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Reportagem

Ajuda financeira é usada como arma política

Investigação descobre que governo Etíope nega ajuda em distritos que fizeram oposição nas últimas eleições.

Reportagem
9 de novembro de 2011
10:58
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Por Angus Stickler e Caelainn Barr

Localizados no árido sudeste da Etiópia, os chamados distritos das Nações do Sul, Nacionalidades e Região Popular são uma área conhecida pela precariedade da colheita agrícola.

Ali se espalha a fome verde, ou “green famine”, termo usado para descrever a dramática situação em que a produção agrícola está verde mas as pessoas estão famintas. Em agosto deste ano, por exemplo, embora estivesse chovendo os campos verdejantes escondiam uma fome terrível.  As chuvas chegaram tarde demais e por isso as culturas ainda não estavam prontas para a colheita.

A região é fortemente dependente da ajuda externa, mas de acordo com várias pessoas ouvidas pelo Bureau  of Investigative Journalism, parceiro da Pública, esta ajuda tem sido precária. “A situação é desesperadora. Se a família não pode receber [ajuda] não temos nada. Tudo depende do que as crianças recebem. Não há nada que possamos fazer.  Estamos  abandonados. É uma questão de sorte se vivemos ou morremos”, diz uma uma viúva com sete filhos entrevistada em uma aldeia remota daquela região, que depende exclusivamente dos donativos da ajuda internacional.

Abandono calculado

Nesta pequena aldeia, todos afirmam que a falta de assistência básica se dá porque a região apoiou a oposição ao governo do primeiro-ministro Meles Zenawi durante as eleições de 2005. Zenawi está no poder desde 1991.

Na época dizia-se que os partidos de oposição tinham feito grandes progressos no que os observadores consideraram ser eleições legítimas, abertas e democráticas. Mas os resultados nunca se tornaram públicos.

Os partidos de oposição da região negaram os resultados em 31 distritos eleitorais. As cédulas foram refeitas, mas de novo os resultados foram mantidos em segredo – nunca foram anunciados.

Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que os eleitores continuam a pagar o preço de sua “deslealdade” à Frente Democrática Revolucionaria do Povo Etíope; a Frente se nega a ajudar a região.

Parte 1: Ajuda internacional financia brutalidades na Etiópia 

Parte 2: Reinado de terror no centro de detenção de Maikelawi

Parte 4: As vozes dos torturados

Parte 5: Mídia é amordaçada por leis antiterror

Leia mais: A resposta da embaixada da Etiópia

Segundo Beyene Pretros, professor de Ciências Naturais na Universidade de Adis Abeba e vice-presidente do grupo de oposição Fórum da Etiópia, os oposicionistas são impedidos de se registrar para receber ajuda alimentar, sementes ou fertilizantes. Alguns ouvem que devem procurar ajuda do partido que apoiaram.

É a mesma história contada por um grupo de idosos ouvidos pela reportagem na mesma aldeia remota do sul do país. Por medo de serem ouvidos – e de correrem risco de vida –eles pediram para nos encontrar em um matagal na entrada do vilarejo.

“Os fertilizantes e as boas sementes são dadas só para quem está a favor do governo. Os pobres nunca ganham nada. A gente se registra para receber ajuda, mas nos dizem que chegamos tarde. Foi a única razão que nos deram.”

Uma pessoa do grupo acrescentou: “Devido ao meu ponto de vista político, perdi minha fazenda. Meus filhos estão espalhados por aí. As roupas que eu uso são fornecidas por meus parentes que moram no exterior.  Levaram a minha terra, que foi dada para a autoridade local – o único  juiz.  Eu só estou sobrevivendo porque estou trabalhando na fazenda dos outros”.

Políticas de sanção do governo?

Tanto os EUA como a União Europeia têm feito relatórios criticando tanto as eleições de 2005 quanto as de 2010.  Entre as acusações estão casos de assédio, intimidação, coerção e sistemática negação de ajuda alimentar aos apoiadores da oposição.

Por exemplo, um relatório do Departamento de Estado EUA em 2006 afirma que “durante o ano todo há relatórios confiáveis da Comissão de Direitos Humanos da Etiópia e dos partidos de oposição que mostram que em certas zonas rurais as autoridades locais usaram  ​​ameaças de redistribuir as terras e suspender o fornecimento do auxílio alimentar e de fertilizantes para conseguir apoio para a coalizão governista”.

Esta denúnicia é sustentada por outras entidades, como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch.

Mas, para o primeiro-ministro Meles Zenawi, estas acusações são “ultrajantes e estúpidas”; “Não há tal sistema, nunca haverá um sistema desse tipo”, afirma.

Doadores internacionais

“Temos tentado chamar a atenção dos doadores internacionais para o fato de que os suprimentos necessários, o fornecimento de ajuda alimentar e a implementação de medidas de segurança simplesmente não estão indo para os necessitados. Há uma grande diferenciação política entre aqueles que apóiam o governo e nós [da oposição]”, afirma o mesmo professor Pretros, da Universidade de Adis Abeba, afirmou.

Apesar das evidências de que o subsídio alimentar foi suspenso para os que se opõem ao governo, a ajuda internacional nunca foi suspendida ou negada, ou passou por escrutínio internacional.

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