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Internet é terra de robôs

Com o aumento dos textos e vídeos em IA, tendência é que as plataformas percam a confiança do público

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12 de janeiro de 2026
17:00

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Se você gosta de navegar a web para encontrar conteúdo que te distraia, informe sobre uma marca ou te deixe a par das últimas notícias, ou fofocas, é bem possível que esteja lendo conteúdo feito por robôs. E isso não significa que você é diferente de qualquer pessoa. Hoje, uma parcela significativa dos textos, vídeos e até da música consumida online é produzida por Inteligência Artificial (IA).

Em outubro de 2025, um estudo da empresa de Graphite, que desenvolve códigos usando IA, demonstrou que a quantidade de conteúdo em texto produzido por ferramentas como Chat GPT em inglês já tinha ultrapassado os conteúdos humanos. Analisando 65 mil URLs publicadas entre janeiro de 2020 e maio de 2025, selecionadas randomicamente, os pesquisadores conseguiram detectar quais eram provenientes de IA. No total, eram 52%, contra 48% de textos feitos por seres humanos.

Outros dados reforçam esse quadro. Outra empresa que trabalha com IA, Originality, levantou 8,795 postagens no LinkedIn de janeiro de 2018 a outubro de 2024, e detectou um aumento de 189% em posts escritos por IA desde o lançamento do ChatGPT. No final de 2024, 54% dos posts longos na Plataforma eram escritos por IA. Mais uma vez, o estudo foi Feito com textos em inglês.

No site Medium, uma espécie de blog que também é popular aqui no Brasil, a quantidade de conteúdo gerado por IA aumentou de menos de 2% para 37% entre 2022 e 2024, de acordo com um estudo da Universidade de Hong Kong publicado em 2025.

A proliferação de conteúdo feito por IA tem sido, inclusive, uma dor de cabeça para plataformas, que tentam barrar novas criações. O Spotify impôs novas regras em setembro do ano passado que incluem filtros mais potentes contra spam e proibição de imitação de artistas, além de exigir que os músicos sejam transparentes se usarem IA.

Trata-se de um problema grave e, talvez, impossível de solucionar. Uma reportagem do Guardian apontou que 10% dos canais que mais crescem no YouTube publicam apenas vídeos feitos por IA. Meses depois, em novembro, o TikTok revelou que há mais de 1 bilhão de vídeos sintéticos – criados por robôs – na plataforma, resultado do lançamento de ferramentas que deixaram trivial criar um vídeo com IA, como o Sora, da Open IA, e o Veo 3, do Google. Para tentar barrar essa enxurrada, o TikTok prometeu permitir que os próprios usuários decidam quanto conteúdo sintético querem ver. Mas quem vai gastar tempo lendo as letrinhas miúdas e fazendo gerenciando essas permissões?

O novo fenômeno já tem até nome em inglês, “AI slop”, ou seja, conteúdo sintético de baixa qualidade.  Inicialmente referente à mistura de restos de comida que se usa para alimentar porcos, o termo tem o mesmo sentido de “spam”, aquelas correntes de email, ou lixo eletrônico. Não à toa, a palavra “slop” foi escolhida como a palavra de 2025 pelo dicionário Merriam-Webster e pela Sociedade do Dialeto Americano.

Por aqui, vou traduzi-la como “gorobora de IA” e vou usar assim daqui pra frente.

Por mais que as Big Techs insistam que conteúdo checado, apurado e feito por humanos-jornalistas não tem valor a ponto de merecer pagamento por direitos autorais – como demonstramos na investigação A Mão Invisível das Big Techs, existe uma variável em todas as redes sociais e programas de busca que é inestimável: a confiabilidade.

As pessoas navegam no Google, TikTok e no YouTube porque acreditam que estão vendo informações que são reais. Claro, todo mundo sabe que há uma minoria de mentiras, em especial aquelas que contradizem a sua visão de mundo.

Mas quando o conteúdo-gororoba for tomando conta das redes, gerados por robôs e inerentemente passiveis de erro ou alucinação, a tendência é que as pessoas deixem de acreditar nas plataformas de interação social, ou talvez até na internet como um todo.

É como você assiste ao Praça é Nossa esperando obter informações verossímeis sobre o mundo. Simplesmente não acontece.

As pessoas, temos sempre que lembrar, não são idiotas.

Então, a robotização do conteúdo em plataformas digitais já está levando a uma mudança substancial do uso destas. Já está havendo uma mudança, por exemplo, sobre o aspecto “social”; no futuro, ninguém vai frequentar rede social pra ver os amigos – com estes, deve se manter o uso de ferramentas de conversas privadas, como as de mensageria, menos dependentes de curadoria algorítmica.

Afinal, ter amigos seres humanos ainda importa.

Segundo, todo mundo vai saber que o que aparece nas redes pode ser mentira ou “gororoba” – a confiabilidade tende a cair, e assim até o potencial danoso de grandes ondas de fake news pode ser reduzido.

Terceiro, as pessoas vão buscar outros locais para saber onde se informar de verdade.

E aí, claro, voltamos ao bom e velho jornalismo.

Os canais de TV, jornais, e sites que demonstram independência, reputação e capacidade de demonstrar como chegaram a determinados fatos serão uma commodity valiosa. E O mesmo deve acontecer com criações artísticas e culturais originais, artistas que criam músicas, filmes, peças de teatro, pesquisadores que escrevem ensaios com olhares originais – o conteúdo humano, a originalidade e os insights nunca vistos serão conteúdo valioso.

Como eles chegarão ao público, é outra história. Hoje, a maior parte da comunicação entre veículos de jornalismo e artistas e seu púbico é mediado pelas Big Techs. Soluções que exigem assinaturas, como o modelo pago adotado pelos streamings, desde que bem regulados para garantir compensação a quem cria saberes e uma quantidade de conteúdos locais, podem ser uma saída. Mas o rádio, a TV, a experiência offline, a interação direta, e até a leitura em papel podem ter um renascimento na era da gororoba da IA na internet.

De qualquer maneira, devido ao oligopólio que as Big Techs exercem sobre a internet, será responsabilidade dos seres humanos ajudar para que conteúdo decente chegue a mais pessoas. Aqui na Pública, assim com todos os sites de jornalismo, vimos uma queda de audiência no ano passado com a retração do Google Discover e a adoção do Google IA Overview, a ferramenta de IA nas buscas do Google. Precisamos, portanto, chegar a mais leitores que queiram estar bem informados.

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