Agência de Jornalismo Investigativo

Ailton Krenak e Déborah Danowski debatem negacionismo climático

22 de fevereiro de 2021

Esta foi a última mesa do Pública +10, série de debates em comemoração ao aniversário da agência

A última mesa do festival Pública+10 uniu Ailton Krenak, ativista do movimento socioambiental e de defesa dos direitos indígenas, e Déborah Danowski, professora de pós-graduação em filosofia da PUC Rio e pesquisadora do clima e da catástrofe ecológica. O debate foi mediado pela co-diretora e fundadora da Agência Pública, Marina Amaral. 

Os convidados refletiram sobre a urgência da tomada de decisão sobre as mudanças climáticas e as consequências da negligência quanto ao tema. 

Ailton Krenak iniciou sua participação lembrando que “a questão climática no nosso planeta não é mais uma observação paralela, ela incide sobre o nosso cotidiano”. 

Já Déborah Danowski apontou que a pandemia de Covid-19 “é uma primeira amostra do que está por vir”. Para ela, enquanto comunidade global, “nós estamos dando um salto no abismo de catástrofe ecológica”. 

“As causas da pandemia não se separam das causas do colapso ecológico”, afirmou. Um dos perigos, para o ambiente e vida humana, seria a destruição da Amazônia, já que existe “um grande repositório de possíveis patógenos” na floresta, que afloram com o desmatamento.

Quem investe no negacionismo

Danowski também relembrou que o “negacionismo” não é algo novo, e lembrou a indústria de cigarro, que investiu em desvincular o tabaco do câncer.  “O grosso do negacionismo, do aquecimento global, é fruto de uma estratégia de décadas, pesadamente financiada pelas grandes empresas de combustíveis fósseis”, afirmou. A “criação artificial da dúvida”, é parte da estratégia negacionista gerada “por interesses financeiros ou políticos”. 

Krenak complementou que “a máquina negacionista sempre esteve ativa e produzindo narrativas” que fossem “convenientes”, como as que tentaram justificar “a escravidão, genocídio, e a instituição de um poder inquestionável dos estados nacionais”. 

Para o ambientalista, o desenrolar da história construiu um “protocolo ocultista e negacionista” onde “ser cínico não é um defeito, é uma habilidade”. 

Na visão de Krenak, são essas as características que permitem que líderes de países ou organizações possam se pronunciar com informações que “contrariam todas as evidências”.

Mesmo assim, a filósofa “não imaginava que esse fenômeno fosse tomar tão rapidamente a dimensão que tomou aqui no Brasil com a eleição de Bolsonaro”. 

Marina Amaral, codiretora da Agência Pública, mediou a mesa “Negacionismo científico e mudanças climáticas” que contou com a participação de Déborah Danowski e Ailton Krenak

Destruição da vida

Para Krenak, a situação atual demonstra que “a gente avança para a esfera do necrocapitalismo”, ou seja, a vida sendo destruída escalonadamente. 

“Nós temos um tempo para mudar o roteiro, se a gente não mudar o roteiro nós vamos nos transformar em um caos geral. Primeiro em graves crises, crises políticas, predação geral, guerras, e também acompanhada de eventos climáticos extremos. Gente que vive no litoral vai morrer afogado, e gente que vive em áreas mais secas vai morrer torrado”, advertiu. “Quando a ciência começou a achar prova disso, a ciência se posicionou”. 

Para o intelectual indígena, comunidades que dependem da natureza estão “se dissolvendo”. “As pessoas estão adoecendo e morrendo, perdendo as suas bases sociais, sua capacidade de organização”, disse Krenak..

Para Krenak, “o capitalismo não está mais interessado em inventar modelos de continuidade para a vida desse monte de gente”. 

A filósofa concordou: “O capitalismo é incompatível com a vida de maneira geral”. 

A chave está, para Danowski, em encarar a catástrofe climática como um fato. 

“A gente está à beira do colapso nas condições físicas e biológicas”, enfatizou. “Nesse mundo, no mundo real, não dá pra gente continuar falando em Pré-sal como a grande salvação nacional, em fábrica da Ford, em enaltecer a usina de Belo Monte sem reconhecer o que ela causou aos ribeirinhos, aos indígenas, à própria cidade de Altamira”.

Ou seja: a “ficha precisa cair”, também para os governos progressistas, concluiu Déborah. Ou “a gente vai estar fazendo aquela velha política de fazer viver e deixar morrer”, como colocou Krenak. 

A mediadora Marina Amaral resumiu: “Precisa de uma reeducação do setor progressista para incluir a questão do aquecimento global”.

Esta foi a última mesa em comemoração aos 10 anos da Agência Pública de Jornalismo Investigativo. No próximo dia 27, a programação se encerrará com o lançamento de um episódio especial do Podcast Pauta Pública, no qual as entrevistadas serão as fundadoras da agência, Natália Viana e Marina Amaral.

O texto da cobertura foi feito pela repórter Laura Scofield

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