Buscar
Reportagem

Estamos aqui e vamos ficar

Moradores da Vila Autódromo lutam para incluir despejos na pauta da Rio+20

Reportagem
22 de junho de 2012
12:00
Este artigo tem mais de 14 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Os jornais cariocas manchetavam o início do chamado “segmento de alto nível” da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, no dia 20 de junho. Mais de 100 chefes de Estado se reuniriam no Riocentro, na Barra da Tijuca. Na abertura do evento, a presidenta Dilma Rousseff chamou os chefes de Estado a assumir a responsabilidade de planejar o desenvolvimento sustentável com “os seres humanos no centro das preocupações”.

No mesmo momento, um grupo de manifestantes, saídos da comunidade de Vila Autódromo, a três quilômetros dali, aglomerava-se  diante da barreira militar, montada na Avenida Salvador Allende, acesso para a Vila Autódromo e para o Riocentro, fazendo barulho e tentando levar os problemas da comunidade que resiste há 20 anos a tentativas de remoções forçadas, para dentro da conferência ambiental, com o apoio do Movimento Nacional de Luta Pela Moradia (MNLM), da Via Campesina, do Comitê Popular Rio Copa e Olimpíadas e da Central de Movimentos Populares.

A geografia do evento mostrou desde o início a distância entre movimentos populares e chefes de Estado. Paralelamente ao encontro, eles se reuniram dias antes na Cúpula dos Povos, evento paralelo à Rio+20 no Aterro do Flamengo.

Vila Autódromo conta sua história

A comunidade surgiu como vila de pescadores, na Baixada do Jacarepaguá, nos 1960 e cresceu durante a construção do autódromo do Rio, em 1975, com a mudança de alguns dos operários que trabalhavam na obra para vila, espremida em uma pequena área entre o Autódromo e a Lagoa de Jacarepaguá.

Há vinte anos seus moradores convivem com ameaças de remoção. Em 1992, coincidentemente o ano em que o Rio sediava a Eco-92, evento que deu origem à Rio+20, a prefeitura do Rio de Janeiro pediu pela primeira vez a retirada da comunidade. “A justificativa exata que a prefeitura do Rio usou foi de que a comunidade causava dano ao ambiente natural, urbano, estético e visual” afirma Gisele Tanaka, do Instituto de Pesquisa em Urbanismo (IPUR) da UFRJ. Ela explica: “De fato uma pequena área da comunidade está em área de preservação ambiental, mas seria possível urbanizar retirando apenas as casas que estão nessa área. Eles usaram esses termos para conseguir a remoção completa”.diz.

Em 1996, voltou-se a falar em remoção, desta vez com a justificativa de que a comunidade estava em área de risco. Em 2005, quando o Rio se preparava para abrigar os Jogos Pan-Americanos, e a área passou a ser cobiçada por empreiteiras para projetos imobiliários, nova ameaça. Mas a comunidade resistiu, vencendo todas as ameaças de despejo.

Ainda nem havia o projeto do Parque Olímpico para os jogos de 2016, quando novamente a Prefeitura anunciou que teria de remover a comunidade, dessa vez para a construção de um Centro de Mídia no local. Em 2010, o argumento foi de que a comunidade poderia ameaçar a segurança dos atletas pela proximidade da vila olímpica, apesar de alguns edíficios de alto luxo também estarem próximos dali.

O anúncio oficial veio em outubro de 2011, no edital de licitação do Parque Olímpico. A comunidade foi à Justiça, com apoio da Defensoria Pública, e conseguiu uma decisão obrigando a publicar no edital qual seria o destino das 4000 pessoas que residem no local. “Então eles refizeram o documento e desenharam uma alça viária que passava pela comunidade. Este é o último argumento. Essa alça ligaria as vias de BRT (Bus Rapid Transit) Transcarioca e Transolímpica [próximas à Vila Autódromo]”, explica Gisele, que destaca o fato de o projeto apresentado para licenciamento ambiental da Transcarioca, no mesmo ano, não previa essa alça.

“Como uma obra viária de grande porte, no município inteiro, que já está em obras tem seu trajeto mudado depois da licença ambiental?”, questiona a urbanista.

Os moradores da Vila Autódromo decidiram então apresentar um projeto para a urbanização da comunidade, como alternativa à obra prevista. Desenvolvido em conjunto com a UFRJ e a Universidade Federal Fluminense (UFF), em fase de finalização, o objetivo do projeto é melhorar as condições de moradia do local. E deve ser lançado nas próximas semanas. “Queremos pensar com eles e decidir juntos. Inclusive é muito mais barato urbanizar do que remover”, afirma Gisele Tanaka. Era isso que os manifestantes tentavam dizer aos chefes de estado, à sociedade e à imprensa naquela quarta-feira.

 

O blog Copa Pública é uma experiência de jornalismo cidadão que mostra como a população brasileira tem sido afetada pelos preparativos para a Copa de 2014 – e como está se organizando para não ficar de fora.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 233 A fábrica de radicais do Discord – com João Victor Ferreira

Cientista político explica como os discursos extremos rompem as fronteiras virtuais e incentivam uma sociedade violenta

0:00

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Na urna com o ex: Rivais históricos se unem por espaço e poder nas eleições 2026

|

Antigos adversários superam críticas, ideologias e até acusações de crimes para disputar voto do eleitor em outubro

Espionado por Mendonça em 2020, professor vê “natureza golpista” em atuação de ministro

|

Luiz Eduardo Soares conta como foi monitorado por ordem do atual ministro do STF e critica instrumentalização da Corte

Deputado federal Mário Frias durante sessão na Câmara dos Deputados

Como Mário Frias chegou ao centro da máquina de propaganda da família Bolsonaro

|

Ex-ator foi colocado na política por Jair para juntar cultura e armas em estratégia olavista de guerra ideológica

Foto mostra modelo atual de urna eletrônica usada nas eleições brasileiras

Ministério Público Eleitoral impugna 15 candidatos em SP ligados a crimes, dois ao PCC

|

Órgão contesta 557 registros e utiliza nova regra do TSE para afastar crime organizado da política

Flávio Bolsonaro (PL) participou no sábado 29 de agosto de um ato de campanha à Presidência em Angra dos Reis (RJ) ao lado do candidato a deputado federal, o empresário Renato Araújo, também do PL

O amigo do Flávio Bolsonaro em Angra dos Reis

|

Quem é Renato Araújo, candidato a deputado que cresce no círculo dos Bolsonaro assim como os problemas ao seu redor

Congresso travou regulação de câmeras corporais enquanto letalidade policial batia recorde

|

Câmeras corporais de policiais se tornaram campo de disputa política que vai muito além da responsabilização por abusos

Prevenção a violências contra crianças passa batida em propostas de presidenciáveis

|

Maior parte dos programas ignora prevenção a mortes ou violência sexual de crianças e sequer menciona primeira infância

Lula e Flávio, mais cautelosos que o usual, deixam público dar recados no 7 de setembro

|

Em SP, ato da direita levou menos gente às ruas que no ano passado; em BSB, Lula seguiu protocolo “seguro”