Organizado pelo Centro Dom Bosco, evento teve o influenciador bolsonarista Bernardo Kuster como palestrante

5 de setembro de 2022
01:01

“Olha o que disse o Lula recentemente”, diz o Tenente Lucas Henrique, candidato a deputado federal pelo PTB-RJ, no início de sua palestra no 1º Congresso Imaculada Conceição. Ele lê um trecho do discurso do ex-presidente durante o comício no Vale do Anhangabaú no dia 20 de agosto de 2022, no qual ele diz que “Igreja não deve ter partido político, tem que cuidar da fé, não de fariseus e falsos profetas”.

O Tenente, ao terminar a leitura, simula uma risada e diz: “até parece que esse não é o homem que um dia desses disse que iria legalizar o aborto no Brasil para que Estado pudesse assassinar crianças inocentes”. Trata-se de desinformação, visto que o programa de governo de Lula apenas menciona o dever do Estado de assegurar “direitos sexuais e reprodutivos”.

O Congresso Imaculada Conceição, que a Agência Pública acompanhou, aconteceu nos dias 3 e 4 de setembro, na cidade de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. Com tema “A vocação católica no Brasil”, foram apresentadas palestras sobre ideologia de gênero, estruturação de ações práticas e doutrina católica. Contou com a presença de palestrantes conhecidos nas redes sociais bolsonaristas, como o YouTuber de extrema-direita Bernardo Küster e Lucas Pelucio, redator publicitário do site Brasil Paralelo.

A organização foi de Eduarda Mourão, 43 anos, vice-presidente do Apostolado Beato Padre Victor e Vinicius de Oliveira Couto, 23 anos, presidente da mesma associação e articulador político do deputado federal Marcelo Álvaro Antônio (PL).

O evento foi organizado pelo Centro Dom Bosco, organização conservadora que ganhou notoriedade ao processar o Porta dos Fundos pelo seu Especial de Natal em 2020. Recentemente, o Centro esteve em destaque ao divulgar a realização de uma vigília marcada para o dia 7 de setembro. O vídeo de divulgação, feito pela atriz Cássia Kiss, foi compartilhado pelo presidente Jair Bolsonaro (PL), seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) e também pelo Ministro da Cultura, Mário Frias, que o usou como peça de campanha.

Como a Pública já mostrou, houve um aumento de 100% no número de congressos conservadores neste ano eleitoral. Grande parte serve como apoio à campanha de Jair Bolsonaro, também do PL. Ir a cidades no interior com esses congresso é parte da estratégia de campanha, segundo especialistas.

O evento católico aconteceu em um momento em que a campanha de Jair Bolsonaro aposta todas as fichas em convencer o público evangélico, através da atuação de Michelle Bolsonaro. Ao mesmo tempo, a campanha de Lula criou canais em redes sociais para o público evangélico.

‘Elite católica’

A maioria das menções a políticos e eleições, durante o Congresso, foi feita em tom de crítica aos opositores — e quase todas direcionadas a Lula (PT) e à esquerda de modo geral. Além de críticas ao candidato petista, o evento contou com a presença e agradecimentos a políticos do Partido Liberal, o mesmo do presidente Jair Bolsonaro.

Vinicius, organizador e também apresentador do evento, mencionou o apoio de Marcelo Álvaro Antônio (PL). O deputado estadual Bartô (PL) foi chamado ao microfone e ressaltou a importância de entender que tipo de sociedade queremos e continuar lutando por ela, pois “se a gente virar as costas realmente os ‘maus’ tomam conta”.

Cerca de 90 pessoas estavam presentes no horário de maior movimento, em um auditório improvisado na quadra da Escola Municipal Sócrates Mariani Bittencourt. Segundo os organizadores, o financiamento do evento foi feito com base em doações e colaboração de parceiros.

O foco dos palestrantes foi em manifestações anticomunistas e a importância de que ele seja duramente combatido – seria essa a “vocação católica” nos dias de hoje, conforme anunciado na propaganda do evento. “No objetivo não só de reunir uma elite católica, mas de fazermos toda sociedade elevar-se ou retornar à tradição da Igreja; de modo sábio e prudente, além de corajoso”, dizia a página do evento no Sympla.

“Que nossa bandeira jamais seja vermelha”

Outros palestrantes também fizeram questão de enfatizar sua aversão à esquerda e, principalmente, ao Partido dos Trabalhadores (PT). Bernardo Küster, ao chamar atenção para a necessidade de que os pais tenham mais atenção à educação dos filhos, disse: “Depois o filho chega em casa com cabelo azul, assistindo Felipe Neto e rebolando igual a Anitta dizendo ‘vou votar no Lula!’ e você pensa ‘onde foi que eu errei?’ Você descumpriu o juramento que fez no altar de educar seus filhos na fé católica”.

Frederico Viotti, representante do Instituto Plínio Corrêa de Oliveira, iniciou sua apresentação afirmando que o mundo está em colapso. “Há uma situação de calamidade em toda América Latina com a esquerda retornando ao poder em vários desses países”. E completa: “uma seita vermelha, que foi banida do Brasil, quer voltar ao poder. Uma seita que defende doutrinariamente os princípios opostos ao evangelho do nosso senhor Jesus Cristo”.

Ao final da palestra, ressaltou que “Desde 2013 estamos dizendo: eu quero o meu Brasil de volta. O que nós queremos é isso: o meu Brasil de volta. Nós queremos que nossa bandeira jamais seja vermelha”. Foi interrompido por uma rodada de aplausos.

O comunismo está nos detalhes

Bernardo Küster, o nome mais conhecido do evento, afirmou que as “agendas comunistas” não estão às claras, mas agem de forma “sorrateira”, mudando a cabeça de pessoas fiéis “aos poucos”.

Bernardo Küster no 1º Congresso Imaculada Conceição

Para evitar que isso aconteça, é importante estar atento e manter uma vida de obediência constante e vigiar práticas comuns que são, na verdade, agendas do comunismo.

Um dos exemplos dados por ele é o uso de métodos contraceptivos. “Quem negocia e dissocia sexo e reprodução, está relativizando a realidade. Quem faz isso está disposto a aceitar qualquer coisa. Essa pessoa está arriscando ser convertida [para o outro lado]”, explica.

Em entrevista à Pública, Bernardo Küster disse que a importância de congressos como esse está na difusão de preceitos importantes para a fé católica. Sobre o impacto desses eventos na política e nas próximas eleições, explica que caso aconteça, não é consequência direta. “Nossa intenção aqui não é transformar o Brasil em um local hiperconservador. Se isso acontecer pode ser uma consequência natural, mas não é o objetivo que nós estamos tratando aqui.”

Expansão da doutrina para os buscadores

Quem também esteve no evento foi Lucas Pelucio, redator publicitário do portal de extrema-direita Brasil Paralelo. Parte do trabalho de Pelucio está focado em escrever e publicar textos otimizados de acordo com as regras de ranqueamento do Google – o chamado SEO, ou Search Engine Optimization [otimização para motores de busca].

A grande proposta de Pelucio é elaborar conteúdos alinhados aos dogmas católicos e garantir que eles tenham bom ranqueamento nos buscadores. Caso um fiel com dúvidas decida buscar uma resposta no Google, ele terá acesso a esse material. “Quando eu estava me convertendo eu pesquisava sobre coisas religiosas, filosóficas, eu encontrava só coisas protestantes, testemunhas de jeová no YouTube, essas coisas mais aleatórias e negativas possíveis. Os liberais também, mas eu nunca encontrava coisa católica”, disse.

Sua proposta é ter uma organização “mais profissional”, com pessoas específicas cuidando de tráfego orgânico, gerado gratuitamente, e tráfego pago, a partir de anúncios. “A gente pode fazer muitas crianças e adolescentes, que estão ali sem os pais liberais estarem vendo, consumirem coisa boa”.

Lucas planeja desenvolver um site focado em melhorias para ranqueamento no Google para atender associações e organizações católicas — especialmente aquelas vinculadas à Liga Cristo Rei. “Existem ferramentas que mostram quantas pessoas pesquisam aquele tema, qual a realidade dela, idade, cidade, classe econômica. A gente vai ter ferramentas muito poderosas para as pessoas se converterem”, afirmou.

A Liga Cristo Rei, como explica o Frei Marcelo Aquino à Pública: “é uma instituição laical. Não é fundada pela Igreja, mas por leigos. Funciona como um fator de conexão entre os Centros espalhados pelo Brasil.” Os centros são organizações voltadas para desenvolver atividades de capacitação e ensinamento para fiéis da fé católica.

No domingo (4/9) pela manhã foi feita a celebração da Santa Missa Tridentina, modelo que segue o rito antigo com falas em latim e a recomendação do uso de véu e saias para as mulheres.

Muita fé e Fake News

Participante da audiência, Petrina Andrea, 74 anos, disse à Pública que esse é o congresso mais importante que já esteve na vida. “Nos Congressos de política eu não fui, porque eu acredito que a minha participação nesses lugares já estava tudo meio saturado. Aqui neste congresso, foi uma coisa maravilhosa, as palestras foram riquissimas”.

Para ela, se todo católico soubesse o que é o comunismo, essa oposição seria ainda maior. “Muita gente não aceita ser chamado de comunista, mas vai lá saber o que é a pauta comunista. Muitos desses eleitores do Lula, por exemplo, da esquerda, eles não sabem o que é o comunismo”, diz.

Petrina Andrea no 1º Congresso Imaculada Conceição, em Contagem

Petrina cita o aborto como uma das principais pautas do comunismo. “Aquele foi o assassinato mais bárbaro que teve na nossa história”, diz em referência ao caso da menina de 11 anos que foi autorizada pela justiça a realizar um aborto com 22 semanas de gestação.

“Tem aquele líquido que eles tiram das crianças para fazer aquele produto. Foi o [Donald] Trump descobriu os túneis com muita ossada de criança porque eles tiram aquele líquido da espinha deles para fazer aquele produto que a Rainha Elizabeth usa para permanecer jovem”, diz.

O produto mencionado por Petrina é chamado de adrenocromo e trata-se de uma substância obtida pela oxidação do hormônio adrenalina. Em 2020, dentre as diversas teorias de conspiração que formavam a teoria do QAnon, havia também o adrenocromo, uma substância rejuvenescedora produzida a partir de métodos de tortura praticados contra crianças.

A história foi desmentida pelo site e-farsas. Algumas das fotos das crianças mortas ou maltratadas eram, na verdade, de vítimas da guerra da Síria. Resumindo: trata-se de uma informação falsa.

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Bruna Batista/Agência Pública
Bruna Batista/Agência Pública