Buscar
Nota

Articulação dos Povos Indígenas vai ao STF contra derrubada de vetos do Marco Temporal

14 de dezembro de 2023
14:52
Este artigo tem mais de 2 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

O Congresso Nacional derrubou hoje (14) parte dos vetos feitos pelo presidente Lula (PT) na Lei 14.701/2023 — na prática, isso retoma a tese do Marco Temporal, que foi barrada pelo presidente, além de outros pontos criticados pelas organizações indígena e vetados pelo mandatário. A estratégia da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) é reagir de imediato. Segundo a Agência Pública apurou, assim que a lei for novamente sancionada, o que deve ocorrer em até 48 horas após a votação, a entidade vai ingressar com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) no Supremo Tribunal Federal (STF), pleiteando a derrubada da maior parte dos dispositivos da lei. Em setembro, a Corte considerou a tese inconstitucional.

A Pública teve acesso à ADI que a Apib pretende protocolar. No peça, a organização aponta, além do marco temporal, outros pontos considerados inconstitucionais. Entre eles está a alteração da Constituição por lei ordinária e a relativização da distinção entre posse tradicional indígena e posse civil.

A votação de vários vetos a diferentes projetos de lei ocorreu nesta quinta-feira (14) em sessão conjunta da Câmara Federal e do Senado. A Frente Parlamentar Agropecuária (FPA) tenta retomar o texto aprovado pelos parlamentares que institui a data da promulgação da Constituição de 1988 como “marco temporal” para a ocupação indígena, o que inviabilizaria a demarcação de territórios em que os indígenas foram expulsos e não habitavam à época. Além disso, os ruralistas também querem retomar pontos que afetam o usufruto exclusivo das terras indígenas. O projeto foi apelidado de “Lei do Genocídio Indígena” pela Apib.

A reportagem conversou com o coordenador jurídico da organização, Maurício Terena, para quem “não resta dúvida de que o STF vai manter a decisão de inconstitucionalidade do Marco Temporal”. “O que está pendente do debate vai ser justamente às questões relacionadas a outros dispositivos que a lei também preceitua. Exploração econômica, transgênico, flexibilização da política de não contato. Isso o STF ainda não tem decidido. Em nossa análise, a gente entende que existem subsídios jurídicos que comportam toda uma incondicionalidade dessas matérias, mas o Supremo não tem nada decidido em relação a isso”, diz.

Na visão de Terena, a aprovação da lei pelo Congresso foi “uma afronta ao entendimento do Supremo”. “Nossa perspectiva é, acima de tudo, reafirmar a constitucionalidade do direito dos povos indígenas, mas também reafirmar um posicionamento que os povos indígenas hoje podem litigar pelos seus direitos através da Apib, que tem sua assessoria jurídica indígena própria”, afirma o advogado.

A aprovação da lei no Congresso, depois de anos de discussão, ocorreu de maneira acelerada, em reação ao avanço do julgamento do tema no STF: em 30 de maio, a Câmara aprovou o projeto em regime de urgência; em 27 de setembro, o Senado aprovou o texto vindo da Câmara na íntegra na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e no plenário, remetendo o PL para o presidente. 

A aprovação ocorreu no mesmo dia em que o Supremo finalizou o julgamento, considerando a tese do Marco Temporal inconstitucional. O tribunal indicou um “caminho do meio”, levantando a possibilidade de indenizações pelo valor da terra nua – e não somente pelas benfeitorias, como ocorre atualmente – às fazendas que se sobrepõem às terras reivindicadas pelos indígenas. Um levantamento da Pública mostrou que essas indenizações podem custar mais de R$ 1 bilhão aos cofres públicos.

Em 20 de outubro, Lula sancionou o projeto com 34 vetos, barrando vários dos pontos considerados mais problemáticos por organizações indígenas, incluindo o estabelecimento do marco temporal.

Edição:

Notas mais recentes

STF define rumo do embate Moraes x Mendonça, e TSE lida com prazos finais para as eleições


Instituto de André Mendonça é alvo de representações para investigar irregularidades


Com despesas pagas pelos EUA, ida de procurador a evento sobre Irã é cancelada pela PGR


Semana tem presidenciáveis no 7 de setembro e STF na apuração sobre denúncias de ministros


PEC da Segurança Pública: votação fica para depois do 1° turno com aval de relator do PT


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Na urna com o ex: Rivais históricos se unem por espaço e poder nas eleições 2026

|

Antigos adversários superam críticas, ideologias e até acusações de crimes para disputar voto do eleitor em outubro

Espionado por Mendonça em 2020, professor vê “natureza golpista” em atuação de ministro

|

Luiz Eduardo Soares conta como foi monitorado por ordem do atual ministro do STF e critica instrumentalização da Corte
Deputado federal Mário Frias durante sessão na Câmara dos Deputados

Como Mário Frias chegou ao centro da máquina de propaganda da família Bolsonaro

|

Ex-ator foi colocado na política por Jair para juntar cultura e armas em estratégia olavista de guerra ideológica
Foto mostra modelo atual de urna eletrônica usada nas eleições brasileiras

Ministério Público Eleitoral impugna 15 candidatos em SP ligados a crimes, dois ao PCC

|

Órgão contesta 557 registros e utiliza nova regra do TSE para afastar crime organizado da política
Flávio Bolsonaro (PL) participou no sábado 29 de agosto de um ato de campanha à Presidência em Angra dos Reis (RJ) ao lado do candidato a deputado federal, o empresário Renato Araújo, também do PL

O amigo do Flávio Bolsonaro em Angra dos Reis

|

Quem é Renato Araújo, candidato a deputado que cresce no círculo dos Bolsonaro assim como os problemas ao seu redor

Congresso travou regulação de câmeras corporais enquanto letalidade policial batia recorde

|

Câmeras corporais de policiais se tornaram campo de disputa política que vai muito além da responsabilização por abusos