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Trump está perdendo a guerra no Irã

O presidente dos EUA subestimou as consequências políticas internas ao juntar-se a Israel

Coluna
10 de março de 2026
12:00

Foi-se mais uma semana de intensos bombardeios ao Irã pelas forças aéreas dos EUA e de Israel. Mas a verdade é que Trump iniciou uma guerra que talvez não consiga vencer e que provavelmente lhe trará sérias consequências políticas nos Estados Unidos. Por outro lado, a decisão da liderança clerical do Irã de nomear Mojtaba Khamenei para substituir seu pai, Ali Khamenei, como líder supremo – uma escolha considerada inaceitável por Trump – revela a obstinada resiliência do regime iraniano.

Em um vídeo de oito minutos gravado em Mar-a-Lago nas primeiras horas da manhã de sábado, 28 de fevereiro, pouco antes de os Estados Unidos e Israel realizarem uma “operação massiva e contínua” que, horas depois, aniquilou a liderança da República Islâmica do Irã, Trump delineou seus objetivos de guerra.

Sua meta principal era “defender o povo americano eliminando as ‘ameaças iminentes’ do regime iraniano”. Para isso, declarou que os Estados Unidos pretendiam “destruir seus mísseis e arrasar sua indústria de mísseis”. Cinicamente, lamentou a falta de vontade dos iranianos em negociar, embora o governo americano já estivesse planejando a guerra há algum tempo, mesmo enquanto seus representantes participavam, justamente, de negociações com representantes iranianos. Em seguida, conclamou os membros da Guarda Revolucionária Islâmica, das Forças Armadas e de toda a polícia a deporem suas armas “para receberem imunidade total ou, alternativamente, enfrentarem morte certa”. Por fim, apelou ao povo iraniano para que “assumisse o controle do governo” quando os bombardeios cessassem, alertando-os de que “esta provavelmente será sua única chance por gerações”. 

Vale deixar claro: até o momento, nenhum destes objetivos foi atingido. 

Desde essa declaração, Trump não se dirigiu mais aos norte-americanos nem concedeu uma coletiva de imprensa para detalhar seus objetivos e motivos para a guerra. Em vez disso, teve breves conversas telefônicas com diferentes jornalistas na última semana para oferecer justificativas múltiplas e contraditórias.

Por exemplo, em uma conversa com um repórter da Axios no sábado, 28 de fevereiro, Trump apresentou um relato otimista da campanha militar, vangloriando-se: “Posso prolongar o processo e assumir o controle de tudo ou encerrá-lo em dois ou três dias”. No dia seguinte, comentou ao Daily Mail que “sempre foi um processo de quatro semanas”. Depois, em uma breve entrevista com o New York Times, o presidente repetiu a previsão mais pessimista, admitindo que poderia levar “de quatro a cinco semanas”. Em seguida, sugeriu que esperava que a Guarda Revolucionária Islâmica simplesmente entregasse suas armas e, então, referiu-se à sua incursão na Venezuela e à continuidade do regime de Maduro, sem o presidente deposto, como seu modelo para o Irã.

Como resultado, a maioria dos analistas políticos nos Estados Unidos desistiu de tentar entender o plano estratégico de Trump para o Irã, em parte porque concluíram que ele não tem nenhum. As justificativas que o governo Trump apresenta sobre por que o presidente está travando uma guerra com o Irã continuam mudando, aumentando ou diminuindo sua importância para a Casa Branca.

Trump também não tem um plano estratégico para “vencer” a guerra e instalar um governo que “trate bem os Estados Unidos e Israel”, nas suas palavras. É possível que os governos dos EUA e de Israel simplesmente continuem bombardeando o Irã — matando milhares de civis, além de alvos militares — por mais algumas semanas. Trump poderia então declarar unilateralmente que o Irã foi derrotado e que os Estados Unidos venceram a guerra. Esse cenário, no entanto, não oferece nenhuma garantia de que haverá uma mudança de regime, como Trump parece acreditar que acontecerá.

Trump declarou recentemente que precisa estar envolvido na escolha do próximo líder do Irã, o que obviamente não aconteceu. Ele também espera que os líderes iranianos se rendam incondicionalmente aos Estados Unidos. Seus comentários demonstram o quão pouco ele entende sobre o Irã ou o Oriente Médio. Essa falta de conhecimento certamente o prejudicará no futuro. 

Vamos ver se isso pode ajudar. 

Nacionalismo iraniano

Durante o regime de Mohammad Rezi Pahalevi (1941-79), o Xá do Irã, bem como sob a República Islâmica, os iranianos foram ensinados com orgulho que seu país é o berço de uma das civilizações mais antigas e contínuas do mundo, a civilização persa. O Xá promoveu essa ligação com o passado persa do país para justificar, interna e externamente, seu controle imperial e absolutista sobre a nação.

Os atuais governantes do Irã utilizam um discurso nacionalista semelhante contra invasores estrangeiros. Eles combinaram essa narrativa com justificativas teológicas e crenças religiosas de que os muçulmanos xiitas — residentes no Irã, Iraque, Azerbaijão e Bahrein, com grandes comunidades no Líbano, Iêmen, Paquistão e Índia — são os intérpretes legítimos dos ensinamentos do Profeta Maomé, o fundador do Islã. Assim, seus inimigos estrangeiros não são apenas os Estados Unidos e Israel, que apoiaram o Xá e se opõem à República Islâmica, mas também árabes sunitas “equivocados”, que permitem bases americanas dentro de suas fronteiras. O aiatolá do Irã é o líder religioso de todo o mundo xiita.  

No final de fevereiro, às vésperas da guerra, o Conselho Nacional de Inteligência do governo dos EUA preparou um relatório concluindo que mesmo um ataque militar em larga escala provavelmente não levaria ao colapso do regime atual. A maioria dos especialistas independentes no Oriente Médio concorda que a Guarda Revolucionária Islâmica é uma instituição profundamente enraizada no governo do país, com enormes estoques de armas e capacidade militar para sufocar quaisquer protestos generalizados sem colocar em risco a existência do regime. As agências de inteligência também concluíram que as forças de oposição, tanto dentro do país quanto no exterior, são fracas e divididas.

Parte da confusão decorrente das declarações de Trump sobre o Irã tem a ver com a Venezuela. O presidente dos EUA ainda está eufórico com o que considera uma “operação inacreditável” na qual forças especiais, usando “todo o poderio militar” capturaram o presidente venezuelano Nicolás Maduro, causando temor entre os adversários dos EUA. Trump projetou essa confiança no conflito com o Irã.

Uma guerra sem fim

Imediatamente após eliminar a liderança do Irã, Trump previu que a guerra duraria de quatro a cinco semanas. Depois, admitiu que “poderia durar mais do que isso”. Esse comentário preocupou alguns na direita, que têm sido seus apoiadores mais leais.

De fato, as consequências podem ser grandes. Desde que entrou na arena política, Trump tem pregado contra as intervenções estrangeiras dos EUA no que tem sido chamado de “guerras sem fim”. Inicialmente, ele apoiou a invasão do Iraque pelo presidente George W. Bush em 2003 para destruir seu suposto arsenal de armas de destruição em massa. No entanto, à medida que a oposição à guerra aumentou, Trump começou a criticar abertamente a invasão e ocupação do Iraque.

Nas campanhas presidenciais de 2016 e 2020, ele atacou os governos de Obama e Biden por manterem o envolvimento dos EUA em guerras no Oriente Médio. Ele criticou duramente os esforços de “mudança de regime” e atacou as tentativas do governo Bush de fazê-lo no Iraque.

O slogan de Trump, “América Primeiro”, tornou-se uma crença central de seus apoiadores mais fervorosos. Eles argumentam que os Estados Unidos estão desperdiçando bilhões de dólares e pondo em risco a vida de milhares de jovens soldados em guerras fúteis em terras distantes. Eles insistem que, em vez de promover uma “mudança de regime” no exterior, o presidente deveria se concentrar nos problemas que o povo americano enfrenta.

Ironicamente, Trump está indo contra o que disse em suas campanhas por duas décadas. E sua guerra não é muito popular. De acordo com uma pesquisa recente da NPR/PBS News/Marist, 56% dos americanos se opõem às ações militares dos EUA no Irã, enquanto apenas 44% apoiam a guerra.

Embora Trump ainda mantenha um apoio significativo entre os republicanos no Congresso, pequenas rachaduras em sua base estão começando a aparecer. Várias figuras proeminentes da direita criticaram duramente o presidente. Pode-se, talvez, desconsiderar Marjorie Taylor Greene, a congressista combativa da Geórgia que rompeu com Trump por sua recusa em divulgar os arquivos de Epstein e se opõe veementemente à guerra.

No entanto, nomes leais a Trump, como o ex-apresentador da Fox News, Tucker Carlson, também criticaram a guerra. Carlson insiste que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, pressionou Trump a entrar em uma guerra que poderia custar milhares de vidas americanas. A jornalista de direita Megyn Kelly ecoou as críticas de Carlson, afirmando que “ninguém deveria ter que morrer por um país estrangeiro”, referindo-se tanto ao Irã quanto a Israel.

Um conflito regional

A resposta do Irã aos ataques EUA-Israel foi o lançamento de mísseis contra Israel e os países do Golfo onde os EUA têm bases militares. O Washington Post acaba de noticiar que a Rússia está fornecendo ao Irã informações sobre a localização de navios de guerra e aeronaves dos EUA, dando ao Irã uma vantagem na guerra. No entanto, quando a Rússia negocia com os Estados Unidos sobre o destino da Ucrânia, Trump acaba elogiando Putin como um aliado importante e confiável – o que revela a leitura ingênua do presidente sobre as intenções políticas de líderes internacionais com quem diz ter bom relacionamento.

A República Islâmica também atacou hotéis em países árabes que dependem fortemente do turismo, causando uma queda projetada de US$ 46 bilhões na receita do setor. O Irã chegou a atacar a Turquia, o que poderia arrastar a OTAN ao conflito. A estratégia iraniana parece ser arrastar toda a região para a guerra, a fim de pressionar Trump a negociar e recuar da obstinação em mudar o regime.

Antes de ser atacados, os países árabes inicialmente permaneceram neutros na guerra, não permitindo que o governo americano usasse suas instalações militares na região. No entanto, depois que os mísseis começaram a causar danos à infraestrutura, refinarias de gás e à população civil, passaram a criticar eduramente o regime iraniano.

De acordo com a NBC News, “Trump discutiu a ideia de enviar tropas terrestres com assessores e autoridades republicanas”. Ele também demonstrou interesse em obter o urânio iraniano e os direitos de extração do petróleo.

Por enquanto, porém, seu governo está considerando apoiar nacionalistas curdos do Irã que estão atualmente acampados do outro lado da fronteira, no Iraque, para realizar incursões militares no Irã. A maioria dos observadores considera que, mesmo que fossem bem-sucedidos, os curdos teriam um impacto limitado no enfraquecimento do governo.

A única força fora do país que apoia ativamente o Irã é o Hezbollah no Líbano. No início da guerra, a organização apoiada pelo Irã lançou mísseis contra Israel, dando ao primeiro-ministro Netanyahu o pretexto para bombardear as posições do Hezbollah no sul e nos arredores de Beirute. Enquanto Israel exige a realocação em massa dos moradores da área visada, o governo libanês parece interessado em usar o conflito para esmagar a influência do Hezbollah no país.

As consequências da guerra nos Estados Unidos

Sem uma estratégia clara do governo americano para o fim do conflito, a guerra já está tendo um impacto global na economia mundial. O Irã efetivamente bloqueou o Estreito de Ormuz, por onde passam 20% de todo o petróleo produzido no mundo. Os preços da gasolina estão começando a subir nos EUA, minando as tentativas de Trump de resolver a questão da acessibilidade ao produto. A bolsa de valores americana caiu e as políticas tarifárias de Trump têm alimentado a inflação. Além disso, o último relatório de emprego indica uma queda de 92.000 vagas em fevereiro.

Nada disso é bom sinal para as chances dos republicanos nas eleições para o Congresso em novembro de 2026, quando os democratas podem assumir o controle da Câmara dos Representantes e possivelmente do Senado. Consultores republicanos já estão preocupados que, se a guerra se prolongar por mais de um mês, isso terá sérias repercussões negativas para o partido manter o controle do Congresso.

Trump, o homem que tanto almejava ganhar o Prêmio Nobel da Paz tornou-se um guerreiro global que luta pela mudança de regimes de outros países. Só ele parece não notar a ironia: embora esteja longe da vitória no Irã, Trump já está de olho em Cuba, a sua próxima vítima.

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