Buscar
Nota

Fazer conciliação sobre petróleo no Amazonas é ‘inaceitável’, critica Suely Araújo

22 de agosto de 2023
20:33
Este artigo tem mais de 3 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

“Colocar decisões do Ibama sobre licenças ambientais no âmbito de câmaras de conciliação da Advocacia Geral da União (AGU) não faz qualquer sentido. No meu ponto de vista é inaceitável.” Essa declaração indignada é de Suely Araújo, ex-presidente do Ibama e especialista sênior em políticas públicas do Observatório do Clima, em resposta ao parecer da AGU de hoje sobre a decisão do Ibama de negar um pedido da Petrobras de prospecção de petróleo na Foz do Amazonas.

O posicionamento da AGU, divulgado na tarde desta terça-feira (22), foi interpretado como um sinal verde para que a atividade seja realizada e também como uma derrota política para a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. A AGU se manifestou a partir de um pedido feito pelo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, de esclarecimento sobre a decisão do Ibama, em maio.

Em seu despacho, o presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho justificou o indeferimento “em função do conjunto de inconsistências técnicas” no processo. “Não restam dúvidas de que foram oferecidas todas as oportunidades à Petrobras para sanar pontos críticos de seu projeto, mas que este ainda apresenta inconsistências preocupantes para a operação segura em nova fronteira exploratória de alta vulnerabilidade socioambiental”, argumentou.

A Petrobras queria perfurar um poço no chamado bloco 59, em águas profundas, ainda neste ano para prospectar a presença de petróleo. A equipe técnica do Ibama argumentou que não apenas faltavam elementos nos estudos apresentados pela empresa para entender os riscos em jogo, como seria necessário realizar uma Avaliação Ambiental de Área Sedimentar (AAAS) na bacia – algo que nunca foi feito. Segundo o Ibama, isso permitiria identificar áreas onde não é possível extrair e produzir petróleo e gás por conta de riscos ambientais.

Foi sobre esta menção à AAAS que o MME pediu um posicionamento da AGU. A Advocacia avaliou que a AAAS não é indispensável e não poderia impedir o licenciamento ambiental para exploração e produção de petróleo e gás natural no país. 

Segundo a argumentação da AGU, o Ibama estaria exigindo “por vias transversas a realização da AAAS”. A AGU chega a dizer que o Ibama está “fazendo uma exigência ‘fática’”. Em outras palavras, a advocacia entendeu que o Ibama estaria sim condicionando a licença à AAAS. 

Além de avaliar que a AAAS não é obrigatória, a AGU encaminhou Ibama e Ministério de Minas e Energia para acertarem suas divergências em uma conciliação: isto, na Câmara de Mediação e de Conciliação da Administração Pública Federal (CCAF), subordinada à Consultoria-Geral da União (CGU). Segundo a AGU, o objetivo é buscar a “resolução consensual dos demais pontos divergentes relativos ao caso, incluindo os levantados pelo Ibama na negativa do licenciamento sobre os impactos de sobrevoos para as comunidades indígenas e o plano de proteção à fauna”. A conciliação é um processo administrativo, e que poderia gerar um Termo de Conciliação.

Araújo, que quando estava à frente do Ibama também negou um pedido de exploração na mesma região, questiona a análise da AGU. Ela lembra que já era sabido que a AAAS não é uma obrigação legal, visto que o STF já havia dito isso. “Mas o Ibama não recomendou a AAAS por ela ser obrigatória; mas sim porque é um elemento técnico importante para as decisões na região. Porque sem ela não há elementos suficientes para decidir bloco a bloco. É preciso ter uma visão regionalizada. É isso que o Agostinho disse: que é tecnicamente importante. Ele não disse que estava negando a licença porque não tinha avaliação, nem disse que a avaliação é uma obrigação legal”, frisou a ambientalista.

Para ela, porém, o pior do parecer da AGU é considerar que o licenciamento ambiental é um espaço de conciliação de interesses ou de acordos políticos. “Estão transformando essa arena, usando argumentos jurídicos para impor uma decisão política. Licenciamento ambiental não é arena para conciliação de interesses, para conciliação de brigas entre ministérios. É um processo de análise técnica do Ibama, isso tem que ser respeitado. Não pode esvaziar o licenciamento e colocar decisões sobre licenças no âmbito de câmaras de conciliação da AGU. Não compete conciliar interesses. Imagina se a moda pega?”

Questionada sobre se essa decisão da AGU se sobrepõe à do Ibama, Araújo lembrou que o órgão é soberano em relação ao licenciamento. “A autoridade para emitir ou não licenças ambientais no plano federal, naqueles licenciamentos que competem ao Ibama, segundo a Lei Complementar 140, é o Agostinho. Não cabe recurso para ministro do Meio Ambiente, muito menos para a AGU. Não cabe recurso nem para o presidente da República. Então a autoridade é o Rodrigo Agostinho, isso juridicamente.”

Para ela, “essa história de achar que o licenciamento ambiental pode ser remetido a uma câmara de negociação” é uma politização de algo que deveria ser meramente técnico. “Não há uma divergência jurídica para a AGU conciliar. A questão não é jurídica, o que está pegando é uma decisão técnica, que não está sendo aceita, é isso. Poderia até haver divergências jurídicas, mas elas não existem”, diz.

Edição:

Notas mais recentes

Instituto de André Mendonça é alvo de representações para investigar irregularidades


Com despesas pagas pelos EUA, ida de procurador a evento sobre Irã é cancelada pela PGR


Semana tem presidenciáveis no 7 de setembro e STF na apuração sobre denúncias de ministros


PEC da Segurança Pública: votação fica para depois do 1° turno com aval de relator do PT


Fim da Escala 6×1 será votado no Senado em esforço concentrado antes do recesso eleitoral


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Na urna com o ex: Rivais históricos se unem por espaço e poder nas eleições 2026

|

Antigos adversários superam críticas, ideologias e até acusações de crimes para disputar voto do eleitor em outubro

Espionado por Mendonça em 2020, professor vê “natureza golpista” em atuação de ministro

|

Luiz Eduardo Soares conta como foi monitorado por ordem do atual ministro do STF e critica instrumentalização da Corte
Deputado federal Mário Frias durante sessão na Câmara dos Deputados

Como Mário Frias chegou ao centro da máquina de propaganda da família Bolsonaro

|

Ex-ator foi colocado na política por Jair para juntar cultura e armas em estratégia olavista de guerra ideológica
Foto mostra modelo atual de urna eletrônica usada nas eleições brasileiras

Ministério Público Eleitoral impugna 15 candidatos em SP ligados a crimes, dois ao PCC

|

Órgão contesta 557 registros e utiliza nova regra do TSE para afastar crime organizado da política
Flávio Bolsonaro (PL) participou no sábado 29 de agosto de um ato de campanha à Presidência em Angra dos Reis (RJ) ao lado do candidato a deputado federal, o empresário Renato Araújo, também do PL

O amigo do Flávio Bolsonaro em Angra dos Reis

|

Quem é Renato Araújo, candidato a deputado que cresce no círculo dos Bolsonaro assim como os problemas ao seu redor

Congresso travou regulação de câmeras corporais enquanto letalidade policial batia recorde

|

Câmeras corporais de policiais se tornaram campo de disputa política que vai muito além da responsabilização por abusos

Prevenção a violências contra crianças passa batida em propostas de presidenciáveis

|

Maior parte dos programas ignora prevenção a mortes ou violência sexual de crianças e sequer menciona primeira infância

Lula e Flávio, mais cautelosos que o usual, deixam público dar recados no 7 de setembro

|

Em SP, ato da direita levou menos gente às ruas que no ano passado; em BSB, Lula seguiu protocolo “seguro”