Rota Inca 2013

Outro membro da comunidade resume tudo: “Nesse momento, estamos contra os agentes do governo, porque as leis já estão, mas não se cumprem”, diz Raul Serrama. Para ele, há problemas mesmo com os advogados particulares. “Os advogados que temos estão formados pelo direito argentino, não pelo direito indígena”, sentencia Noemi.

Sem o reconhecimento do território como indígena, os conflitos são constantes. A declaração da Quebrada como Patrimônio Mundial acirrou a briga por terras naquele pedaço da Argentina. Agora sobram os planos e projetos para empreendimentos como hotéis e pousadas por ali. “Os turistas antes vinham e iam. Agora vêm e ficam”, amarga Noemi. Muitos chegam e querem construir, outros tentam comprar as poucas terras. “Antes não havia isso. Cada um tinha respeito com os outros, sabia onde terminava suas terras. Mas nós não somos seres teóricos, somos práticos. Não vivemos à base de papeis”.

Centro de reunião da comunidade Angosto el Perchel

 

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 230 O que é o Partido Digital Bolsonarista? – com Marcos Nobre

Professor e pesquisador, Marcos Nobre, fala sobre as mudanças estruturais na forma de fazer política no Brasil

0:00

Leia também

Diário: um lugar esquecido no Chile, e os adoradores de Cristina

|

Na segunda semana de peregrinação pela América do Sul, nossa repórter visita o local de origem das múmias Chinchorro, no Chile, e conhece de perto a foça do kirchnerismo no norte da Argentina

As novas rotas de tráfico na América Central

|

Com 370 mil habitantes, a pequena Belize tem sido usada por cartéis mexicanos como ponto de trânsito para o tráfico de cocaína

Notas mais recentes

Departamento de Guerra dos EUA investe 750 milhões de dólares em terras raras brasileiras


Prevenção sem repressão: Fóruns populares levam pauta de segurança pública a candidatos


Facebook não barra anúncios com desinformação sobre eleições brasileiras


Horário eleitoral gratuito começa nesta sexta-feira com apenas 4 candidatos a presidente


Governos de 4 estados não aderem a esforço nacional de combate a roubos de celulares


Leia também

Diário: um lugar esquecido no Chile, e os adoradores de Cristina


As novas rotas de tráfico na América Central


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Funai revê posição adotada no governo Bolsonaro e pede suspensão da licença de Belo Sun

|

Órgão agora cobra análise de 20 comunidades ignoradas e quer suspender licença retomada na Justiça em fevereiro de 2026

Imagem mostra ícones dos aplicativos de redes sociais da Meta em celular

Meta usa influenciadores para direcionar debate sobre proteção a crianças nas redes

|

No Brasil, empresa promove ideia de que as suas ferramentas são melhor que leis que proíbam o acesso dos mais jovens

Eleitores gerados por IA fazem campanha no TikTok e põem em xeque regra do TSE

|

Vídeos criados com IA em que eleitores declaram seus votos para presidente têm 7,4 milhões de views no TikTok

O método: como a extrema direita ataca professores para engajar eleitores

|

Gravações clandestinas e ataques online evidenciam como docentes são explorados politicamente desde 2022

Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

|

Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi