Buscar
Agência de jornalismo investigativo
Da Redação

Organizações sem fins lucrativos: aprendizados

Nossas reflexões sobre o relatório "Encontrando um apoio – Como novos empreendimentos sem fins lucrativos buscam sustentabilidade", da fundação americana Knight Foundation.

Da Redação
30 de abril de 2014
10:00
Este artigo tem mais de 12 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
finding-a-foothold

O jornalismo investigativo sem fins de lucro não é nenhuma novidade – pelo menos, em terras americanas. A primeira organização do tipo, o Center for Investigative Reporting (CIR), foi fundada em 1977 por um grupo de repórteres investigativos na Califórnia. O Investigative News Network, uma rede que congrega organizações do tipo, tem mais de cem membros em diversos estados do país. Mas o que se pode aprender com todas essas experiências?

É o que pretende descobrir o estudo “Finding a Foothold – How nonprofit new ventures seek sustainability” (Encontrando um apoio – Como novos empreendimentos sem fins lucrativos buscam sustentabilidade), da fundação americana Knight Foundation, publicado no final do ano passado. O estudo foi conduzido por meio de entrevistas e análises de 18 organizações sem fins lucrativos nos EUA, como por exemplo, The Voice of San Diego, um site de notícias locais, o centro de jornalismo investigativo ProPublica e o próprio CIR.

A notícia é boa: o estudo verificou que as organizações ganharam mais peso e visibilidade nos últimos anos adotaram maneiras criativas de aumentar o alcance através de parcerias, e progrediram em termos de diversificação de fundos – ao contrário do que prediziam alguns – substituindo as verbas iniciais de fundações por um aumento de receita própria. O orçamento de todas juntas chegou a US$33,7 milhões em 2012.

Essa receita vem primordialmente de patrocínios corporativos, eventos e anúncios (ou seja: por lá, essas organizações conseguiram convencer empresas de que vale a pena apoiar o jornalismo investigativo e de ponta). E o total de doações individuais cresceu 30% em dois anos, de US$ 14,7 milhões em 2010 para US$ 19,1 milhões em 2012; o número de doadores dobrou de 4 mil para 8 mil nos últimos 3 anos.

Os pesquisadores da Knight Foundation chegaram a alguns “aprendizados”, listados de maneira prática e simples neste excelente relatório. Vale a pena a leitura detalhada aqui, mas veja um resumo dos “oito passos para o sucesso” adotados por essas organizações:

  1. Duvide dos seus pressupostos, sempre. Essas ONGs sempre desenvolvem maneiras de conseguir insights sobre quem é a sua audiência e sobre o que importa para ela. Esse feedback é usado para mostrar aos financiadores, elaborar programas de “assinantes” ou “associados” e adaptar a experiência de uso dos sites.

  2. Busque um bom casamento entre “nicho” e demanda. Elas observam o mercado em que operam e identificam um equilíbrio entre uma cobertura regionalizada/especializada, com uma comunidade que gira ao seu redor, mas que nunca chega às massas. A resposta para “quem é nossa audiência?” nunca é “todo mundo”.

  3. Ofereça serviços e não apenas conteúdo. Essas ONGs oferecem serviços, não apenas reportagens. Elas reconhecem que o “modelo de negócios” não se limita a publicar e conseguir anunciantes, pensando sempre além dos seus sites, produzindo eventos, debates e parcerias, além de conteúdos em diversos formatos.

  4. Não invista só em jornalismo. Elas investem uma parcela significativa do seu orçamento em prioridades que vão além do editorial, como marketing, desenvolvimento organizacional e fundraising, e veem essas atividades como centrais à sua operação, e não algo a ser feito fora do horário de trabalho.

  5. Meça o que importa. Elas acompanham as métricas cumulativas tradicionais, como Visitantes Únicos do site, mas dão maior enfoque em indicadores que oferecem feedback real sobre engajamento dos usuários. Elas combinam esses dados com relatos narrativos de qualidade sobre como as reportagens afetam o público.

  6. Lute para diversificar o financiamento. Elas buscam agressivamente maneiras de reduzir financiamento de fundações – quase sempre o passo inicial – e levantar fundos através de patrocínios, eventos ou doações individuais. Essas fontes de receita são valorizadas porque garantem maior independência editorial e mais flexibilidade estratégica.

  7. Aumente a visibilidade da marca construindo parcerias. Elas oferecem seu conteúdo para outros para alcançar audiências-chave e garantir os seguintes benefícios: Oportunidades de propagandear a sua marca, feedback sobre a audiência alcançada pelo seu conteúdo e verba obtida com a republicação de conteúdos

  8. Vá até onde está a sua audiência. Elas entendem os hábitos constantemente em mudança de como os indivíduos consomem informação, não olhando apenas para a home page do seu site, mas construindo um design “responsivo”; e priorizam as mídias sociais.

Minha parte favorita é a lista dos maiores desafios para quem está tocando uma iniciativa jornalística, como resistir a impulso de recriar um jornal tradicional ou diário, numa versão online; e superar o dilema de que os jornalistas apaixonados que fundaram a iniciativa acabam se dedicando a áreas administrativas, necessárias para manter a organização. Para se pensar.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Quilombolas lutam por território ancestral contra imobiliária no interior de São Paulo

|

Descendentes de escravizados disputam título de terra contra empresa e denunciam ação da polícia

Lula proíbe bets e cita relato de mãe que perdeu o filho para apostas ao assinar Medida

|

Vânia Borges, que perdeu o filho para as apostas online, esteve com o presidente após matéria da Pública com seu relato

Análise da Abin aponta extrema-direita no Brasil como “facilitadora” de ofensiva de Trump

|

Desde novembro de 2025 análises sobre risco “crítico” de interferência vem sendo produzidos pela agência de inteligência

Garimpo na Terra Indígena Baú em 2026.

Indígenas Kayapó se colocam em risco para bloquear garimpo ilegal na Terra Indígena Baú

|

Dois meses após operação da PF, número de invasores quadruplicou, dizem órgãos; há suspeita de participação de facções

Fazendas de IA inflam pauta da extrema direita com 255 perfis e mais de mil posts

|

Rede tem 58 milhões de visualizações e amplia alcance de posts pró-família Bolsonaro e ataques ao STF

Colagem com as fotos do ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias e do diretor geral da PF, Andrei Rodrigues

Antes de mensagens vazadas, PF pediu sigilosamente para AGU conter Mendonça

|

Documentos indicam que o diretor-geral da PF acionou AGU contra uma ordem do então relator do caso Master

Presidente dos Estados Unidos Donald Trump durante abertura da assembleia geral da ONU em Nova York em 2025

Escudo das Américas: iniciativa de Trump e de 14 países inclui cartel que não existe

|

O Cartel de Los Soles foi inventado pelo Departamento de Justiça de Trump, que depois voltou atrás

Empresa ligada ao Muralha Paulista é apontada como risco para dados sensíveis em Goiás

|

Órgãos de controle de São Paulo e Goiás questionaram contratos da Paladium para videomonitoramento nas ruas

Lula x Trump: presidentes defendem posições opostas em discursos na ONU

|

Líderes discordam sobre diplomacia, regulação da IA, soberania e guerras