No final de outubro, o Rio de Janeiro viveu a maior chacina de sua história: 121 pessoas morreram em uma megaoperação policial nos complexos da Penha e do Alemão. Com isso, ganharam destaque os debates sobre violência de Estado e espetacularização da morte em territórios periféricos. A vida dos moradores dessas comunidades segue com indignação e medo, mas também com mobilização e trabalho de base, na luta por dignidade, respeito e pertencimento, especialmente para a juventude.
Neste contexto, o Pauta Pública desta semana traz uma conversa com Davi Amen, morador do Complexo do Alemão e cofundador do Instituto Raízes em Movimento, que há mais de duas décadas atua em projetos de formação, comunicação comunitária e memória local. A entrevista acontece poucos dias após o lançamento da pesquisa “Raio X Real da Favela”, do Data Favela, que ouviu jovens que se relacionam com o crime em todo o país e revela que a entrada para o tráfico, majoritariamente, é consequência da pobreza, ausência de oportunidades, violência e falta de acesso à educação.
Amen comenta o impacto da chacina sobre os moradores e destaca o que acontece longe das câmeras e da espetacularização da violência: as ações de educação, cultura, comunicação comunitária e apoio à juventude. Para ele, iniciativas como o Raízes são essenciais para abrir caminhos de futuro, justamente num cenário em que o Estado chega, quase sempre, sob a forma de operações policiais. “A gente não pode normalizar o que aconteceu na Penha e no Alemão. Foi um problema social, não só da favela. [Por outro lado], estamos enfrentando isso do nosso jeito […] criticando e cobrando o poder público para que dê atenção devida para os nossos projetos, ações e ideias. Porque estamos prontos para o diálogo”, afirma.
Leia os principais pontos e ouça o podcast completo abaixo.
EP 196 A mobilização que desafia a violência, a favela pela favela
Como surge e quais são os principais projetos desenvolvidos pelo Instituto Raízes em Movimentos?
O Raízes Movimento começou em 2001, com o [sociólogo] Alan Brum, que é cofundador junto comigo. De lá para cá, o nosso foco sempre foi trabalhar com a juventude. Eu procurei o Alan justamente porque eu era jovem, com 20 anos, e tinha acabado de sair do exército. Estava em um trabalho formal, mas muito incomodado com algumas situações e porque também percebi que meus amigos estavam à margem de uma série de fatores dentro da favela. Eu queria criar opções, e a gente criou o Raízes pensando a partir das perspectivas das pessoas aqui do Complexo Alemão, principalmente, para os mais jovens que estavam passando por muitas dificuldades, sem quase nenhuma oportunidade.
Então, o trabalho do Raízes começou com pré-vestibular comunitário, distribuição de preservativos e informativos sobre [Infecções Sexualmente Transmissíveis] e também fomos trabalhando com arte, comunicação e cultura, a partir do grafite. Esse trabalho foi evoluindo durante o passar dos anos. Fomos criando esse vínculo com a comunidade e com a juventude. [Desenvolvendo] uma capilaridade ainda maior dentro do Complexo Alemão. As pessoas foram reconhecendo e valorizando o nosso trabalho. Em 2017, criamos o programa Circulando, que era para trabalhar com comunicação e arte, no Complexo Alemão. Esse projeto passou a ser um grande evento anual e hoje é o guarda-chuva do programa de comunicação e cultura do Raiz e Movimento.
Atualmente, estamos trabalhando com dois eixos de atuação estratégica. Uma é o Circulando, com projetos de audiovisual e o programa Favela Doc, e também a revista Fala Favela, que é um programa de design gráfico que a gente trabalha com juventude, que está na quinta edição agora. Nosso segundo eixo estratégico é a produção de conhecimento, trabalhando profundamente com pesquisa, memória, documentação e assistência técnica de base comunitária com a comunidade, visando a urbanização verde.
A pesquisa do Data Favela mostra que 41% dos jovens em situação de crime dizem que, olhando para trás, teriam estudado ou se formado. Como o Raízes em Movimento atua para responder a esse desejo e oferecer alternativas reais de futuro para a juventude?
Eu sou nascido, criado e moro aqui [no Complexo do Alemão]. Nesses 24 anos de atuação, a gente já fez de tudo para atingir as juventudes, mesmo. Primeiro, com o diálogo. A gente tem que escutar, entender e vivenciar [a realidade das favelas]. O que a gente faz é escutar, conversar e pensar em um diagnóstico. Por exemplo, como colocar os jovens daqui na universidade. Existia o pré-vestibular comunitário aqui próximo, mas não era dentro da favela. Então, a gente criou um pré-vestibular dentro da favela, em 2001. Durou três anos e proporcionou a entrada desses jovens nas universidades públicas.
Atualmente, também estamos formulando um projeto no núcleo de comunicação e cultura do Complexo Alemão. [A ideia] é pegar jovens que já passaram por formações de cinema, de design, de produção cultural, de pesquisa, pelo Raiz e Movimento, e trazer essa galera para esse núcleo, produzindo nossa própria comunicação e conteúdo.
Um diferencial nosso também é oferecer serviços, para essa galera poder gerar renda, nesse viés de trabalhar com arte, cultura e produção. Para que eles se formem, passem pelos Raízes, construam suas vidas e sejam multiplicadores. Atingir a juventude é isso, escutar, participar, vivenciar, entender o que eles querem e tentar proporcionar. É um pouco o que a gente idealiza até hoje.
Como está a comunidade depois do que aconteceu no mês passado? Como foi viver isso e como as coisas estão agora? Como vocês estão vendo isso com os jovens que trabalham com vocês?
Com muita dor no coração digo que, no contexto geral, está normal. Isso é muito ruim. De verdade. Precisamos e vamos continuar [com nossas rotinas], mas a luta não para. Não podemos normalizar o que aconteceu, não só aqui na favela mas enquanto sociedade. O que aconteceu aqui não foi só um problema do complexo da Penha e do complexo Alemão. Foi um problema social.
Por outro lado, estamos na luta construindo pontes, dando assessoria e assistência a algumas famílias. Mas, o poder público também não pode estar presente só nesses momentos. Assim como outras organizações sociais, militantes e tal. Precisamos criar uma rotina ainda muito mais presente.
Ainda há muita dor. Ainda há muito comentário. Ainda há muito medo. O que mais assusta é o número que foi exaltado por uma série de pessoas: 121 mortes. Porque eles vão invadir a favela novamente, fazer ocupação e outras megaoperações. Como vai ser isso? Como serão os próximos números? Já que o limite já é exorbitante. Na minha visão, é insano e irracional. A gente não pode achar isso normal. Não podemos esquecer isso e é preciso pautar em qualquer momento, sem se aquietar com essa situação.
A gente ainda está sangrando. É difícil. Mas a gente tem que lembrar para não acontecer novamente em nenhum lugar e não seguir de cabeça baixa, enfrentando isso do nosso jeito. Produzindo conhecimento e trazendo nossos jovens para perto, criticando e cobrando o poder público para que dê atenção devida para os nossos projetos, ações e ideias. Porque estamos prontos para o diálogo.
Também foram divulgadas pesquisas apontando que a maioria dos moradores de favelas no RJ aprovou a megaoperação realizada no fim de outubro. Como você vê esses dados?
Há plataformas de pesquisa que a gente não deveria nem considerar. Não apresentam relatórios, fazem entrevistas por telefone e isso me assusta. Claro que esses números reverberam na imprensa, e a imprensa de massa volta a reproduzir dados que muitas vezes não têm fundamento algum. Conversamos sobre isso esta semana no Raízes: estamos incomodados e queremos nos mobilizar para confrontar esses números.
Estamos nos organizando para fazer nosso próprio levantamento, ouvindo os moradores. A pesquisa do Data Favela que saiu agora é muito importante também. E é isso: a gente precisa [se] ouvir de fato. Para falar de nós, só nós. Se não for gente da favela, não dá para falar da favela. É necessário entender isso. E mais: não vão mais falar da favela sem a favela. A gente já tem os mecanismos, já conhece os caminhos, já dialoga, já é formado.
Se os dados não forem apresentados por nós, vamos confrontar esses dados. Está se formando um coletivo justamente para pensar esse enfrentamento. A gente não vai ficar quieto, pode acreditar. Esses números e essas narrativas nos deixaram muito inquietos.
Existem pesquisas tendenciosas. É preciso ter cuidado, porque há pesquisas feitas com interesses específicos, com um viés único. As perguntas precisam ser bem elaboradas.
Se perguntarmos a um morador se ele é a favor da megaoperação, talvez ele diga que sim. Mas será que ele é a favor das consequências que essa megaoperação causa? Quantas operações ocorreram no ano? Quantas vezes o filho dele ficou sem aula? Quantos exames [ele] precisou desmarcar na clínica da família? Quantas vezes chegou atrasado ao trabalho? Quantas vezes ficou sem transporte por causa de uma operação? Talvez o morador apoie uma operação, mas a pesquisa é tendenciosa. Quando lembramos que a escola fechou, que a creche fechou, que ele não pôde trabalhar porque a filha não pôde ficar na creche, a resposta pode mudar.
Por isso, precisamos ter muito cuidado com esses dados apresentados por plataformas interesseiras, muitas vezes contratadas pelo poder público ou pela imprensa de massa.





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