Buscar
Nota

Memorial JK: Postal com slogan bolsonarista é vendido como lembrança de Brasília

27 de janeiro de 2024
04:00
Este artigo tem mais de 2 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

O Memorial JK é um dos atrativos turísticos mais visitados de Brasília. Lá, o visitante pode conhecer mais sobre a vida e história política do ex-presidente Juscelino Kubitschek, “o fundador” da Capital Federal, visitar a biblioteca dele, e ver suas roupas, bem como o local onde se encontram seus restos mortais. No final da visita, o visitante também podia comprar um cartão postal na lojinha oficial. Um deles com slogan semelhante a uma frase de Jair Bolsonaro (PL) que se tornou conhecida nos últimos anos da política nacional: “O Brasil acima de todos, Deus acima de tudo”.

O postal era vendido na lojinha ao preço de R$ 2 e apresentava uma foto da fachada do Memorial, com foco na estátua do casal Juscelino e Sarah Kubitschek, sentados em um banco na entrada. No verso está o slogan das campanhas bolsonaristas de 2018 e 2022, com uma pequena alteração. Na frase do ex-presidente, o Brasil está acima de tudo, e Deus, de todos. As palavras tudo e todos foram trocadas de lugar na frase impressa no postal. O verso do cartão ainda apresenta o nome do memorial, um espaço para adicionar endereço e o mapa do Brasil.

Depois do questionamento da Agência Pública, o souvenir foi retirado da lojinha, de acordo com funcionária da área cultural do Memorial. “A proprietária avisou e o postal foi retirado”, disse. Por telefone, ela ressaltou que “a lojinha é terceirizada”. 

Por que isso importa?

  • Com a polarização política, é importante ficar claro ao público se os locais que visita ou frequenta representam posicionamentos políticos de seus mantenedores
  • Líder do Partido Social Democrata, Juscelino não se declarava de esquerda ou direita

Em entrevista, Maria de Fatima da Silva Azevedo, responsável pela loja, disse que o postal “é coisa antiga, não tem nada a ver com política, não, nem pode ter isso aqui”. Questionada sobre a data em que a venda do postal teria começado, ela primeiro disse que “acho que deve ser de 2020, por aí”, após a primeira eleição de Jair Bolsonaro, quando o slogan já era conhecido. Depois, questionada novamente, disse que havia uma “imprecisão” e que não lembrava quando o postal chegou à loja. Fátima é a única responsável pela loja, registrada para “comércio varejista de suvenires, bijuterias e artesanatos” com nome fantasia “Souvenir JK” em 2006. 

“Eu compro a mercadoria e vendo, mas não sei quando que o fornecedor fez. Eles aparecem oferecendo, mas a gente não pergunta quando é que fez, onde é que fez, nada disso. Se interessa, se é motivo Brasília, a gente compra pra vender”, acrescentou. Ela também disse que, após ser contatada pela Pública, teria conversado com a fornecedora, que teria dito que a frase seria, na verdade, “evangélica”. Depois, Fátima se corrigiu e disse que a justificativa veio de uma “pessoa que conhece ela [a fornecedora]”. 

“Aqui a gente não mexe com política, é proibido esse negócio de política aqui dentro, não tem partido. Cada um que quiser [ter] seu candidato, seu partido, tem que ser fora do Memorial”, acrescentou Fátima. Ela disse que antes do contato da reportagem “ninguém tinha atinado para isso, ninguém tinha prestado atenção nisso” e que retirou o postal da venda “para não ter problema”. 

A reportagem também perguntou quem era a fornecedora, e Fátima disse ser uma autônoma, não uma empresa que produzia os postais, mas não passou detalhes. Também afirmou que esse postal em específico não precisou passar pela aprovação do Memorial JK para ser vendido, já que ele não apresenta logomarca oficial. 

O Memorial JK é uma associação privada presidida por Anna Christina Kubitschek, neta do ex-presidente. O monumento para resgatar a memória de JK foi inaugurado em setembro de 1981, cinco anos após a morte do “fundador” de Brasília. O Memorial não respondeu às perguntas enviadas pela reportagem.

Edição:
Laura Scofield/Agência Pública
Laura Scofield/Agência Pública

Notas mais recentes

MPF move ação contra Renan e MBL por xingar indígenas do Pará no Instagram


Corrida eleitoral: Campanha começa com Lula em Minas Gerais, Flavio desmarca Juiz de Fora


Corrida Eleitoral: sabatinas eleitorais continuam enquanto Congresso volta de recesso


Senado dos EUA aprova Daniel Perez antes de aval do Brasil para vaga de embaixador


Indústria de ultraprocessados tenta impedir combate à obesidade, diz diretor-geral da OMS


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso

Banco do Nordeste e Itaú financiam R$ 44 milhões para soja em área de conflito no Maranhão

|

Investidora paulista consegue autorizações de desmatamento e sinal verde na Justiça em disputa contra extrativistas
Governador de Goiás Ronaldo Caiado no escritório do Google em Nova York

Candidato à Presidência, Caiado transformou Goiás em laboratório de leis para Big Techs

|

Projetos que interessam ao Google e Amazon avançam em Goiás sem debate, cada um aprovado em menos de 48 horas