Buscar
Nota

Brasil é condenado pela Corte Interamericana por violação a quilombolas em Alcântara

13 de março de 2025
17:48
Este artigo tem mais de 1 ano
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Os quilombolas de Alcântara, no Maranhão, obtiveram uma vitória histórica na Corte Interamericana de Direitos Humanos (IDH). Em sentença divulgada na tarde de quinta-feira (13), a corte internacional decidiu que o Brasil violou os direitos humanos de 171 comunidades quilombolas do município ao fazer a instalação do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA) – uma base de lançamento de foguetes, que levou à remoção das famílias. 

Para a Corte Interamericana, a não titulação do território quilombola e a ausência de consulta prévia, livre e informada às comunidades quanto a medidas que poderiam afetá-las constituíram violações de direitos pelo Estado brasileiro. 

Na visão do tribunal, o “projeto de vida coletivo” das comunidades foi afetado pela falta de acesso à Justiça, e o Brasil “não adotou medidas suficientes para reverter a situação de discriminação estrutural em que se encontram as comunidades”.

A Corte IDH determinou que o Estado deve pagar uma indenização de 4 milhões de dólares às comunidades afetadas, destinando o montante à associação que representa as vítimas. Também deve titular os 78.105 hectares das comunidades e realizar consultas prévias, livres e informadas sobre medidas que as afetem, além de promover um ato público de reconhecimento de sua responsabilidade e instalar uma mesa de diálogo permanente em comum acordo com as comunidades.

O resumo e a íntegra da sentença estão disponíveis no site da Corte.

Para Melisanda Trentin, da ONG Justiça Global, uma das peticionárias, a decisão atendeu às expectativas das organizações que levaram o caso à Corte. “[A sentença] é uma vitória imensa e muito significativa para a luta quilombola no Brasil. As comunidades quilombolas de Alcântara esperam há anos pelo reconhecimento do seu direito ancestral ao território. Hoje, pela primeira vez em um tribunal internacional, esse direito foi reconhecido”, afirma. Trentin é coordenadora do programa de Justiça Socioambiental e Climática da ONG.

Outro peticionário do caso junto à Corte IDH, o cientista político e quilombola de Alcântara Danilo Serejo, também celebrou a decisão do tribunal, que condenou o Brasil mesmo após o que ele chamou de “tentativas de esvaziar o conteúdo da sentença”. “É uma vitória histórica e um importante precedente para a proteção dos direitos das comunidades quilombolas no Brasil”, diz. Essa foi a primeira vez que o Brasil foi condenado por um caso envolvendo quilombolas na Corte Interamericana. 

O CLA foi iniciado pela ditadura militar ainda nos anos 1970. Ao longo da década seguinte, mais de 300 famílias quilombolas foram removidas compulsoriamente para a construção do projeto, ligado à Força Aérea Brasileira (FAB). Desde então, as comunidades quilombolas de Alcântara lutam pela titulação de seu território e denunciam violações de seus direitos.

O caso chegou à Corte IDH em janeiro de 2022, após mais de duas décadas tramitando no Sistema Interamericano de Proteção aos Direitos Humanos, ligado à Organização dos Estados Americanos (OEA). 

Em abril de 2023, quando o tribunal internacional promoveu uma audiência sobre o caso, o Estado brasileiro reconheceu parcialmente as violações cometidas e manifestou um pedido de desculpas. No ano seguinte, promoveu um acordo, se comprometendo a não expandir a base de lançamentos e a titular o território até o fim do atual governo.

As medidas, no entanto, foram vistas com ressalvas pelos peticionários na época e não dissuadiram o tribunal internacional de considerar o Brasil responsável por violações de direitos humanos no caso.

Alcântara, localizada na região metropolitana da capital do Maranhão, São Luís, tem 85% de seus 18,4 mil habitantes autodeclarados quilombolas e é a cidade do país com maior proporção dessa população, segundo dados do Censo 2022 do IBGE.

A decisão no caso dos quilombolas de Alcântara é a 18ª condenação do Estado brasileiro na Corte IDH. Violações de direitos humanos cometidas durante a ditadura militar e em chacinas policiais, assim como episódios de trabalho escravo, violência contra trabalhadores rurais, feminicídio e racismo estão entre os casos em que o Brasil foi condenado.

Cumprir as decisões da Corte IDH é uma obrigação dos Estados que reconheceram sua competência. O descumprimento não gera consequências diretas como em um tribunal nacional (que pode acionar forças policiais para cumprir um mandado de prisão, por exemplo), mas gera constrangimentos e pode manchar a imagem do país perante a comunidade internacional.

Edição:

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 228 O fracasso do Estado em proteger mulheres – com Juliana Brandão

Coordenadora de gênero e raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública analisa as falhas de crimes contra a mulher

0:00

Notas mais recentes

Senado dos EUA aprova Daniel Perez antes de aval do Brasil para vaga de embaixador


Indústria de ultraprocessados tenta impedir combate à obesidade, diz diretor-geral da OMS


Escala 6×1, PEC da Segurança, minerais raros: o que o Congresso pode votar durante eleição


Corrida eleitoral: registro de candidaturas termina nesta semana


Embaixada dos EUA acionou líder do PL para visita que questionaria urnas no Brasil


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Deputado Alfredo Gaspar e senador Flávio Bolsonaro durante evento do PL

Após pressão por uma vice mulher, PL fecha chapa apenas com homens

|

‘Michele está fazendo comida para o marido’, responde Damares Alves sobre ausência de ex-primeira dama

Eleições: legislação não é o suficiente para barrar conteúdos de IA nas redes sociais

|

Decisões do TRE-BA determinam que Meta retire vídeos com IA do Instagram, mas cópias seguem na rede
Foto mostra plataforma de trem da Estação Luz, no centro de SP. Estação integra a linha 12 da CPTM.

As denúncias por trás dos acidentes e da greve de trens em São Paulo

|

Funcionários apontam problemas elétricos em linha que pegou fogo, falta de treinamento e de pessoal

Terras raras brasileiras estão no radar do Departamento de Defesa dos EUA

|

BNDES incentiva produção para transição energética, mas empresas firmam laços com a indústria militar norte-americana
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição pelo Partido dos Trabalhadores (PT), discursou na convenção partidária e oficializou sua candidatura.

Lula aposta no combate ao feminicídio para fortalecer apoio entre eleitoras em 2026

|

Apesar de acenar para as mulheres, nenhuma mulher, nem mesmo Janja, havia sido escalada para discursar no evento

Estudo denuncia como contribuinte brasileiro subsidia Coca-Cola em “mágica tributária”

|

Big Food inflacionaria preço de xarope da Zona Franca de Manaus e faria uso de royalties fantasmas para evitar impostos

Partido Missão: o projeto de poder de Renan Santos e do MBL

|

Como o grupo estrutura a formação militante defendendo pautas que flertam com a ruptura democrática

Meta, Telegram e X fecham acordo com TSE sobre desinformação sem punição caso não cumpram

|

Termos mostram plataformas tentando se blindar de responsabilidades sobre conteúdo desinformativo nas eleições de 2026