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Reportagem

Cão Orelha: porque violência contra animais cresce em grupos online de adolescentes

Em redes como Discord, jovens participam de desafios violentos; animais e meninas estão entre as vítimas mais comuns

Reportagem
4 de fevereiro de 2026
14:19
Matheus Pigozzi/Agência Pública/Freepik

Uma menina de 13 anos faz uma transmissão ao vivo em um grupo da rede social Discord. Ela ateia fogo em um gato enquanto mostra em tempo real aos outros usuários. O animal corre pela casa, alastrando as chamas. Depois, ela posta no grupo: “Botei fogo na casa, daora”.

Essa foi uma das cenas chocantes que as pesquisadoras independentes Tatiana Azevedo e Letícia Oliveira tiveram acesso enquanto monitoravam grupos extremistas no Discord entre 2023 e 2024. “São coisas que eu nunca vou esquecer, mudaram a minha vida”, afirma Azevedo.

Elas publicaram ano passado um relatório sobre situações brutais que ocorrem nos grupos da rede social, chamados de panelas. Crianças e adolescentes estão entre os principais envolvidos em crimes que também incluem incentivo à automutilação e suicídio e estupros virtuais coletivos (em que as vítimas são forçadas a praticar atos sexuais ou se exporem na rede social).

Os atos são chamados de “lulz”, termo usado para designar uma “brincadeira” ou desafio que muitas vezes envolve violência. “Começa com pequenas transgressões, como pichar ou escrever no próprio corpo o nome do grupo, e muitas vezes descamba para atos extremos. Eles fazem isso para ganhar status e serem aceitos”, diz Azevedo.

Agressões contra animais são comuns porque eles oferecem pouca ou nenhuma resistência. Muitas vezes os autores cobravam um valor (como uma assinatura) das pessoas que queiram assistir ao espetáculo macabro.

O caso de Orelha, cachorro comunitário que foi espancado em um bairro nobre de Florianópolis (Santa Catarina) e teve que passar por eutanásia no início de janeiro devido à gravidade dos ferimentos, reacendeu o debate sobre o risco de jovens serem expostos a ideias extremistas em ambientes virtuais sem moderação.

Nesta terça-feira (3 de janeiro), a Polícia Civil de Santa Catarina concluiu as investigações sobre a morte de Orelha e pediu a internação de um adolescente que teria sido o autor das agressões. Além disso, quatro adolescentes foram apontados como autores de uma tentativa de afogamento de outro cão comunitário do mesmo local, chamado Caramelo.

Por que isso importa?

  • Grandes redes sociais têm permitido que grupos troquem mensagens violentas e conteúdo extremista com pouca ou nenhuma moderação.
  • Crianças e adolescentes estão entre os públicos mais vulneráveis para esse tipo de conteúdo.

Os nomes e idades dos adolescentes não foram revelados em atenção ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que prevê sigilo total em casos envolvendo menores de 18 anos. Dois pais e um tio dos jovens também foram indiciados por tentar coagir um vigilante que teria testemunhado o crime.

Até o momento, não há indícios de que os adolescentes faziam parte de grupos extremistas online. Porém, especialistas apontam que situações como as de Orelha e Caramelo são sintomáticas de um processo de radicalização.

“O zoosadismo é um grande indicador de radicalização e um passo grande para a mobilização à violência. A gente tem visto a violência como uma moeda social. Quanto mais sádico e perverso, maior estatuto interno dentro da minha rede, da minha panela, eu tenho”, disse o procurador Fábio Costa Pereira, que integra o Projeto Sinais, de prevenção a violência extrema praticada por jovens e adolescentes, nas redes sociais do Ministério Público do Rio Grande do Sul.

Para o procurador, as famílias precisam ter cuidado com a maneira que os jovens usam a internet. “Esses adolescentes têm acesso ilimitado a telas porque as famílias permitem”, ele continua. “Muitas das nossas crianças e adolescentes passaram a viver no mundo digital sem a percepção das consequências catastróficas que elas têm no mundo real.”

Animais e meninas são as principais vítimas de grupos violentos nas redes

Um dos indícios de que os jovens são os mais afetados é que episódios violentos monitorados pelas pesquisadoras no Discord aumentaram durante a pandemia e, depois, em períodos de férias escolares. “São momentos em que os adolescentes ficam em casa e podem usar a internet livremente. Por isso o ECA Digital (medidas que visam proteger menores de 16 anos nas redes sociais, que começam a valer em março) é tão importante”, afirma Oliveira.

Segundo as autoras, as maiores vítimas de violência nos grupos são meninas e animais. “As vítimas são predominantemente do gênero feminino. Animais como gatos, cachorros, pássaros, sapos e outros animais de pequeno porte são frequentemente violentados em sessões de tortura animal. Os agressores são, majoritariamente, do sexo masculino”, diz um trecho do relatório.

Entre os episódios narrados no relatório, está o de um adolescente de 17 anos do Rio Grande do Sul que furtou, torturou e matou um cachorro e transmitiu ao vivo pelo Discord. Outro de Goiás fez uma live enquanto maltratava e enforcava um cão. 

Azevedo ainda conta ter presenciado o momento em que uma menina foi obrigada pelos outros participantes a praticar atos de zoofilia com um cachorro. Ela explica que líderes dos grupos, principalmente meninos, coagem meninas a fazerem o que eles querem ameaçando expor vídeos íntimos ou as expondo aos pais. “Elas vão ficar traumatizadas para o resto da vida”, acredita.

Quem maltrata animais pode agredir pessoas

No ano passado, o Brasil teve 13 denúncias de maus-tratos a animais por dia – quase 5 mil no total. Houve um aumento de 20% em relação a 2024. Santa Catarina, terra de Orelha e Caramelo, foi o segundo estado com mais notificações em 2025, atrás apenas do Rio Grande do Sul.

ONGs de proteção de direitos dos animais pontuam que os casos de violência quase nunca são isolados. “Dois pesquisadores norte-americanos no começo da década de 1980 entenderam que a violência é uma só. As pessoas que abusam e violentam animais podem violentar pessoas ou vice-versa”, afirma Rosangela Gebara, diretora de relações institucionais da ONG Ampara Animal. 

Os pesquisadores citados, Phil Arkow e Frank Ascione, criaram a Teoria do Elo, que identifica uma conexão próxima entre a crueldade animal e a violência doméstica contra mulheres, crianças e idosos, alvos considerados vulneráveis. Estudos sobre serial killers apontam que quase todos eles tiveram episódios de maus-tratos a animais – como o Maníaco do Parque ou Jeffrey Dahmer.

“Se você tem criança ou adolescente muito violento contra animais, isso tem que ser investigado do ponto de vista psiquiátrico. Não se pode dizer que é coisa de criança. Pode ser um fator preditivo, precoce, de pessoas desajustadas que poderiam cometer crimes piores”, diz Gebara.

No Brasil, frequentemente as punições a pessoas acusadas de maus-tratos a animais são brandas ou substituídas por penas alternativas – com exceção dos casos que mobilizaram a opinião pública.

A primeira pessoa condenada por crueldade animal no país é Dalva Lina da Silva, presa em 2018. Ela se apresentava como protetora de animais, mas ONGs desconfiavam que os cachorros e gatos entregues a ela eram adotados muito rapidamente. Um detetive particular a acompanhou por quase um mês e identificou mais de 30 corpos de animais mortos em sacos de lixo que ela deixava na rua de sua casa. Segundo as investigações, eles recebiam injeções letais de uma substância controlada. A mulher recebeu pena de 12 anos de prisão, posteriormente ampliados para 17 anos.

Os casos de maior repercussão foram responsáveis pelas mudanças na legislação penal nos últimos anos. Entre os episódios mais emblemáticos está o da cadela Manchinha, em 2018, atacada e envenenada por um segurança na frente de uma unidade do Carrefour em Osasco (São Paulo). A violência gerou protestos nas ruas e redes sociais, contribuindo para consolidar no Congresso um projeto de lei que revisou as penas por maus-tratos a animais domésticos. 

Em julho de 2020, o caso do pit bull Sansão – mutilado com a remoção das patas traseiras em Confins (Minas Gerais) – ensejou a aprovação da chamada Lei Sansão, em 2020, que aumentou a pena para quem cometer abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar cães e gatos.

O episódio de Orelha deslanchou debates sobre possíveis alterações legislativas, inclusive propostas recentes para aumentar ainda mais as penas ou vedar a substituição de pena privativa de liberdade por restritiva de direitos para crimes de maus-tratos.

Um dos projetos de lei apresentados recentemente trata da proteção de animais comunitários, como Orelha e Caramelo. Se aprovado, o texto reconhece a existência de milhares de animais sem lar fixo e prevê programas de incentivo para pessoas e comunidades responsáveis pelos cuidados com eles. Ainda não há previsão de quando será votado.

Conteúdo extremista se espalha pelas redes quase sem controle

Segundo estudo do Núcleo de Estudos da Violência Universidade de São Paulo (USP), entre 2001 e 2024, houve 49 ataques a escolas no Brasil. Entre eles, há um padrão de comportamento: os autores frequentemente estavam vinculados a comunidades digitais, como Discord, X, Telegram e TikTok, e eram, em sua maioria, jovens, brancos e do sexo masculino.

Apesar do conteúdo extremista estar presente em quase todas as redes, o Discord parece ser o ambiente preferido pelo seu modo de funcionamento. A rede é formada de grupos fechados, cujo conteúdo veiculado internamente não é acessível para quem está fora e sofre pouco controle de moderação. Para entrar, é necessário ter um convite e muitas vezes passar por uma entrevista. Além disso, boa parte do conteúdo é transmitida ao vivo, e não fica gravada após ser encerrada.

Investigações mostraram que o Discord foi palco do planejamento de uma série de atos violentos, como um ataque a bomba no show da cantora Lady Gaga no Rio de Janeiro em 2025, que foi desarticulado pela polícia após uma denúncia anônima, e atentados contra pessoas em situação de rua em quatro estados em abril de 2025.

Em 2023, a rede foi associada a ataques armados em escolas no Brasil. Representantes da empresa, junto com outras big techs, como X (antigo Twitter) e TikTok, foram chamados a tomar providências pelo então ministro da Justiça, Flávio Dino. De lá para cá, porém, pouca coisa mudou. 

Para Tatiana Azevedo, que em seu período infiltrada observou como as redes sociais são permissivas com o acesso de menores de idade a discurso de ódio, nada realmente deve mudar se não houver responsabilização das grandes empresas de tecnologia.

“Algumas têm iniciativas incipientes de controle, outras simplesmente lavam as mãos”, afirma. “Tem que haver um investimento muito grande das big techs em dinheiro e em ações que busquem mudanças reais, não só pra tampar buraco, senão ação policial nenhuma vai ser suficiente.” Ela cita como exemplo a iniciativa do Roblox de vedar a conversa entre menores, que, em vez de resolver o problema, também criou um mercado de venda de contas verificadas.

Edição:
Reprodução Redes Sociais

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