Buscar
Entrevista

Sionismo cristão tem raízes no crescimento evangélico na década de 1990, diz Pacheco

Em entrevista, mestre em teologia Ronilso Pacheco, explica o que é o movimento e suas origens no Brasil

Entrevista
25/02/2022 - Avenida Paulista, São Paulo. Crédito: Jardiel Carvalho / Agência Pública

No início de março, a Fundação pela Liberdade Religiosa Militar (Military Religious Freedom Foundation – MRFF), uma organização de vigilância dos EUA, recebeu mais de 200 queixas de militares americanos (incluindo cristãos, judeus e muçulmanos) relatando que seus comandantes disseram que a operação contra o Irã faria “parte do plano divino de Deus” para iniciar o Armagedom, ou seja, a batalha final entre o bem e o mal, do ponto de vista do cristianismo.

Essas profecias, usadas numa guerra movida pelos EUA e por Israel contra o Irã e contra a Palestina, remetem a algo um pouco mais complexo e cada vez mais presente dos discursos cristãos que legitimam genocídios: o sionismo cristão.

Em linhas gerais, o sionismo cristão pode ser definido como um conjunto de crenças e práticas que articulam apoio religioso, simbólico e político ao Estado de Israel, fundamentado na ideia de que os judeus possuem, por graça divina, o direito à posse da terra prometida. Ele se baseia na interpretação de passagens bíblicas que atribuem a Israel papel central no plano divino para a humanidade e na crença de que esse papel deve ser apoiado pelos cristãos. Para muitos de seus adeptos, abençoar Israel é condição para receber a bênção de Deus.

Para conversar sobre esse tema cada vez mais urgente, o Pauta Pública recebe Ronilso Pacheco, mestre em teologia e ativista dos direitos humanos, que acabou de lançar, ao lado de Michel Gherman, que também já esteve no Pauta, o livro Diálogos em tempos difíceis, publicado pela Editora Fósforo.

EP 210 O que é sionismo cristão?

Teólogo e ativista de direitos humanos, Ronilso Pacheco fala sobre sionismo cristão e sua influência na política mundial

0:00

Ronilso, começando com o sionismo cristão. Ele existe há muito tempo, mas o conceito tem se popularizado, sobretudo, depois da invasão de Israel à Palestina. O que é o sionismo cristão?

É um tema controverso, existe certa resistência em um determinado campo de analistas, investigadores, mas de maneira geral é […] uma defesa quase que incondicional de Israel, uma defesa de uma simbiose entre território Israel, governo de Israel e a identidade judaica, o sionismo como quase que uma crença direta de que aquele território de Israel é de fato uma terra prometida e todos aqueles ao redor, incluindo a Palestina, eles devem pertencer a Israel.

Então, o sionismo está muito ligado com essa defesa incondicional de Israel, a despeito de quem quer que seja o governo, a liderança.

E de onde vem o sionismo cristão? O sionismo cristão acontece quando nós temos essa fusão entre um campo cristão conservador, majoritariamente evangélico, mas também católico. Por isso a gente fala sionismo cristão, não é um sionismo evangélico, não é um sionismo católico, é um sionismo cristão conservador, que faz essa mistura.

O sionismo cristão tem Cristo como referência, o cristianismo como referência, mas entende esse legado de terra prometida e a ideia de que as nações são mais prósperas na medida em que elas defendem, abençoam Israel.

Israel é uma referência para a prosperidade, pelo menos em perspectiva vinda dos céus, uma nação abençoada por Deus. Na medida em que se reconhece Israel como o povo escolhido, então ele precisa ser defendido, porque é o povo escolhido de Deus.

Esteticamente, o sionismo está muito caracterizado nessa estética do campo evangélico com os símbolos judaicos. Então, numa igreja evangélica, a presença cada vez maior de instrumentos como o shofar, a bandeira de Israel, o uso cada vez mais de linguagens de nomes em hebraico. Aliás, existem comunidades evangélicas que usam muito nome em hebraico.

A liturgia judaica também entra nesse universo evangélico cristão, sobretudo algumas canções do hinário judaico.

Essa fusão a gente chama de sionismo cristão. E ele atende a interesses ultraconservadores desse campo cristão.

Como o sionismo cristão chega no Brasil e por que ele se torna tão popular, sobretudo entre as igrejas evangélicas brasileiras?

Isso não é uma coisa nova, isso é uma crescente, vamos colocar assim, porque, como é um termo que se popularizou muito, muita gente tende a achar que o sionismo cristão é algo que surgiu agora, ou que ele vem no máximo ali do primeiro mandato de Donald Trump, quando emerge esse campo cristão ultraconservador, o nacionalismo cristão nos Estados Unidos, junto dessa defesa de Israel, do governo Netanyahu e tudo mais.

Mas é bom a gente dizer que esse é um crescente que vem já de algumas décadas no Brasil. Eu sou evangélico, cresci numa igreja pentecostal e estou na igreja evangélica desde a década de 1990. E na década de 1990, já tinha um movimento de aproximação com esse judaísmo cultural, a partir da música, da gramática, né?

Era muito comum eu ir a congressos evangélicos, isso na década de 1990, e do nada, no meio do momento de louvor, alguém passava correndo com uma bandeira de Israel. Eu ficava pensando: ‘cara, o que isso tem a ver?’

Depois aquilo foi se tornando comum. Nas conferências, antes de começarem, o pastor pregava e soprava o shofar para poder iniciar o culto.

Ela é muito familiar, não é uma carga que chega como um grande projeto ideológico de adesão ao governo Netanyahu ou de desaparecimento da Palestina ou dos palestinos. Era uma coisa que já era muito familiar no campo evangélico, sobretudo o pentecostal e neopentecostal.

Então, sobre a sua pergunta, de quando surge, é difícil estabelecer um momento, mas eu diria que tem uma virada a partir da década de 1990, que é significativa quando esse movimento começa a acontecer.

Você tem ali em Minas Gerais um movimento que começa a partir da música e de alguns pastores que são grandes referências naquela época, Lagoinha, a Igreja Batista de Contagem, que fazia muito esse trânsito, esse diálogo com esse judaísmo cultural.Isso criou um ambiente, e, quando tudo isso explode, você tem mais comunicação, você tem mais rede social, essas ideias encontram um terreno fértil.

Minha irmã, que é falecida, era evangélica da Assembleia de Deus. E era muito interessante que ela, ao invés de perguntar o nome do presidente de Israel, ela perguntava quem era o rei atual de Israel. Ainda tinha aquela ideia do Israel bíblico, mítico e tal.

E isso vem por uma influência dos pastores e missionários norte-americanos, Ronilso? Porque essa época que você fala da década de 1990, era também dos pastores televisivos, dos missionários norte-americanos que lotavam arenas, né?

Sim, sem dúvida tem uma influência. Eu resisto à ideia de falar pura e simplesmente dessa influência dos Estados Unidos […], mas essa estética judaica, ela tem pouca força de influência nos Estados Unidos.

O que acontece é que também o movimento evangélico brasileiro faz o seu movimento em direção a Israel. Em muitas igrejas, todo ano tinham caravanas para Israel, de beber nessa fonte, para buscar em Israel uma inspiração comum. Tinha toda uma história de como um país tão pequeno sobrevive com tantos inimigos ao redor, se não fosse a presença de Deus ali para mantê-lo tão forte.

Eu tinha um pastor na minha igreja que ele falava: ‘olha a quantidade de prêmio Nobel que Israel tem com tão pouco tempo de vida’, sabe? Então, todas essas coisas grandiosas, eram extremamente inspiradoras.

Você tem um movimento que é quase que autônomo. É um movimento de pastores e lideranças, sobretudo pentecostais brasileiras, que fazem essas caravanas e voltam fazendo esse diálogo, fazendo essa estética. Hoje é uma bandeira, amanhã é uma estrela de Davi, depois é um nome hebraico, depois é reproduzindo uma liturgia com a imagem da Arca da Aliança, todos esses símbolos judaicos…

Então, eu diria que mais do que uma influência [dos EUA], eu diria que existiu uma conversa. Por que eu estou falando conversa? Porque também ocorreu no sentido inverso. Hoje, sobretudo, o Brasil é um exportador dessas performances, dessas características religiosas e desse tipo de sionismo cristão, dessa adesão a Israel.

Para não imaginar que é puro e simplesmente algo que vem dos Estados Unidos, eu diria que tem uma conversa e tem, inclusive, uma certa autonomia do Brasil nesse movimento.

Edição:
Arquivo pessoal

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 210 O que é sionismo cristão?

Teólogo e ativista de direitos humanos, Ronilso Pacheco fala sobre sionismo cristão e sua influência na política mundial

0:00

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Artigos mais recentes