A doutora Lígia Bahia defende a criação emergencial de um pool único de recursos médicos para cuidado intensivo enquanto durar a crise sanitária do coronavírus; no RJ, só 35% dos leitos de UTI são públicos

A doutora Lígia Bahia defende a criação emergencial de um pool único de recursos médicos para cuidado intensivo enquanto durar a crise sanitária do coronavírus; no RJ, só 35% dos leitos de UTI são públicos

21 de maio de 2020
12:17
Este texto foi publicado há mais de 1 ano.
Especial: Coronavírus
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Em vez de filas separadas para o atendimento médico intensivo voltado à Covid-19 – uma para quem tem plano de saúde e outra destinada aos usuários do SUS –, um pool único de recursos médicos (leitos, respiradores, medicamentos, profissionais etc.) distribuídos para os pacientes de acordo com a gravidade de cada caso. Essa é a proposta da chamada “fila única”, uma prática já adotada em caráter emergencial durante a pandemia em países como França, Itália, Espanha, Irlanda e Austrália, que unificaram a gestão de seus recursos. A ideia é destinar os melhores recursos médicos aos casos mais graves, além de concentrar esforços de maneira temporária e emergencial nas regiões onde há maior concentração de casos.

No Brasil, diversas entidades médicas já defendem a prática diante do avanço do número de casos e de mortes causados pela nova doença. Entre essas organizações estão o Grupo de Estudos sobre Planos de Saúde (GEPS), vinculado ao Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), e o Grupo de Pesquisa e Documentação sobre Empresariamento na Saúde (GPDES), ligado ao Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Os grupos de pesquisa das duas instituições lançaram em abril uma nota técnica em que defendem a adoção da prática para o Brasil. “É nítida a concentração de recursos assistenciais nas estruturas privadas e nas regiões, estados, cidades e até em bairros nos quais habitam ou circulam segmentos populacionais vinculados aos extratos superiores de renda”, diz a nota. “Se mantido inalterado neste momento de emergência sanitária, esse padrão de desigualdade caracterizado pela maior oferta de recursos hospitalares para a minoria da população será um grande obstáculo à redução das taxas de letalidade durante a pandemia”, afirma o documento.

Em entrevista à Agência Pública, a médica, doutora pela Fiocruz e coordenadora do GPDES, Lígia Bahia reforça a necessidade da adoção da fila única. “A gente tem poucos recursos e eles estão fragmentados. Uma fila única permite que a gente faça um uso racional dos recursos e que a gente aloque os recursos de acordo com a gravidade do problema”, diz.

Lígia Bahia é médica e coordena o Grupo de Pesquisa e Documentação sobre Empresariamento na Saúde

Qual seria a importância da adoção de uma fila única para o atendimento intensivo aos pacientes de Covid-19?

A gente amplia a escala dos recursos existentes. Se a gente tiver um pool de recursos únicos, a gente consegue usar esses recursos de maneira racional. Porque na realidade a gente já tem poucos recursos e esses recursos são fragmentados: uma parte atende um plano tipo esse, outra parte atende o plano tipo aquele, uma parte é leito municipal, outra parte é leito estadual, outra parte é leito federal. Uma fila única permite que a gente faça um uso racional dos recursos e que a gente aloque os recursos de acordo com a gravidade do problema. É difícil entender essa coisa da fila única porque nós, brasileiros, somos contra fila. A fila é uma teoria, não quer dizer ficar na fila. Ela quer dizer como a gente permite que pessoas que tenham determinadas condições sejam bem atendidas, que a gente consiga alocar o recurso mais necessário pra quem tem o pior problema de saúde.

Como se faria isso na prática?

Por exemplo, pessoas com plano de saúde continuariam tendo acesso aos recursos privados, mas talvez um caso moderado de Covid não fosse internado no Sírio Libanês, mas fosse para o Hospital São Luiz. E você deixaria o leito do Sírio para internar um paciente negro e pobre que venha do SUS e esteja numa situação mais grave. O caso moderado não iria para o CTI do Sírio. Entende? Tem uma entrevista de um cientista, que é muito legal. Ele foi internado com Covid na Inglaterra e ele diz que estava internado com uma pessoa desempregada, com um imigrante latino-americano… Ele ficou bem grave e tinha esses colegas. Isso é fila única, né? Aqui isso é uma coisa impossível de se pensar.

Diversas entidades defendem a chamada “fila única” nos atendimentos aos pacientes de Covid-19. O projeto está em análise na Câmara dos Deputados

Curioso você mencionar isso neste momento, porque já é possível observar que a mortalidade do Covid, sobretudo nas regiões metropolitanas, vem se concentrando em regiões mais pobres. Você acha que essa concentração se deve a essa questão?

Por enquanto não dá para a gente saber. Mas certamente depois, quando tivermos estudos que a gente consiga padronizar, isso pode aparecer. Sobre Nova York, por exemplo, tem vários trabalhos publicados que vem mostrando que os latino-americanos e os negros estão morrendo mais do que os brancos em função dessas barreiras que o sistema impõe nos Estados Unidos, que são semelhantes às daqui. Isso já está acontecendo.

Mantendo essas filas separadas como está agora, qual a tendência?

Os pobres podem morrer mais. Claro que vão morrer mais pobres do que ricos, porque há mais pobres do que ricos. Mas, padronizando, haverá mortes excessivas entre os mais pobres. Isso já está acontecendo. Aqui no Rio, as pessoas estão esperando nas UPAs [Unidades de Pronto Atendimento] e estão morrendo.

Na nota técnica, os grupos de pesquisa da UFRJ e da USP demonstram certo pessimismo com a adoção da fila única.

Sim, nós temos um pessimismo. Tanto que não está acontecendo, né? Se tivesse que acontecer, já teria acontecido. Não está acontecendo porque nós temos um setor de saúde privado no Brasil muito poderoso, tanto em termos econômicos quanto em termos políticos. E esse setor usa suas estratégias pra não deixar isso acontecer. Fila única significa pobre ter acesso ao melhor, né? E isso não acontece no Brasil. O que eles estão fazendo? Eles preferiram doar quantias irrisórias para que fossem feitos hospitais de campanha e outras ações pontuais aqui e acolá, mas não fila única. Isso é um problema. Outro problema agora é que eles estão dizendo que estão lotados, então não tem como ter fila única porque eles já estão lotados. E outra questão é que eles estão dizendo que está errado porque é propriedade privada. Veja que são muitos os argumentos e que eles mudam de acordo com a conveniência, e a gente não tem um ministro, secretários de Saúde e autoridades sanitárias que peitem isso e digam que vai ser assim. Não estamos propondo expropriação de leitos nem de propriedade, estamos propondo que, por um tempo determinado, esses leitos sejam utilizados como leitos para todos, comuns e que, inclusive, o governo pague por isso. Seria uma concessão num momento de tragédia sanitária mediante um pagamento sem lucro que permita o custeio dos leitos para que também o ente privado não vá à falência em função desse uso comum. Isso tem que ser benéfico.

“Não estamos propondo expropriação de leitos e nem de propriedade, estamos propondo que, por um tempo determinado, esses leitos sejam utilizados como leitos para todos, comuns e que inclusive o governo pague por isso”, afirma a pesquisadora Lígia Bahia

A fila única procura enfrentar também a questão da desigualdade regional na distribuição de leitos no Brasil? Vemos que há locais onde sobram leitos e outros onde há falta…

Sim, a fila única também propõe enfrentar isso. Teríamos que usar como únicos os laboratórios, as empresas de UTIs aéreas, os respiradores. Aí é uma outra proposta que nós também fazemos, que seria o deslocamento de recursos dentro do território nacional. Outros países fizeram isso. Dá pra você montar leitos em regiões mais necessitadas em função desse deslocamento. Por exemplo, nós vemos que a região Sul apresenta menos casos, então os estados poderiam emprestar esses recursos para o Amazonas ou para o Rio de Janeiro. Mas a gente não está fazendo isso, não está usando com inteligência os recursos que temos. A epidemia “anda” espacialmente e a gente sabe mais ou menos como. Então, a gente pode ir disponibilizando recursos de onde ela ainda não chegou para onde ela está mais presente e, depois, a gente devolve esses recursos, porque ela vai andar. A China fez isso. Ela tirou recursos de outros lugares e colocou em Wuhan, além de ter construído hospitais lá, por entender que a epidemia estava concentrada ali em Wuhan naquele momento. Hoje, a epidemia está concentrada em alguns lugares no Brasil. Por que estados onde ainda há poucos casos e uma taxa de disseminação pequena não emprestam esses recursos?

Mas, aparentemente, não estamos caminhando para que isso aconteça. Qual a tendência?

A tendência é que a gente está levando uma surra de dez a zero da pandemia no Brasil. Temos um problema grave de UTIs. No Rio de Janeiro, só 35% dos leitos de UTI são públicos, por exemplo. O vazio sanitário não está só nos grotões – isso é uma visão de senso comum –, nós temos um vazio sanitário neste momento no Rio de Janeiro, onde as pessoas estão morrendo nas UPAs. E ela se dissemina com menos velocidade no interior. É uma epidemia com característica metropolitana, porque se dissemina com muita velocidade nos grandes aglomerados. Belém, São Luís, Manaus, Fortaleza, Rio de Janeiro, Recife. São cidades voltadas para fora, onde há muitas aglomerações. A gente poderia ter aproveitado a intertemporalidade da epidemia. Tivemos quatro meses para nos preparar para essa epidemia e não aproveitamos esse tempo.

O que poderia ter sido feito, além da adoção da fila única?

Poderia ter sido liberado o recurso de saúde previsto. Estava prevista a liberação de R$ 26 bilhões para a Saúde e só foram liberados R$ 8 bilhões e, desses oito, só se gastou cinco. Quais são as palavras? Muito pouco e muito tarde. Os recursos são ínfimos e estão chegando muito tarde. Um ministério que não consegue captar o recurso previsto é um ministério muito fraco. O ministro Mandetta era um ministro mais carismático, apoiado pelos governadores e prefeitos, o ministro Teich não tinha essa base, mas ambos foram ministros fracos. O Mandetta apareceu junto com a pandemia, com a tragédia, mas nem por isso se tornou um ministro forte no sentido de obter recurso, de fazer um gabinete de crise mais integrado. Ficou como um ministro periférico e polêmico. O ministro Teich foi um ministro totalmente omisso, que mostrou aquela surpresa daquela decisão [o decreto de Bolsonaro que definiu, entre outras atividades essenciais, academias e salões de beleza] da qual ele nem participou.

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Abrasco/Reprodução
Rovena Rosa/Agência Brasil
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