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Padre Júlio: fora das redes, doações para projetos caem e fiéis querem ajuda do Vaticano

Comunidade afirma que tenta conversar com Dom Odilo e Dom Cícero, mas sem sucesso; Papa pode receber abaixo-assinado

Reportagem
28 de janeiro de 2026
14:31
Rovena Rosa/Agência Brasil

Desde a proibição do uso das redes sociais pelo padre Júlio Lancellotti, em dezembro de 2025, a arrecadação para as ações da Pastoral de Rua, que atende a população em situação de rua na capital paulista, está em franco declínio. Segundo a aposentada Idalina Rodrigues, 58, conhecida como Ida, voluntária há cinco anos do Centro Comunitário Santa Dulce dos Pobres, da paróquia do padre Júlio, as doações já caíram mais de 20% em menos de dois meses. 

“A gente sempre recebeu muita coisa de higiene pessoal, absorvente, fralda. Depois da interrupção dele [padre Júlio] nas redes sociais, a gente não recebe mais. Antes vinha muito desodorante, nunca mais veio, depois que ele saiu das redes”, relata. 

Ida Rodrigues vai todos os dias ao Centro Comunitário, de segunda à sexta-feira, e ajuda nas atividades de 8h às 12h. O local fica a cerca de 100 metros da Paróquia São Miguel Arcanjo, na Mooca, região Leste de São Paulo, onde o padre Júlio é o pároco responsável há mais de 40 anos. Segundo Ida, o Centro atende mensalmente de 400 a 500 pessoas em situação de rua. Quando faltava algum item específico, o pároco fazia o pedido nas redes sociais. 

“As pessoas vêm de outros estados para conhecer a obra, o padre Júlio, ver como conseguem ajudar. Então, essa divulgação que era feita nas redes sociais, para a gente era de extrema importância”, salienta.

A professora Elisa Huertas, 43, frequentadora há 25 anos da paróquia, catequista e membro da pastoral de comunicação, explica que a congregação é formada por cerca de 300 fiéis que contribuem financeiramente todos os meses. Sem as doações externas, diz Huertas, eles não conseguem manter todos os serviços prestados.

O Centro Comunitário fornece diariamente café da manhã para cerca de 350 pessoas em situação de rua. Também são oferecidos serviços como orientação jurídica, psicológica e de assistência social, corte de cabelo e doação de óculos de grau. Ficam à disposição para uso gratuito biblioteca, computadores, telefones e roupas. O Centro ainda conta com o atendimento ao trabalhador, para elaboração de currículos, emissão de documentos, acesso ao gov.br, encaminhamento para vagas de trabalho, impressão e plastificação de documentos. 

A determinação que o padre Júlio não usasse mais as redes sociais e não transmitisse as missas pela internet, veio de Dom Odilo Scherer, arcebispo metropolitano de São Paulo. Com o intuito de reverter a decisão, a comunidade da paróquia reuniu mais de mil assinaturas em um abaixo-assinado de apoio ao padre Júlio e tentou entregar o documento ao cardeal. 

“A Paróquia, os paroquianos, querem que continue [as postagens nas redes sociais]. Tentamos contato, mandamos mensagem para Dom Odilo. Ele me respondeu que era para entregar na região episcopal de Belém. Já Dom Cícero [bispo responsável pela região] mandou entregar na chancelaria da arquidiocese de São Paulo. Deixei claro nas mensagens que não queria apenas entregar, eu queria conversar, e eles se recusam”, declara Huertas. Diante das recusas, o grupo de fiéis pretende enviar o abaixo-assinado para o Vaticano.

Por que isso importa?

  • O padre Júlio Lancellotti, reconhecido como defensor de direitos humanos e por suas obras assistenciais com populações de rua da capital paulista, foi proibido de usar redes sociais pela Arquidiocese de São Paulo em dezembro de 2025.
  • A proibição, vista por apoiadores como censura e perseguição política, está impactando as doações para a pastoral que atende pessoas em situação de rua na cidade.

“A gente fez alguns contatos com o Dom Odilo e sem sucesso. Contatos muito respeitosos, com muita delicadeza. Nosso contato foi no sentido de mostrar a importância desse trabalho, a importância do padre Júlio [estar] nas redes sociais, mas a gente não teve sucesso, não conseguiu nenhum retorno”, confirma Ida.

Os fiéis ouvidos pela reportagem salientaram que o padre tem seguido rigorosamente a orientação da Arquidiocese. “Desde que houve essa proibição, o padre [a] seguiu à risca. Ele nunca mais usou [as redes sociais], nunca desrespeitou a proibição do cardeal. Com isso, a gente está tendo que fundar [as redes sociais da paróquia] do zero. Isso atrapalha a arrecadação da igreja, atrapalha as pessoas conseguirem ver quais os eventos estamos promovendo”, explica a advogada Amanda Lopes, 27, que é também voluntária no Centro Comunitário e membro da Pastoral de Comunicação. 

Para a advogada, a orientação dada ao pároco afeta negativamente o trabalho de toda a comunidade. “Eles [Dom Odilo e Dom Cícero] não estão atacando o padre Júlio, estão atacando a pessoa em situação de rua, quem vem aqui pegar um pão, tomar um banho. Isso não é sobre o Padre Júlio, isso é sobre as pessoas que dependem da paróquia São Miguel Arcanjo para ter o mínimo”, critica. 

A falta de diálogo com a Arquidiocese gera dúvidas entre os integrantes da igreja. “Por que nós somos ignorados pelo nosso bispo? Eu sou fiel, sou paroquiana, vou todos os dias à missa e ele é meu bispo. […] Tem uma obra sendo feita que está completamente de acordo com a doutrina social da igreja, com o Concílio Vaticano II. Tudo de acordo com o que a igreja preconiza, de acolhimento, de ajuda, de olhar para o pobre, de caridade”, salienta Huertas. 

Paroquianos pretendem enviar abaixo-assinado com mais de mil assinaturas em apoio ao padre Júlio ao Vaticano

O casal de professores Maria Lúcia Taiar Santos, 59, e Tarcísio Santos, 60, frequenta a paróquia há cerca de 50 anos e se diz “indignado” com a ausência do padre nas redes sociais. “O que percebemos é que a cada dois anos, sempre em ano de eleição, tem alguma iniciativa contra o padre Júlio. [Em 2024], estive conversando com o Dom Odilo, mostrando que ele não estava isolado, tinha a voz da comunidade junto”, conta Santos. 

O professor admite, no entanto, que agora esse contato não foi possível. “Não fomos atendidos, enquanto comunidade. Está havendo aí, parece que um bloqueio, uma resistência, não consegue nem encaminhar o abaixo-assinado”, alega Santos.

“O que é estranho, porque na verdade o papel deles é estar junto [dos fiéis]. Essa indiferença parece um descaso ou uma rejeição à população que é da comunidade [da igreja]. A gente vê nisso um contrassenso’, complementa Taiar Santos.

Questionada pela Agência Pública sobre as negativas, a Arquidiocese de São Paulo informou em nota que “as solicitações de audiências com o Arcebispo de São Paulo devem ser feitas por meio do e-mail casaepiscopalsp@terra.com.br. Informamos, ainda, que, nas últimas semanas, tanto o Cardeal Odilo Pedro Scherer quanto Dom Cícero Alves de França estiveram em compromissos pastorais fora da cidade de São Paulo”.

A ideia de enviar o abaixo-assinado para o Vaticano surgiu em função dessa dificuldade de diálogo com a Arquidiocese de São Paulo, e também por causa da ação de um político de Belo Horizonte, afirmaram os paroquianos. “Eles enviaram um documento contrário ao padre Júlio, então queremos enviar nosso abaixo-assinado que é a favor”, diz Huertas. 

Em novembro de 2025, o deputado federal Junio Amaral (PL-MG) e sua esposa Marília Amaral, apresentaram uma denúncia contra o pároco na Embaixada da Santa Sé, em Brasília e em um departamento da Cúria Romana no Vaticano. 

Amaral foi multado em outubro de 2024 pela Justiça Eleitoral por “veicular informação sabidamente falsa” durante as eleições em que ele concorreu para prefeito de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. Em 2022, ele teve suas contas nas redes sociais X (antigo Twitter), Facebook e Instagram suspensas por determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, por publicações consideradas violadoras de “diretrizes legais”.   

Centro comunitário é alvo de hostilidade dos moradores

Entre os voluntários da Paróquia São Miguel Arcanjo, uma reclamação comum é a falta de compreensão dos moradores do bairro do trabalho de solidariedade feito pelos fiéis e pelo padre Júlio Lancellotti. 

“As pessoas do bairro, principalmente. É a nossa maior dificuldade, porque eles acham que as pessoas em situação de rua desvalorizam a região”, lamenta Rodrigues. “Eles não entendem que não é porque o padre Júlio dá de comer que as pessoas estão em situação de rua. É o inverso. O padre Júlio dá de comer, e assistência, porque existem pessoas nas ruas”, ressalta.

Um levantamento feito pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) no ano passado, mostrou que são cerca de 96 mil pessoas em situação de rua na cidade de São Paulo. 

Segundo o último Censo da População em Situação de Rua, realizado pela prefeitura de São Paulo em 2021, 18,2% se estabeleceram na região da Mooca. Perde apenas para a região da Sé, com 40,3% das pessoas em situação de rua. Na sequência, estão os bairros Santana/Tucuruvi e Vila Maria, ambos com 3,9% do total. 

Por nota, a Prefeitura de São Paulo informa que “o próximo Censo da População em Situação de Rua no município será realizado neste ano, conforme o cronograma previsto. O levantamento terá início com o trabalho de campo em março de 2026”. 

Interesses econômicos também são considerados pelos paroquianos como uma ameaça para as obras da paróquia. “O bairro está passando por um processo de gentrificação, são muitos prédios sendo construídos e eles acham que as pessoas em situação de rua atrapalham”, afirma Elisa Huertas. Segundo a consultoria imobiliária Binswanger Brazil, desde 2020 a região da Mooca teve 80 empreendimentos imobiliários aprovados, sendo que 36 ainda estão em obras. 

Edição:
Ludmila Pizarro/Agência Pública
Divulgação
Ludmila Pizarro/Agência Pública
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