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Copa das Confederações? Não, das remoções!

No próximo sábado, o Comitê Popular da Copa do Rio promove campeonato de futebol entre membros de comunidades já atingidas ou ameaçadas de remoção

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12 de junho de 2013
09:00
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Às nove horas da manhã do próximo sábado, dia 15 de junho, um evento promovido pelo Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas do Rio de Janeiro pretende se opor ao entusiasmo que circunda a chegada da Copa das Confederações.

Sete horas antes de o Brasil estrear contra o Japão na competição da FIFA, que será uma “prévia” para a Copa do Mundo de 2014, outra bola vai rolar no Quilombo da Gamboa (Rua da Gamboa, 345) na zona oeste da capital fluminense. Trata-se da “Copa Popular – Contra as Remoções”, um torneio de futebol disputado entre comunidades que sofrem com as remoções no Rio – desde comunidades já removidas até comunidades que, em algum momento da preparação para os megaeventos, sofreram ameaças de remoção.

“Escolhemos o dia 15 porque é o dia da estreia da Copa das Confederações e estamos em busca de manifestações mais criativas”, diz a jornalista Paula Paiva Paulo, integrante do Comitê Popular. “Atos a gente já faz bastante, eles são importantes, mas queríamos algo um pouco mais criativo”. O Comitê também vai distribuir materiais com informações sobre as comunidades a quem comparecer ao evento.

No dia da Copa Popular, também será lançado o mascote popular da Copa, que será o Saci. Ao contrário do mascote oficial da Copa – que só pode ser estampado por comerciantes autorizados pela FIFA – o Saci, que será disponibilizado em copyleft para que os comerciantes, principalmente os populares, possam usar à vontade.

Comunidades participantes

Até agora, já há dez equipes confirmadas para a Copa Popular. Serão duas equipes masculinas do Morro da Providência, comunidade que fica na região central do Rio; uma da Muzema, comunidade da zona oeste da cidade; um da Estradinha, situada em Botafogo; um time da Indiana, comunidade que fica no bairro da Tijuca, e outro da Vila Autódromo, que fica em Jacarepaguá. Haverá também quatro equipes femininas: além de Providência e Indiana, haverá boleiras do Morro Santa Marta e do Salgueiro.

Roberto Marinho, de 37 anos, morador do Morro da Providência, foi o responsável por amealhar participantes da sua comunidade. “Foi difícil, porque o pessoal que não está envolvido nas remoções fica com medo de participar de qualquer coisa”, conta. Apesar disso, reuniu dois times de moradores diretamente envolvidos nas remoções –e aposta na experiência das equipes para conquistar o caneco do torneio. “Esse pessoal já joga junto faz um tempo, alguns deles jogaram a Copa das UPPs e quando eu contei o espírito da coisa, eles gostaram. Eles vão poder jogar futebol e mostrar a situação em que estão vivendo”.

Na Muzema, o presidente da Associação de Moradores Leandro Corrêa, de 32 anos, diz que o pessoal “está animado”: “Eu achei legal a ideia porque é um modo de unir o útil ao agradável, ou melhor, ao desagradável porque se trata de uma remoção, né”, brinca. Para Maria do Socorro, da Indiana, o teor político está também na reunião. “Vai ser bom porque várias comunidades ameaçadas vão poder conversar e se unir. A luta tem que ser de todos que estão nessa situação”, afirma.

Muita história pra contar

Confira abaixo um pequeno perfil de algumas dessas comunidades, e saiba como elas foram marcadas pela avalanche das remoções. Segundo o dossiê “Megaeventos e Violações de Direitos Humanos no Rio de Janeiro”, só na capital carioca cerca de 11 mil pessoas podem ser removidos por conta de intervenções urbanas ligadas à Copa das Confederações, à Copa do Mundo e às Olimpíadas de 2016.

Morro da Providência – Localizado na região portuária do Rio de Janeiro, o local é um pedaço da história do Brasil. Considerada a primeira favela da cidade, o morro foi ocupado por remanescentes da Guerra de Canudos nos últimos anos do século 19. O local, antes chamado de Morro da Favela, teria dado origem, inclusive, ao nome “favela”.

O drama da comunidade começou, ironicamente, com o Programa Morar Carioca, criado em julho de 2010 pela prefeitura, e que faz parte do planejamento para a Copa. Estão previstas a abertura de vias, a implantação de um teleférico, um plano inclinado e a espaços para visitação turística. Mas, segundo os moradores, não houve informações claras sobre os impactos e nem envolvimento da comunidade na discussão do projeto. A Prefeitura do Rio diz que 380 famílias terão que ser removidas por estarem em áreas de risco e outras 291 famílias sairão para dar lugar ao teleférico e ao plano inclinado. A Defensoria Pública do Rio de Janeiro conseguiu a paralisação das obras em outubro do ano passado, pela ausência do EIA/RIMA e a falta de informação dos moradores. A Prefeitura conseguiu depois continuar as obras, mas as remoções estão suspensas.

Algumas casas, porém, já foram marcadas com spray com a sigla da SMH para serem removidas. Os moradores rebatizaram a sigla para “Sai do Morro Hoje”.

Muzema – Situada próxima ao Itanhangá, Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro, a comunidade já tem mais de 30 anos e está ameaçada de remoção por conta das obras de dragagem de um canal próximo. Porém o córrego já passou outras vezes por canalização e, nas etapas anteriores, a remoção não foi necessária, segundo os moradores.

Indiana – No mesmo lugar desde 1957, a comunidade Indiana, situada na Tijuca, foi símbolo da postura dúbia da Prefeitura do Rio. Em 16 de janeiro de 2012, os moradores receberam a visita do então secretário de Habitação, Jorge Bittar, que prometeu obras de melhoria para a região; duas semanas depois, representantes da prefeitura voltaram à comunidade para dizer aos moradores que deveriam aceitar a oferta de apartamento do programa Minha Casa Minha Vida na região de Triagem, longe da Indiana, ou o “trator passaria por cima por ser área de risco”, segundo conta a membro da comissão de moradores da Indiana, Maria do Socorro.

Junto com a Defensoria Pública, em outubro, os moradores entraram com uma ação contra a Prefeitura pedindo a apresentação de um laudo técnico que comprovasse a situação de risco. Em 10 de dezembro de 2012, foi expedida uma decisão favorável a comunidade cobrando a paralisação imediata das remoções (já em curso) e a retirada do entulho. Até agora, cerca de 110 famílias já foram removidas, algumas delas contempladas com unidades habitacionais do Minha Casa Minha Vida em Triagem. Outras 510 querem ficar. Em 9 de maio deste ano, o Ministério Público apresentou um laudo da própria secretaria de habitação do Rio afirmando que a região era de “baixo risco” e não seria necessária a remoção.

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