Agência de Jornalismo Investigativo

Na sexta entrevista da série com atletas e ex-atletas, o maior ídolo flamenguista se mostra entusiasmado com a Copa, mas critica a estrutura e os dirigentes do futebol brasileiro

2 de outubro de 2012

Como o jogador de ampla visão que foi, um verdadeiro camisa 10, Zico consegue enxergar, fora de campo, os problemas que a Copa do Mundo pode trazer para o país, assim como algumas das mazelas estruturais do futebol brasileiro. Mesmo entusiasmado com o evento, ele critica as novas arenas que podem virar elefantes brancos, a gestão de Ricardo Teixeira, a falta de estrutura de treinamento dos clubes e o amadorismo dos dirigentes. “Os dirigentes não cuidam dos clubes como cuidam de suas empresas”, afirma o ídolo flamenguista. E na semana em que a Secretaria Estadual de Educação do Rio anunciou que planeja criar quatro escolas bilíngues, pensando nos megaeventos, Zico aponta a falta de preparo para falar com os estrangeiros como uma das suas maiores preocupações.

Essa conclusão vem após mais de 40 anos de vida no futebol como técnico, treinador e dirigente. Zico liderou a era de ouro do Flamengo entre as décadas de 1970 e 1980, colocando o clube rubro-negro em outro patamar. Com Zico, o Fla faturou seus principais títulos: a Taça Libertadores da América e o título do Campeonato Mundial em 1981, além de quatro Campeonatos Brasileiros (1980, 1982, 1983 e 1987). O time era lendário, com craques como Adílio, Tita, Andrade, Nunes e outros, e está até hoje no panteão do futebol brasileiro.

Zico teve uma passagem bem-sucedida pela seleção, apesar de ter ficado marcado pelo pênalti perdido na Copa de 1986. Como treinador, passou por clubes na Ásia e na Europa. Hoje, dirige a seleção iraquiana. “A questão de planejamento por lá é muito amadora”, diz a respeito do time do país conflagrado. O Iraque atualmente manda seus jogos em Doha, no Qatar e não conta com um campeonato estruturado por conta dos conflitos armados no país.

Às vésperas de enfrentar o Brasil em um amistoso em outubro, Zico defende o trabalho de Mano Menezes: “Ele pegou uma seleção que não teve nenhuma base”.

Com vocês, senhora e senhores, o Galinho de Quintino.

Vamos começar do começo. Qual é a sua opinião a respeito de o Brasil receber a Copa do Mundo?

A minha opinião é que demorou muito para isso acontecer, por tudo aquilo que o Brasil já fez no futebol. Nós merecíamos sediar de novo porque conseguimos muitas vitórias depois da Copa de 1950. E foi uma Copa pós-guerra, alguns países nem vieram. Acho que dali para frente, a Copa do Mundo deu um impulso grande no futebol brasileiro e o Brasil cresceu de maneira espetacular, conseguiu resultados nas seleções e nos clubes e se tornou uma grande potência.

Qual o legado que você espera da Copa de 2014?

Espero que após o evento se ofereçam melhores condições para a população que gosta de futebol. Primeiramente, lógico, melhor acomodação nos estádios, uma remodelação. Porque os estádios vão continuar, o futebol brasileiro vai continuar. Também espero melhor condição nos aeroportos e de deslocamento. Acho que todos esperam uma infraestrutura melhor nas cidades-sedes e também para os estádios que vão receber os jogos. A única coisa que eu lamento é que algumas sedes não são locais onde o futebol predomina ou que têm grandes clubes, e acho que os estádios precisam ser bem utilizados depois. Brasília, Cuiabá, Manaus, por exemplo, não são centros que têm grandes clubes nos principais campeonatos, vão ter instalações de primeira e poderiam estar participando mais do futebol brasileiro. Por exemplo, na Bahia sempre tem um bom público; no Ceará sempre tem bom público; São Paulo, Rio e Minas, então, nem se fala; o Paraná também cresceu muito. Acho que, poxa, Brasília, que é no meio, a CBF deveria utilizar mais. Você poderia marcar alguns jogos do Campeonato Brasileiro, para que cada clube jogasse uma vez lá. Em Cuiabá que se fizesse uma força, desse um apoio para os clubes de lá que têm torcida como o Mixto, para que eles pudessem se reerguer com essa motivação da Copa do Mundo.

Você vê então o risco destes estádios se tornarem elefantes brancos?

Claro, lógico. O risco é que eles virem locais para shows, para outras coisas e não sejam utilizados para o futebol.

Qual é o principal problema que você enxerga no futebol brasileiro?

Acho que os centros de treinamento dos clubes. Poderiam dar uma atenção maior aos centros focados na formação de jogadores, pois quem ganha com isso é a própria Seleção Brasileira. Quanto mais jogadores se formam, maior a possibilidade de se ter grandes nomes.

E a gestão dos clubes, como você avalia de uma maneira geral? Ainda há muito amadorismo? 

Total. O que a gente nota é que os dirigentes não dirigem os clubes como dirigem suas empresas. Botam pessoas lá às vezes comprometidas com outras coisas ou não qualificadas, e aí a coisa não funciona. Eu creio que os clubes hoje deveriam ser mais profissionais. A diferença que existe em relação aos clubes de fora é que lá as pessoas colocadas nos cargos de chefia sentem no bolso caso o clube tenha prejuízo, têm responsabilidade. Aqui os presidentes têm outros afazeres, estão comprometidos com outras coisas, não são profissionais. Não dão aos clubes a atenção necessária. Eu acho que o presidente de um clube deveria ou ser o dono, ou ser remunerado para gerenciar o clube porque ele vai dar plantão, vai ficar o dia inteiro lá e não chegar às sete horas da noite porque é deputado, vereador, farmacêutico, bancário…

Você vem acompanhando os preparativos para a Copa? Na sua opinião, estamos nos preparando bem?

A gente acompanha, procura ser o mais informado possível. Eu não vejo muitas mudanças não. Uma questão que me preocupa muito é a questão da receptividade com pessoas que falem outras línguas. Nós tivemos agora uma resposta positiva de voluntários, o número passou todos os números das últimas Copas do Mundo. Agora, acho que os aeroportos preocupam, os centros de treinamento também, eu não vi melhoria. O que me preocupa também é ter gente falando alemão, holandês, essa receptividade de um modo geral. Acho que as pessoas não vão vir para cá só para ver a Copa do Mundo. Quem vier ao Brasil nessa época vai querer conhecer a Amazônia, Foz do Iguaçu, Brasília, o Pantanal… Você tem que dar condições para que esse turismo aconteça.

E como você avalia a formação de atletas no Brasil atualmente?

Hoje os clubes estão muito mais preocupados em ganhar títulos nas divisões de base do que em formar jogadores. Então não vejo preocupação com as categorias de base. Isso se mostra até mesmo nos fracos resultados da própria Seleção Brasileira de Base, que agora estão começando a ser superados. Isso é fruto da falta de renovação e da descoberta de talentos.

Você treinou o Japão de 2002 a 2006, no período após a Copa de 2002 no Japão e na Coreia. No período que você passou lá, você viu algum legado visível da Copa do Mundo para a população japonesa e para o futebol japonês?

O legado foi uma motivação para desenvolver o futebol cada vez mais, mas o futebol já vinha crescendo. O que aconteceu no Japão é que ele estava querendo sediar a Copa sozinho. Quando foi definido que a Coreia também participaria, houve um baque muito grande no Japão. Então o Japão não entrou de cabeça na Copa, nem a população. Em dia de jogo, os estádios lotavam. Mas você chegava nos aeroportos e ninguém sabia se tinha Copa do Mundo, não tinha nada. O país não se modificou por causa da Copa, continua a mesma coisa. Na Coreia houve mais motivação. O Japão entregou os pontos e isso se refletiu em um legado menor.

Recentemente, Ricardo Teixeira deixou o comando da CBF após 23 anos no cargo. Qual o balanço que você faz dessa gestão e o que precisa ser mudado na gestão de José Maria Marin?

O Brasil teve muitas vitórias, ganhando mundiais, disputando finais… O resultado da equipe profissional também foi bom, ela ganhou várias competições. Ficou faltando mesmo só a medalha olímpica, porque o resto ganhou tudo. Agora, mesmo com isso, acho que ele poderia ter feito mais em benefício dos atletas, em benefício das entidades, a organização do Campeonato Brasileiro, que até foi boa, mas, por exemplo, ainda tem essa questão do campeonato não parar quando tem jogo da Seleção. O Marin agora deve dar esse suporte aos clubes, melhorar a estrutura, os centros de treinamento… Um centro de treinamento para a Seleção poderia ser feito, pois aquele de Teresópolis não vingou. Poderia ser deixado para as categorias de base. Outra coisa que falta é se fazer um projeto olímpico para chegar à medalha de ouro em vez de deixar para formar a seleção em cima da hora…

Dentro de campo, como você está avaliando a Seleção Brasileira?

O Mano pegou uma seleção que não teve nenhuma base. Nesses últimos anos foi o único treinador que não pegou base nenhuma da última Copa do Mundo. Isso acabou fazendo com que ele tivesse que renovar toda uma seleção. Os jogadores são jovens, têm talento, mas leva tempo para você acostumar esses jogadores à pressão da Seleção Brasileira… Então acho que veio a Olimpíada, que ajudou um pouco porque muita gente tinha idade pré-olímpica na Seleção. Daqui para frente é colocar esse time o maior número de vezes para jogar, definir a equipe, porque acho que ele ainda tem bastante tempo para formar a equipe.

Mudando um pouco de assunto, como foi para você assumir a seleção do Iraque nesse período em que o país ainda vive os conflitos que foram desencadeados pela guerra?

Não me preocupou muito essa questão da guerra não. Eu conheço o futebol do Iraque, que é uma das melhores seleções da Ásia, sabia que os jogos não estavam sendo lá. Eu achei que, apesar de tudo que está acontecendo, de todos os problemas, houvesse uma estruturação melhor da federação, mas infelizmente isso não aconteceu. A questão de planejamento, programação por lá é uma coisa muito amadora. A gente não tem lugar para treinar, nem mesmo lá no Iraque a gente tem estrutura de programação, de adversários de nível, ninguém quer jogar contra. Agora nós teremos uma boa a oportunidade, vamos enfrentar o Brasil. Mas desde que eu estou lá, nunca joguei um amistoso contra uma seleção forte assim. Não enfrentei seleção sul-americana forte nenhuma, europeia nenhuma, só joguei contra a Botswana, Serra Leoa, times da Coreia, Líbano, então isso aí para nós é muito ruim. Enquanto os outros jogam contra times fortes, a gente está aí jogando só contra times que não têm tanta expressão.

E vai dar para aprontar alguma coisa contra o Brasil?

Não, não. Eu quero é não passar vexame, quero preparar o time para o nosso jogo mais importante que é contra a Austrália.

Você acha que falta mais participação de atletas e ex-atletas nos cargos diretivos do futebol?

Eu acho que eles poderiam ser mais aproveitados. Mas aí eles teriam que ser bem preparados. Não adianta você colocar nesses cargos só porque é ex-atleta, né?

O blog Copa Pública é uma experiência de jornalismo cidadão que mostra como a população brasileira tem sido afetada pelos preparativos para a Copa de 2014 – e como está se organizando para não ficar de fora.

 

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