As operações militares na Venezuela sinalizam possíveis futuras campanhas do governo dos EUA contra a Colômbia, Cuba e o México.
A maioria dos americanos entrevistados se opõe à intervenção dos EUA na região.
No início do segundo mandato de Donald Trump, muitos observadores políticos concluíram que as declarações do presidente americano sobre a anexação do Canadá, a aquisição da Groenlândia, a tomada do Canal do Panamá e a oposição a regimes de esquerda eram, para citar Shakespeare, “cheias de som e fúria, sem significado algum”.
Infelizmente, isso não se confirmou.
O sequestro do presidente Nicolás Maduro para os Estados Unidos para enfrentar acusações criminais por suposto “narcoterrorismo” e por colaboração com operações de tráfico de drogas anuncia um futuro de intervenções agressivas e belicosas na região por parte do aspirante ao Prêmio Nobel da Paz.
As ações de Trump, claro, não passaram sem críticas. Entre as importantes nações e organismos internacionais que criticaram Trump por ter violado as normas internacionais com a invasão da Venezuela estão França, Espanha, Rússia, China e Brasil, bem como a Comissão Europeia.
Nos Estados Unidos, enquanto o governo atual se vangloria do sucesso militar da operação, as pesquisas de opinião mostram um ceticismo significativo em relação aos ataques de Washington à Venezuela.
No final de dezembro de 2025, quando a justificativa do governo Trump para uma possível invasão da Venezuela se baseava no suposto envolvimento do governo Maduro com o tráfico internacional de drogas, uma pesquisa da YouGov indicou que apenas 22% dos entrevistados apoiavam o uso da força militar dos EUA para derrubar o governo, enquanto 52% se opunham.
Em uma pesquisa da YouGov realizada em 4 de janeiro, um dia após a invasão da Venezuela, 41% se opuseram, em alguma medida, à ideia de o governo dos EUA “administrar” o país após a captura de Maduro, enquanto 34% se opuseram, em alguma medida, ou apoiaram fortemente as intenções anunciadas por Trump, com um quarto dos entrevistados demonstrando incerteza sobre o assunto.
Os protestos realizados nos Estados Unidos no domingo, 4 de janeiro, contra a incursão de Trump na Venezuela, foram relativamente pequenos em comparação com os milhões mobilizados nos últimos meses nas manifestações “Sem Reis” (No Kings, em inglês). No entanto, eles expressam uma preocupação generalizada dentro e fora do Partido Democrata sobre as políticas do presidente para a América Latina e o Caribe.
Embora muitos políticos democratas considerem questionável a recente vitória eleitoral presidencial de Maduro, o líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, de Nova York, destacou que sua captura “sem autorização do Congresso e sem um plano crível para o que vem a seguir é imprudente”.
O deputado democrata Dan Goldman, de Nova York, que foi o principal conselheiro no primeiro processo de impeachment de Trump, afirmou que considera a invasão uma violação da Constituição dos EUA e um “crime passível de impeachment”.
Outros democratas também estão pedindo o impeachment, uma opção até recentemente considerada improvável, dado o fato de que precisariam obter dois terços dos votos no Senado para conseguir uma condenação.
Mas mesmo aqueles políticos que têm sido cautelosos em levantar a possibilidade de um processo de impeachment estão mudando de ideia. A representante do Congresso Maxine Waters, da Califórnia, comentou: “Hoje, muitos democratas questionaram, compreensivelmente, se um impeachment é possível novamente na atual realidade política… Estou reconsiderando essa visão.”
Alguns republicanos também estão demonstrando incertezas sobre as ações de Trump na América Latina, em grande parte porque Trump construiu o movimento MAGA (Make America Great Again, em português, Torne a América Grande Novamente) com base em críticas às operações militares estrangeiras dos EUA e em tentativas anteriores, tanto de republicanos quanto de democratas, de apoiar mudanças de regime. De acordo com a pesquisa YouGov realizada em dezembro, 43% dos republicanos entrevistados se opuseram a uma invasão da Venezuela.
Entre os críticos republicanos mais francos da política de Trump está a representante Marjorie Taylor Greene, que escreveu nas redes sociais em 3 de janeiro: “Isso é o que muitos no MAGA pensavam que estavam votando para acabar. Como estávamos enganados.” Outrora uma das apoiadoras mais fervorosas de Trump, Greene recentemente divergiu dele em uma série de questões. Ainda assim, quase todos os republicanos no Congresso continuam a apoiar lealmente Trump.
EUA têm histórico de intervenções na América
É claro que as ações dos EUA na América Latina e no Caribe contra líderes de esquerda ou independentes não são novidade, sejam elas abertas, como o ataque de 3 de janeiro, ou clandestinas. Desde a promulgação da Doutrina Monroe, em 1823, os formuladores de políticas em Washington se declararam com o direito naturalizado de buscar hegemonia sobre a região.
O expansionismo americano dentro dos Estados Unidos contra os povos indígenas e seus territórios, iniciado no século 17, e contra o México na década de 1840, só aumentou em 1898. Naquele ano, o governo dos EUA declarou guerra à Espanha pelo controle de Cuba e Porto Rico, no Caribe, e das Filipinas, no Leste Asiático.
Um exemplo flagrante da interferência dos EUA nos assuntos internos da América Latina, entre muitos que são bem conhecidos no Brasil, foi o envolvimento direto dos governos Kennedy e Johnson, entre 1961 e 1964, na derrubada do governo legalmente constituído de João Goulart, e que levou à ditadura de 1964.
Essa interferência foi reiterada no ano passado, quando Trump tentou interferir nos assuntos internos do Brasil, condicionando as tarifas impostas aos produtos brasileiros ao perdão de Jair Bolsonaro por suas tentativas de golpe de Estado para reverter os resultados das eleições presidenciais de 2022.
Na coletiva de imprensa de 3 de janeiro de 2026 em Mar-a-Lago, realizada para celebrar o sucesso da operação militar dos EUA, Trump prometeu aumentar sua presença imperial no hemisfério. Ele abraçou abertamente a noção de que a América Latina e o Caribe constituem o “quintal dos Estados Unidos”, uma ideia reforçada durante a Guerra Fria, quando Washington insistia que a região deveria estar exclusivamente sob a esfera de influência dos EUA.
“Governaremos o país até que possamos fazer uma transição segura, adequada e criteriosa”, anunciou Trump. “Não podemos correr o risco de que alguém assuma o poder na Venezuela sem ter em mente os interesses dos venezuelanos.”
No entanto, parece não haver um plano preciso para o período pós-guerra sobre como a Venezuela será governada. Trump também não hesita em anunciar a possibilidade de uma presença militar contínua no país, ameaçando enviar tropas terrestres caso uma invasão se torne necessária.
Entretanto, segundo o presidente dos EUA, funcionários do governo, como o secretário de Estado Marcos Rubio e o secretário de Defesa Pete Hegseth, “administrarão” o governo venezuelano.
Durante a coletiva de imprensa, não houve menção à defesa da democracia. Em vez disso, Trump descartou a possibilidade de que a líder da oposição e recente ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, Maria Corrina Machado, assuma o governo do país. “Ela não tem o apoio nem o respeito dentro do país”, ironizou Trump, num gesto que parece mais uma tentativa de desacreditar a ganhadora de seu cobiçado prêmio e insinuar que ela realmente não merecia recebê-lo.
Trump também fez o anúncio desconcertante de que a vice-presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, tinha mais legitimidade para assumir o controle do governo, embora a Casa Branca tenha insistido que a eleição de Maduro e Rodríguez foi resultado de fraude eleitoral em larga escala. Ironicamente, horas antes da conferência de imprensa de Trump, quando Rodríguez foi empossada como presidente pela Câmara Constitucional do Supremo Tribunal, ela denunciou o “sequestro de Maduro” e insistiu em seu retorno à Venezuela.
Ainda é muito cedo para saber se Rodríguez fez um acordo com o governo Trump para colaborar com o governo dos EUA a fim de permanecer no poder ou se o impulsivo presidente americano estava mais uma vez falando sem pensar nas implicações de suas declarações.
De qualquer forma, conhecendo Trump, ele acha que pode facilmente descartá-la a qualquer momento, caso ela não se curve à sua vontade.
Mais de 15 mil soldados americanos permanecem posicionados na costa venezuelana, prontos para intervir caso Trump decida pressionar aqueles que atualmente controlam o Estado.

O verdadeiro motivo da invasão
Se a defesa da democracia venezuelana não foi a principal justificativa para a mudança de regime, o narcotráfico também não foi o motivo real para o sequestro de Maduro e sua extradição para os Estados Unidos para ser julgado.
O afundamento ilegal de 35 pequenas embarcações que operavam no Oceano Pacífico, perto da Colômbia e na costa da Venezuela, no Caribe, e o assassinato de 115 tripulantes foram meramente os pretextos para os planos de Trump de mudança de regime.
Mesmo que uma pequena quantidade de fentanil passe pela Venezuela rumo aos mercados estrangeiros, a suposta repressão ao tráfico de drogas justificou um enorme destacamento de navios de guerra na costa da Venezuela, com o objetivo de intimidar Maduro e posicionar o poder de fogo militar para sequestrá-lo.
Na coletiva de imprensa de 3 de janeiro, Trump deixou poucas dúvidas sobre suas reais intenções, anunciando sem pudor seu plano de trazer as principais companhias petrolíferas americanas para assumir a produção de petróleo venezuelana, alegando que as nacionalizações das companhias petrolíferas americanas em 1976 haviam sido ilegais.
Em parte, ele afirmou: “Vamos fazer com que nossas enormes companhias petrolíferas americanas, as maiores do mundo, entrem, gastem bilhões de dólares, consertem a infraestrutura petrolífera, que está em péssimo estado, e comecem a gerar lucro para o país, e estamos prontos para lançar um segundo ataque, muito maior, se necessário.”
Em linhas gerais, pode-se dizer que Trump usou a presidência para cumprir duas de suas principais prioridades: vingar-se de seus inimigos e enriquecer a si mesmo e sua família. Com a promessa de oferecer aos executivos do setor petrolífero acesso ao petróleo venezuelano, Trump está retribuindo àqueles que contribuíram generosamente para sua campanha presidencial.
Próximos passos de Trump na região
Trump e Rubio também ameaçaram intervir em outros países da América Latina, mencionando Colômbia, Cuba e México. “O domínio americano no hemisfério ocidental nunca mais será questionado”, disse Trump.
Nesse sentido, ele anunciou com orgulho seu alinhamento com os projetos imperialistas dos EUA na região. “A Doutrina Monroe é importante. Mas nós a superamos em muito”, insistiu Trump. “Agora a chamam de ‘Documento Donroe’”, gabou-se, ao associar seu nome à política e chamá-la erroneamente de “documento” em vez de doutrina.
O plano geral de Trump, ao que parece, é retornar a uma ordem mundial organizada em torno de esferas de influência: os Estados Unidos na América Latina e no Caribe; a Rússia nos países do Leste Europeu que estiveram sob o controle da União Soviética; e a China no Extremo Oriente.
A invasão da Venezuela é um passo fundamental para reafirmar a hegemonia dos EUA no hemisfério ocidental.
O primeiro alvo mais provável da Casa Branca é a Colômbia, sob a presidência de Gustavo Petro. Em outubro de 2025, o governo Trump acusou Petro de envolvimento com cartéis de drogas colombianos. Durante a coletiva de imprensa de 3 de janeiro, o presidente dos EUA advertiu: “Ele está produzindo cocaína e enviando para os Estados Unidos, então ele precisa ficar de olho na própria pele”.
Depois da Colômbia, o México pode ser o próximo na lista de alvos de Trump. Em uma entrevista por telefone à Fox News, o presidente dos EUA comentou: “Algo terá que ser feito em relação ao México.” Trump relatou que perguntou à presidente Claudia Sheinbaum se ela queria que os militares dos EUA “ajudassem” a erradicar os cartéis de drogas, e ela supostamente recusou a oferta de Trump. Embora uma intervenção militar no México pareça improvável, é possível que a Casa Branca busque outros meios para pressionar seu vizinho do sul.
Como era de se esperar, o secretário de Estado cubano-americano Marcos Rubio ameaçou com futuras ações contra Cuba, indicando que a mudança de regime na ilha é uma alta prioridade para o governo atual. “Se eu morasse em Havana e estivesse no governo, estaria preocupado — pelo menos um pouco”, disse Rubio. Um dia depois, Trump reforçou as ameaças de Rubio, comentando: “Cuba parece estar prestes a cair”, disse ele. “Não sei se eles vão resistir.”
Trump também aproveitou a oportunidade para ameaçar tomar a Groenlândia para proteger supostos interesses de segurança nacional dos EUA.
Os perigos que se avizinham
A invasão da Venezuela não é um bom precedente para aqueles que se preocupam com o estado da democracia e da soberania nacional nos países da América Latina. A promessa de Trump de doar 20 bilhões de dólares à Argentina, caso o eleitorado vote a favor dos apoiadores do presidente Millei, aliado de extrema-direita de Trump, nas eleições legislativas de outubro de 2025, é outro exemplo recente da grosseira interferência dos EUA nos assuntos internos de outro país.
As ações de Trump devem servir de alerta para aqueles que não se preocupam com a possível interferência dos EUA nas eleições brasileiras de outubro de 2026. Embora o Brasil não esteja atualmente na lista de vingança de Trump, não há garantias de que o país escapará da interferência do presidente americano no resultado das eleições.
É possível que, em conluio com o governo Trump, a extrema-direita brasileira insista que o presidente Lula tem ligações com cartéis de drogas, notícias falsas de primeira ordem que circulam atualmente em círculos de extrema-direita na internet.
No momento, o governo brasileiro não está na mira da administração Trump. Mas isso pode mudar num instante.
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