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Reportagem

Trump usa imagens de ação na Venezuela para recados políticos e controle narrativo

Nicolás Maduro preso foi a imagem mais curtida e compartilhada da Casa Branca no X desde outubro de 2025

Reportagem
12 de janeiro de 2026
16:35
Matheus Pigozzi/Agência Pública

A captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, completa 10 dias nesta segunda-feira, 12 de janeiro. Mesmo com o repúdio das Nações Unidas e da maioria dos países membros da Organização e do esforço do jornalismo local para transmitir informações seguras, a realidade da Venezuela sem Maduro está colocada, mesmo com a possível manutenção do chavismo.

É uma realidade que trará impacto, pelo menos, a toda América Latina, e o Brasil está começando a levantar riscos futuros. Após as mudanças, o que se firma no imaginário são as imagens divulgadas da ação, principalmente nas redes sociais. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem demonstrado que sabe a importância disso para seu futuro político.

Diante dessas fotos e vídeos, o professor do curso de publicidade da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) Bruno Pompeu analisa que eles não operam como simples registro dos fatos, mas como um conjunto de signos que molda a percepção pública sobre eles.

Na coletânea de signos, um Maduro vendado, algemado e titubeante contrasta com salas americanas organizadas, cheias de telas e autoridades em ação. O que se divulga é menos a operação em si e mais uma narrativa visual de vitória, controle e legitimação do poder.

Pompeu faz uma análise semiótica das postagens da Casa Branca, ou seja,  analisa as fotografias não como flagrantes neutros, mas como um “conjunto de signos” que constrói sentidos. Ele chama a atenção para o tratamento técnico desigual entre os dois conjuntos de registros.

As imagens dos EUA apresentam maior nitidez, contrastes marcados e uma iluminação “mais quente”, associada ao dramatismo cinematográfico. Já as de Maduro aparecem menos elaboradas, de acabamento mais “tosco”, o que reforça a ideia de precariedade e derrota.

“Maduro aparece com os olhos vendados sendo levado para algum lugar, sendo transportado sem ter a menor condição de saber para onde estava indo. Portanto, sem qualquer projeção de futuro, sem ter qualquer controle sobre o que virá, sem ter qualquer capacidade de nem sequer compreender o que está acontecendo. Já Donald Trump aparece em diversas imagens cercado de signos, a meu ver, de expansão”, diz Pompeu.

A equipe de reportagem da Agência Pública levantou todas as imagens publicadas pela Casa Branca na rede social X (antigo Twitter) entre 20 de outubro de 2025 e 8 de janeiro de 2026. No período, foram 639 postagens com imagens, que tiveram, em média, 19,2 mil curtidas e 3,7 mil compartilhamentos por publicação.

O post com maior engajamento de todo o período foi justamente o que utiliza a imagem da prisão de Nicolás Maduro — um repost da conta de Donald Trump na rede Truth Social. Ele ultrapassou 416 mil curtidas, mais de 21 vezes a média do perfil no período levantado. Também contou com 81 mil compartilhamentos, praticamente 22 vezes a média do canal.

O que é Semiótica?

É a ciência que estuda os signos, os símbolos e seus significados. Os signos podem ser escritos, visuais, pictóricos, auditivos, ou qualquer produção humana elaborada intencionalmente para ser interpretada por outra pessoa e influenciá-la. A Semiótica é utilizada para desvendar os objetivos de discursos, filmes, fotos e elementos multimídia. Para os estudiosos dessa ciência, as produções podem utilizar diversas linguagens, e por isso a análise deve considerar todos os elementos, como cores, cultura local, posicionamento de objetos, entre outros, para entender quais as mensagens estão sendo emitidas e recebidas naquele contexto.

“Trump aparece também, como todos os outros que estão ao seu redor, de terno escuro, bem cortado e impecavelmente passado, com linhas retas, como se fosse um material sólido, lapidado, muito reto, muito forte, muito robusto e muito organizado. Quando a gente compara com a figura do Nicolás Maduro, é muito contrastante, porque ele está de moletom, de nylon, de tecidos que amassam muito facilmente, tecidos que representam, culturalmente, a derrota”, complementa o professor, citando o estilista Karl Lagerfeld, que chegou a dizer que a roupa de moletom, simbolicamente, representa alguém que perdeu o controle da própria vida.

Por que isso importa?

  • Donald Trump deixou claro que pretende controlar a produção e distribuição de petróleo no país sulamericano, que tem a maior reserva de petróleo do mundo.
  • O presidente dos EUA tem feito declarações onde defende outras invasões na América Latina e na Groenlândia, território da Dinamarca.

“Ele [Maduro] vira uma coisa que é de alguém. Tem esse processo fetichista de coisificação do próprio Maduro, não só de subjugamento, de dominação, mas de coisificação onde todos os elementos da humanidade foram retirados ou intencionalmente construídos para serem retirados”, analisa a professora e pesquisadora de semiótica no Departamento de Relações Públicas da ECA-USP Clotilde Perez.

“Aquelas fotos postadas tinham esse objetivo. Você tira a visão, tira a audição, ele tem dificuldade para andar porque está algemado. Tem vários processos bastante sádicos sendo colocados ali. […] Toda a parte sensível [do ser humano] é extraída”, complementa Perez.

O professor visitante da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Júlio Pinto, chama atenção para outro aspecto central: a tradução visual da lógica de polícia e bandido. Ele lembra que, nos Estados Unidos, o repertório cultural de séries e filmes policiais tornou-se um código compartilhado com enorme popularidade. 

A linguagem oficial da Casa Branca, segundo Pinto, associa sistematicamente o presidente venezuelano à figura do “narcoterrorista”, fundindo crime e terrorismo e legitimando respostas de exceção.

Para o professor da UFPB, a imagem do corpo encurvado de Maduro, “um homem alto de quase 1,90m”, potencializa o contraste entre “winner e loser”, categorias profundamente enraizadas na cultura política americana. A mensagem que se difunde ao público internacional, afirma, é dupla: os EUA aparecem como vencedores e disciplinadores, enquanto a América Latina é reposicionada no velho papel de espaço tutelado.

“Todo esse sistema, que vem sendo construído desde Hollywood, […] em que se tem sempre o mocinho versus o bandido, os brancos contra os índios. Sempre matando os índios, os esquisitos, os diferentes. Esse conjunto simbólico funciona como uma espécie de argumento, um dispositivo mental que controla, inclusive, as interpretações que as pessoas vão ter”, avalia Pinto. Para o professor, a fotografia de Maduro capturado ao lado de agentes estadunidenses “cria uma mensagem simbólica para todo mundo que os Estados Unidos são o povo vencedor, e ao mesmo tempo, [ainda gera] aplausos da extrema direita no Brasil”, argumenta.

Outro post publicado pela Casa Branca, com Trump junto ao secretário de Estado, Marco Rubio, durante a operação na Venezuela, alcançou 138 mil curtidas e 18 mil compartilhamentos, ou seja, é sete vezes mais do que a média de curtidas da conta e quase cinco vezes mais a média de compartilhamento.

Segundo Perez, quando o presidente dos EUA aparece cercado por sua equipe, “homens brancos, potencialmente héteros, de ternos azuis sobre mesas pretas, onde o que aparece é a tecnologia, o celular, a tela do computador, [tudo] super tecnológico”, o enquadramento reforça uma lógica de poder e comando e constrói a ideia de uma “situação de guerra” em que Trump ocupa sempre a posição central.

A professora afirma que a geopolítica contemporânea se tornou “mediático-performática”, um ambiente em que nenhuma imagem é neutra. Essa intencionalidade, segundo ela, se apoia numa moralidade simplificadora, típica da lógica adotada por Trump, que organiza a política a partir de dicotomias, “como bem e o mal, o certo e o errado”.

Essa narrativa provoca simultaneamente fascínio e medo, segundo Perez. O fascínio está ligado à atração humana pelo poder e pela força; o medo, aos recados implícitos dirigidos a adversários e países “não alinhados”. Na leitura dela, as imagens dizem, de forma indireta, “ou você se alinha, ou esse pode ser o seu destino”.

Passar a mensagem é mais importante do que engajar

Embora a estética performática — com Trump em destaque e uso recorrente do preto e branco — apareça de forma consistente ao longo do período, ela não garante, por si só, maior engajamento.

O que os números mostram é menos um padrão contínuo e mais a existência de picos de atenção concentrados em momentos específicos, quando essa linguagem visual é acionada para narrar, de forma dramatizada, episódios de confronto, captura ou vitória simbólica.

Quando a Casa Branca postou fotos oficiais do encontro entre o norte-americano e o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, a posição entre os dois seguiu a mesma estrutura. Na primeira foto em que Zelensky aparece, o foco está mais em Trump, reforçando a ideia de que o presidente dos Estados Unidos é mais forte que os demais. As cores quentes, o  posicionamento de câmera e a postura de Trump, corroboram a visão expansionista relatada pelos especialistas ouvidos pela Pública e a atual relação entre os dois países: um fortalecido, Estados Unidos, e outro precisando de apoio, Ucrânia.

A foto do encontro entre Trump e Zelensky, apesar de empregar recursos recorrentes da iconografia trumpista, registrou cerca de 4 mil curtidas e 921 compartilhamentos, quase 5 vezes abaixo da média de curtidas do perfil. Este post é um dos 37 que usa as fotos em preto e branco no período analisado.

Já a foto em preto e branco publicada logo após a captura de Maduro, com um retrato de Trump e a gíria FAFO, do termo em inglês F_ck Around and Find Out (que significa para os norte-americanos algo como “procure e você vai achar”), teve aproximadamente 10 vezes mais curtidas que a média do canal e oito vezes mais que a de compartilhamento. Trata-se de mais um exemplo em que a análise iconográfica mostra um Trump superior, além de reforçar a visão expansionista dos EUA.

A Casa Branca postou, em 31 de dezembro do ano passado, no X, uma  retrospectiva das frases do ano de 2025, e reutilizou a frase “Peace Through Strength” (paz através da força, em tradução livre). A expressão ficou conhecida quando o ex-presidente republicano dos Estados Unidos, Ronald Reagan, a proferiu.

O post teve mais de 380 mil visualizações, 9 mil curtidas e 583 compartilhamentos, o que ficou abaixo da média de curtidas e compartilhamentos da Casa Branca. Não foi a primeira vez que a frase apareceu no perfil da Casa Branca durante o governo Trump. Em outubro, uma foto com o presidente Donald Trump levantando as mãos e a frase, teve mais de 700 mil visualizações, 4,4 mil compartilhamentos e 23 mil curtidas, ultrapassando as respectivas médias do levantamento.

Segundo Bruno Pompeu, o padrão — da figura de Donald Trump ocupando quase sempre o centro da narrativa visual — revela uma personificação da instituição, em que Trump se torna tão ou mais importante que a própria Casa Branca. Fotografado em primeiro plano, frequentemente de baixo para cima ou com o fundo desfocado, o presidente aparece maior que os demais, com postura rígida, ombros angulosos e cercado por símbolos nacionais como a bandeira e a águia.

“Naquela versão dele, como se fosse um super-herói, os ombros são amplificados ainda mais. Por exemplo, na foto em que ele aparece com a primeira-ministra do Japão, ele é muito maior do que ela. Os ombros dele estão acima, quase que acima da cabeça dela, muito largos, muito angulosos. Tem essa ideia de engrandecer o presidente”, avalia. “E sempre exaltando com um texto muito direto, muito evidente, a importância dos Estados Unidos, e em alguns momentos com ironia, quando se refere aos opositores”, acrescenta.

A Mensagem política de Trump

A relação imagética da captura de Maduro também reforça o posicionamento político de Trump em torno do continente americano, para o doutor em Relações Internacionais pela USP e professor na PUC-SP Arthur Murto. Segundo ele, “é uma política externa não tão diferente daquela que os Estados Unidos empreenderam e estão empreendendo historicamente, mas com essa novidade, uma comunicação rápida, direta, profundamente explícita. Isso é uma novidade, e [é] feita para chocar e para viralizar.”, descreve.

Já o professor associado de Publicidade e Propaganda da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e vice-líder do Grupo de Pesquisa Comunicação Eleitoral da universidade, Ary Azevedo Jr., ressalta que a fusão entre comunicação pública e propaganda governamental existe desde a primeira gestão de Trump, mas atualmente foi levada ao extremo. O professor nota a dramatização em preto e branco, o enquadramento de baixo para cima para engrandecer lideranças. Os textos sempre em vermelho funcionam como marcadores de gravidade e urgência.

O perfil oficial da Casa Branca, logo após a notícia da captura de Maduro, no dia 3 de janeiro, postou em sua conta um vídeo editado, com mais de 4 milhões de visualizações e 30 mil compartilhamentos. Com 163  mil curtidas, oito vezes mais do que média, o vídeo mostra  a potência militar dos Estados Unidos — com caças, mísseis e bombardeamento na Venezuela.

A produção também utiliza um discurso de Nicolás Maduro chamando Trump de “covarde”. Além da comunicação direta, Murta descreve o vídeo como uma mensagem clara aos demais países: “se você for desobediente com os Estados Unidos, nós vamos lhe penalizar de alguma forma”, diz o professor.

Azevedo Jr. avalia que o vídeo, montado no ritmo de videoclipe, aproxima deliberadamente política externa e entretenimento. A gramática é a do engajamento emocional: cortes rápidos, trilhas imponentes, cenas noturnas verdes que evocam “front” militar, alternância entre bravatas e captura. Essa linguagem, observa ele, “reduz a complexidade geopolítica a uma narrativa de ameaça e salvação, ao mesmo tempo que faz eco à propaganda de guerra do século 20, agora remixada em redes sociais de grande alcance”, diz.

Não é uma coincidência que Donald Trump, em entrevista à Fox News, concedida horas depois da invasão à Venezuela, tenha declarado que acompanhou a captura de Nicolás Maduro “ao vivo”, como se estivesse assistindo a um “programa de televisão”.

A declaração foi feita em Palm Beach, cidade do estado norte-americano da Flórida, onde Trump passou o Natal e o Ano Novo. Em outro momento da entrevista, o presidente afirmou que assistiu à ação em uma sala cercado por generais, que “sabiam tudo o que estava acontecendo”. “Eu a vi literalmente como se estivesse assistindo a um programa de televisão. Vimos em uma sala e acompanhamos todos os aspectos”.

A lógica de dominação de Trump tem ligação também com a atualização de doutrinas passadas. Peter Hegseth, secretário de Defesa dos Estados Unidos, chegou a retweetar em sua conta no X uma charge  onde o Presidente Donald Trump está pisando em cima da América Latina com um bastão escrito “Doutrina Donroe” – que junta o nome “Doutrina Monroe” com o nome do presidente, Donald Trump. O post já tem mais de 700 mil visualizações e 2,7 mil compartilhamentos. Já o Departamento de Estado dos EUA, publicou na mesma rede social,  uma imagem de Trump editada em preto em branco com a frase, destacada em vermelho, “This is Our Hemisphere” (Esse é o nosso Hemisfério, em tradução livre) A publicação teve mais de 15 milhões de visualizações e 15 mil compartilhamentos.

Para Arthur Murta, as duas postagens sinalizam de forma explícita uma reedição da Doutrina Monroe, agora sob uma estética contemporânea e abertamente dominadora. Esse enquadramento é reforçado por uma publicação da Casa Branca, com outro vídeo compartilhado no X, onde  venezuelanos comemoram as ações dos Estados Unidos e agradecem ao presidente Donald Trump. O conteúdo teve mais de 32 mil curtidas e 7 mil compartilhamentos, quase o dobro de suas respectivas médias.

Para Murta, esse tipo de reação é mobilizado para legitimar intervenções, ao sugerir que há setores na América Latina que desejam a presença norte-americana e rejeitam a influência da China, da Rússia e de governos de esquerda.

Segundo Clotilde Perez, o uso recorrente de símbolos como a águia revela um autocentramento que atravessa a história e a cultura política dos Estados Unidos. “Os Estados Unidos usam a águia, que é o signo milenar de dominação dos impérios. O Império Romano usava a águia, o Império Bizantino usava a águia, Hitler usava a águia. […] Então se você olha [historicamente], é um país edificado culturalmente na dominação”, conclui.

Edição:
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