Buscar
Nota

Violência só vai acabar com regularização fundiária, defendem quilombolas na Câmara

14 de setembro de 2023
15:51
Este artigo tem mais de 3 anos

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

“Nos últimos 10 anos perdemos de forma violenta 30 lideranças quilombolas”, afirmou, nesta quarta-feira (13), na Câmara dos Deputados Biko Rodrigues, representante da Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (Conaq). Ele foi um dos palestrantes em audiência pública promovida pela Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial sobre as comunidades quilombolas. Biko lembrou a brutalidade do assassinato de Mãe Bernadete, em agosto deste ano, e defendeu que só é possível acabar com a violência contra essa população por meio da garantia do acesso às terras e territórios urbanos tradicionalmente ocupados por eles, ou seja, por meio da regularização fundiária.

“A não regularização dos territórios coloca as comunidades quilombolas em situação de fragilidade e gera o aumento, o acirramento dos conflitos”, reforçou Biko. De acordo com ele, vários territórios, por não serem regularizados, têm sido reclamados por empreendimentos imobiliários, de usinas hidrelétricas ou agronegócio, o que “causa conflito constante que pode levar a ameaças e óbito das lideranças”.

A juíza Karen Luise Vilanova, que participou do evento como representante do Observatório de Direitos Humanos do Conselho Nacional de Justiça, concorda. “A partir do momento que não existe a segurança com a titulação da terra, as comunidades se tornam vulneráveis a todo e qualquer tipo de tentativa de sua retirada daquele lugar”, disse em entrevista à Agência Pública. “Precisamos da titulação das terras para que a gente possa gerar pacificação nos territórios”, concluiu. 

Vilanova ainda defendeu que a Justiça Brasileira precisa mudar para que os direitos quilombolas sejam garantidos. “Quando existe uma disputa por território quilombola ela vai acabar no Poder Judiciário, e se o judiciário tratar essa disputa de terras sem olhar com a marca da raça e com a marca do quilombo, a gente não vai sair do mesmo lugar”. 

Na maior parte do tempo, a audiência foi presidida pela deputada federal Reginete Bispo (PT-RS), que defende celeridade e urgência no trato do tema. Para a deputada, que está em seu primeiro mandato, a transição de governo foi importante para abrir o “diálogo”, mas considera que a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não deve tratar o tema como nos mandatos anteriores do PT.

“Como estava antes de 2016 também não servia, porque estava devagar, estava parado”, disse à Pública. “O ideal era que o governo estabelecesse uma meta em quatro anos para titular todas as comunidades que hoje estão certificadas. Aí seria um avanço significativo. Por enquanto, há uma intenção, há um diálogo, mas a política não chegou efetivamente”. 

Também participaram da audiência pública representantes de órgãos como o Ministério da Igualdade Racial (MIR), Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDH), Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

“Quantos mais vão precisar tombar pelo caminho para que o governo, de fato, possa avançar com aquilo que é competência dele?”. 

Biko Rodrigues, representante da Conaq, sobre “atraso” do Estado

Censo

Além da discussão sobre a titulação, a comissão também debateu a realização do primeiro Censo quilombola, a formulação de políticas públicas para mulheres quilombolas e formas de combater o racismo. Sobre o Censo, os palestrantes abordaram a importância da obtenção de dados sobre as comunidades rurais e urbanas para a elaboração de políticas públicas específicas. 

De acordo com a primeira edição da pesquisa, publicada em julho deste ano, atualmente vivem 1,3 milhão de quilombolas em 1.696 mil municípios brasileiros. Marta de Oliveira, que discursou no evento como representante do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), acrescentou que até o início de 2025 serão compartilhados ainda mais detalhes sobre a pesquisa entre a população. 

Edição:

Notas mais recentes

Hospitais do Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro e a acusação de Lula na Band


Às vésperas do 2° turno, governo tenta votar PEC da Segurança Pública no Senado


Locais de votação alterados e abstenção: estigma afasta eleitores da Maré das urnas


Fim da escala 6×1 vai a votação no Senado, mas aliados de Flávio tentam barrar


Mulheres são maioria das vítimas de violência política, mesmo sendo minoria das candidatas


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Uma sala e 90 empresas: o mapa que liga Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz e o careca do INSS

|

Encontramos mais empresas que reforçam ligação entre investigados por corrupção; elo é empresa de contabilidade

Às vésperas do 2º turno, canais no Telegram espalham fake news sobre segurança de urnas

|

Levantamento identificou 60 canais no Telegram, com 891 mil inscritos, que compartilham conteúdos proibidos pelo TSE

Ameaças, perseguição e mortes: indígenas denunciam aumento da violência política

|

No RS, disputa eleitoral em terra indígena deixou três mortos; na Amazônia, garimpeiros ameaçam invadir se Flávio vencer
1ª Coletiva do Ministro Kassio Nunes Marques no TSE - 04.10.2026

Nunes Marques faz TSE pender para Flávio Bolsonaro ao priorizar decisões e conduzir pautas

|

Para juristas, desequilíbrio da Corte fica evidente na agilidade de análise de alguns pedidos, não no teor da decisão

PF acha nota de Willer Tomaz citando indiciado no caso Abin Paralela e “180 mil dólares”

|

Amigo de Flávio Bolsonaro e ex-oficial de inteligência suspeito de espionar adversários de Jair Bolsonaro negam relação

Flávio Bolsonaro turbina anúncios na Meta com suspeita de uso irregular de IA

|

Político impulsionou meio milhão de reais em um só dia no Instagram e Facebook; valor total gasto pode ser ainda maior
Sessão Eleitoral em Samambaia Norte C.E.F. 404 1º turno Eleições 2026 - 04.10.2026

Justiça eleitoral muda até 4 vezes ao dia local de votação às vésperas do 2° turno

|

Alterações divulgadas nos últimos dois dias atingem 453 seções; no 1° turno, Lula venceu em 249 delas, 55% do total

Política e monetização: como ativistas se tornam alvo de violência dentro e fora das redes

|

Terra de Direitos e Justiça Global afirmam que um caso de violência política ocorreu a cada 9 horas durante campanha

Quem aprovou o crédito de Flávio? BRB silencia, e três diretores da época são alvo da PF

|

Três diretores investigados pela PF integravam a cúpula do BRB quando Flávio Bolsonaro obteve financiamento de mansão

‘Leilão às avessas’: vitória de Flávio consolidaria interferência dos EUA no Brasil

|

Terras raras, combate ao tráfico e Congresso mais à direita favorecem dominação dos EUA de Trump sobre América Latina