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Se você gosta de navegar a web para encontrar conteúdo que te distraia, informe sobre uma marca ou te deixe a par das últimas notícias, ou fofocas, é bem possível que esteja lendo conteúdo feito por robôs. E isso não significa que você é diferente de qualquer pessoa. Hoje, uma parcela significativa dos textos, vídeos e até da música consumida online é produzida por Inteligência Artificial (IA).
Em outubro de 2025, um estudo da empresa de Graphite, que desenvolve códigos usando IA, demonstrou que a quantidade de conteúdo em texto produzido por ferramentas como Chat GPT em inglês já tinha ultrapassado os conteúdos humanos. Analisando 65 mil URLs publicadas entre janeiro de 2020 e maio de 2025, selecionadas randomicamente, os pesquisadores conseguiram detectar quais eram provenientes de IA. No total, eram 52%, contra 48% de textos feitos por seres humanos.
Outros dados reforçam esse quadro. Outra empresa que trabalha com IA, Originality, levantou 8,795 postagens no LinkedIn de janeiro de 2018 a outubro de 2024, e detectou um aumento de 189% em posts escritos por IA desde o lançamento do ChatGPT. No final de 2024, 54% dos posts longos na Plataforma eram escritos por IA. Mais uma vez, o estudo foi Feito com textos em inglês.
No site Medium, uma espécie de blog que também é popular aqui no Brasil, a quantidade de conteúdo gerado por IA aumentou de menos de 2% para 37% entre 2022 e 2024, de acordo com um estudo da Universidade de Hong Kong publicado em 2025.
A proliferação de conteúdo feito por IA tem sido, inclusive, uma dor de cabeça para plataformas, que tentam barrar novas criações. O Spotify impôs novas regras em setembro do ano passado que incluem filtros mais potentes contra spam e proibição de imitação de artistas, além de exigir que os músicos sejam transparentes se usarem IA.
Trata-se de um problema grave e, talvez, impossível de solucionar. Uma reportagem do Guardian apontou que 10% dos canais que mais crescem no YouTube publicam apenas vídeos feitos por IA. Meses depois, em novembro, o TikTok revelou que há mais de 1 bilhão de vídeos sintéticos – criados por robôs – na plataforma, resultado do lançamento de ferramentas que deixaram trivial criar um vídeo com IA, como o Sora, da Open IA, e o Veo 3, do Google. Para tentar barrar essa enxurrada, o TikTok prometeu permitir que os próprios usuários decidam quanto conteúdo sintético querem ver. Mas quem vai gastar tempo lendo as letrinhas miúdas e fazendo gerenciando essas permissões?
O novo fenômeno já tem até nome em inglês, “AI slop”, ou seja, conteúdo sintético de baixa qualidade. Inicialmente referente à mistura de restos de comida que se usa para alimentar porcos, o termo tem o mesmo sentido de “spam”, aquelas correntes de email, ou lixo eletrônico. Não à toa, a palavra “slop” foi escolhida como a palavra de 2025 pelo dicionário Merriam-Webster e pela Sociedade do Dialeto Americano.
Por aqui, vou traduzi-la como “gorobora de IA” e vou usar assim daqui pra frente.
Por mais que as Big Techs insistam que conteúdo checado, apurado e feito por humanos-jornalistas não tem valor a ponto de merecer pagamento por direitos autorais – como demonstramos na investigação A Mão Invisível das Big Techs, existe uma variável em todas as redes sociais e programas de busca que é inestimável: a confiabilidade.
As pessoas navegam no Google, TikTok e no YouTube porque acreditam que estão vendo informações que são reais. Claro, todo mundo sabe que há uma minoria de mentiras, em especial aquelas que contradizem a sua visão de mundo.
Mas quando o conteúdo-gororoba for tomando conta das redes, gerados por robôs e inerentemente passiveis de erro ou alucinação, a tendência é que as pessoas deixem de acreditar nas plataformas de interação social, ou talvez até na internet como um todo.
É como você assiste ao Praça é Nossa esperando obter informações verossímeis sobre o mundo. Simplesmente não acontece.
As pessoas, temos sempre que lembrar, não são idiotas.
Então, a robotização do conteúdo em plataformas digitais já está levando a uma mudança substancial do uso destas. Já está havendo uma mudança, por exemplo, sobre o aspecto “social”; no futuro, ninguém vai frequentar rede social pra ver os amigos – com estes, deve se manter o uso de ferramentas de conversas privadas, como as de mensageria, menos dependentes de curadoria algorítmica.
Afinal, ter amigos seres humanos ainda importa.
Segundo, todo mundo vai saber que o que aparece nas redes pode ser mentira ou “gororoba” – a confiabilidade tende a cair, e assim até o potencial danoso de grandes ondas de fake news pode ser reduzido.
Terceiro, as pessoas vão buscar outros locais para saber onde se informar de verdade.
E aí, claro, voltamos ao bom e velho jornalismo.
Os canais de TV, jornais, e sites que demonstram independência, reputação e capacidade de demonstrar como chegaram a determinados fatos serão uma commodity valiosa. E O mesmo deve acontecer com criações artísticas e culturais originais, artistas que criam músicas, filmes, peças de teatro, pesquisadores que escrevem ensaios com olhares originais – o conteúdo humano, a originalidade e os insights nunca vistos serão conteúdo valioso.
Como eles chegarão ao público, é outra história. Hoje, a maior parte da comunicação entre veículos de jornalismo e artistas e seu púbico é mediado pelas Big Techs. Soluções que exigem assinaturas, como o modelo pago adotado pelos streamings, desde que bem regulados para garantir compensação a quem cria saberes e uma quantidade de conteúdos locais, podem ser uma saída. Mas o rádio, a TV, a experiência offline, a interação direta, e até a leitura em papel podem ter um renascimento na era da gororoba da IA na internet.
De qualquer maneira, devido ao oligopólio que as Big Techs exercem sobre a internet, será responsabilidade dos seres humanos ajudar para que conteúdo decente chegue a mais pessoas. Aqui na Pública, assim com todos os sites de jornalismo, vimos uma queda de audiência no ano passado com a retração do Google Discover e a adoção do Google IA Overview, a ferramenta de IA nas buscas do Google. Precisamos, portanto, chegar a mais leitores que queiram estar bem informados.
Então termino essa segunda newsletter do ano com um pedido. Se você gosta dessa newsletter que escrevo com tanto amor, por favor, envie ou recomende para um ou dois amigos. Ajude a tornar a Agência Pública mais pública.
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