Buscar
Reportagem

Bahia: Mortes por intervenção policial aumentam quase 80% no terceiro trimestre

Nos últimos três meses, 195 pessoas foram assassinadas durante ações da polícia, segundo dados do Fogo Cruzado

Reportagem
9 de outubro de 2023
16:50
Este artigo tem mais de 2 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Viatura da Polícia Militar da Bahia está parada em via pública.
Divulgação Governo da Bahia

Entre julho e setembro deste ano, 195 pessoas foram mortas por intervenção policial na Bahia, segundo dados do Instituto Fogo Cruzado. O número representa um aumento de quase 80% dessas ocorrências, na comparação com o mesmo período de 2022, quando 109 pessoas foram mortas em ações da polícia baiana. Entre janeiro e setembro, ao menos 400 pessoas morreram por intervenção policial no estado. 

Setembro foi o mais letal dos últimos 15 meses, com 72 pessoas assassinadas por policiais. Apenas na segunda quinzena do mês passado foram 46 mortes. O aumento de ocorrências aconteceu após assassinato do policial federal Lucas Caribé Monteiro de Almeida, de 42 anos, morto dia 15 de setembro, durante confronto com supostos criminosos no bairro Valéria, em Salvador. 

Em 21 de setembro, seis dias após a morte do policial federal, uma operação envolvendo agentes das polícias Militar, Civil e Federal, além de equipes das Rondas Especiais (Rondesp), deixou cinco pessoas mortas no Bairro Jardim Nova Esperança, também em Salvador. No dia seguinte, mais cinco pessoas foram mortas pela polícia em Águas Claras, outro bairro da capital. 

“O Estado tem intensificado a violência e as organizações criminosas também aumentaram a letalidade dos conflitos”, aponta Dudu Ribeiro, cofundador da Iniciativa Negra e coordenador executivo da Rede de Observatórios da Segurança na Bahia. “A justificativa das autoridades para o aumento da violência policial tem sido o combate ao tráfico de drogas, mas, ao mesmo tempo, existe uma demonstração completamente midiática de apreensões pífias, que quase não interferem de fato na dinâmica do tráfico de drogas local”, observa. 

Ribeiro explica que o aumento da violência no estado também está relacionado com conflitos entre facções criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV), que estariam disputando território. “Quando essas facções chegam na Bahia, fizeram novos arranjos com as organizações locais. Isso criou novos conflitos somados aos antes já existentes”.

No terceiro trimestre, os assassinatos sem participação de policiais também cresceram na Bahia, se comparados ao mesmo período do ano passado. Foram 258 mortes contra 169 no terceiro trimestre de 2022. 

Entre julho do ano passado e setembro de 2023, os dados do Fogo Cruzado apontam um total de 1.549 homicídios na Bahia. Desses, 572 dos assassinatos aconteceram em ações da polícia. 

De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, no ano passado, a Bahia foi o estado com mais mortes decorrentes de intervenção policial. Foram 1.464 no total, ultrapassando o Rio de Janeiro.

Polícia militar da Bahia durante operação
Setembro foi o mais letal da polícia baiana nos últimos 15 meses

No último dia 5, o Governo Federal anunciou investimentos de R$ 109 milhões para conter a onda de violência na Bahia. No dia 2, o Ministério Público da Bahia, por meio do Grupo de Atuação Especial Operacional de Segurança Pública (Geosp), a Defensoria Pública e o Conselho Estadual de Proteção aos Direitos Humanos (CEPDH) propuseram a realização de um Plano Estadual para a redução de mortes decorrentes de intervenção policial. O plano prevê que os agentes terão que passar por capacitações em direitos humanos e procedimentos operacionais. 

Também está sendo prevista a elaboração de um diagnóstico com o mapeamento das regiões mais e menos afetadas pela violência polícia no estado, além de ações para um controle mais rigoroso de armas e de munições, como o aumento da rastreabilidade e o estímulo ao uso de instrumentos de menor potencial ofensivo.

Para Dudu Ribeiro, da Iniciativa Negra e Rede de Observatórios da Segurança na Bahia, o Ministério Público não vem cumprindo a sua missão constitucional de controle externo das atividades da polícia. Não é uma particularidade da Bahia, mas no Brasil como um todo”, considera. 

Ribeiro também critica a falta de espaço para participação da sociedade civil organizada nos debates sobre segurança pública no estado, “para que se proponha para o governo outras possibilidades de atuação na área de segurança pública”.

Edição:
Joá Souza/Governo da Bahia

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Brasília (DF), 04/10/2026 - Pessoas chegam para votação das Eleições 2026 na Unieuro

Escândalo Master pesa na urna para uns e passa batido para outros

|

O 1º turno puniu apenas parte dos políticos ligados a Vorcaro, poupou outros e deixou Flávio Bolsonaro para o 2º turno

Rio de Janeiro (RJ), 04/10/2026 – O candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) vota na Escola Municipal Barão Homem de Mello, em Vila Isabel.

Virada de Flávio no 1º turno: escândalos podem ter favorecido desejo antissistema

|

Para especialistas, campanha nas redes, voto útil e governo Lula sem apelo renovado também colaboraram para resultado

Quando o trabalho impede o voto

|

De longas jornadas a quem decide fazer hora extra, trabalhadores estão entre os milhões que ficam sem votar

Imagem feita com auxílio de IA mostra o senador Flávio Bolsonaro, o banqueiro Daniel Vorcaro (Banco Master) e o cartaz do Filme Dark Horse

Why a Bolsonaro biopic is at the center of Brazil’s presidential election

|

A Hollywood-style film about Jair Bolsonaro is wrapped up in Brazil’s biggest bank fraud probe

Quase mil anúncios sobre Lula e Flávio na Meta foram pagos em dólar

|

Impulsionados por US$120 mil, conteúdos circularam sem rótulo de conteúdo político

Processos sobre desinformação e propaganda digital triplicam nas eleições de 2026

|

Até agora são mais de 9,5 mil processos na Justiça Eleitoral no 1º turno, contra 3,4 mil durante mesmo período em 2022

A “bancada” anti-indígena que vai às urnas neste domingo

|

Levantamento mostra que 370 parlamentares fizeram propostas negativas para indígenas; 270 deles disputam reeleição

O ex-senador Eduardo Suplicy é detido em reintegração de posse próximo a Cohab Educandário

Levantamento aponta um caso de violência política a cada 37 horas durante campanha de 2026

|

Monitoramento exclusivo da Pública por 17 dias chegou a 11 casos cujos agressores são, na maioria, agentes de segurança

Dos clubes de tiro ao poder: segmento de armas injeta mais de R$ 1,2 milhão nas eleições

|

Empresários do setor doaram para 96 candidatos – PL, Republicanos e Novo lideram recebimento de recursos

Visita à Heritage Foundation de Sérgio Sant'Ana e Eduardo Bolsonaro

Empresário que fundou Instituto com Eduardo Bolsonaro presta serviço para campanhas

|

Empresa de Sérgio Sant’Anna recebeu R$340 mil; empresário diz que ICL está “inativo” e que se afastou do ex-deputado