EP 2 A senzala é de casa
Balas, refrigerantes coloridos e comerciais de TV formam um cenário afetivo da infância de milhões de brasileiros. E poucas coisas são tão “memória” para um pernambucano quanto o açúcar. Ed admite seu vício e mostra o impacto que ocorre ao decidir cortar o doce da dieta, um enfrentamento que vai além de um simples hábito alimentar e que passa por sua construção social.
Ed retorna a Pernambuco, onde o açúcar não é apenas ingrediente, mas parte da história, e expõe um retrato complexo de uma economia construída sobre a cana, a escravidão e as desigualdades sociais, mesmo que amparada nas receitas de família. A investigação mostra como cultura, identidade e memória tornam o açúcar quase impossível de abandonar e o quanto esse legado cobra um preço.
Confira abaixo o roteiro do episódio na íntegra:
[Ed Wanderley]: Das memórias mais vívidas que tenho de quando ainda nem me entendia por gente, talvez seja a emoção ansiosa do quebra-panela que me arranque sorrisos saudosos com mais facilidade. Não tem amizade certa quando a pinhata brasileira de pobre está em disputa. Vendado, um cotoco humano avança munido de uma vassoura com um prego nada seguro na ponta e se aproxima do látex de uma bexiga inflada por ar e guloseimas 80% gordura hidrogenada e 20% pedacinho de paraíso. Pirulito do Zorro, Xaxá, 7Belo, chocolate da Mônica, Tablete Surpresa de dinossauro, goma de mascar Ploc meio a meio. Meninos correndo, subindo pelas paredes, supercílio sangrando, dedão do pé arrancado e eu, lá, com a camisa esticada, cheia de balas – confeitos, como chamamos no Recife. Esse, aliás, era um dos únicos momentos em que um corpo largo, volumoso, te confere vantagem competitiva na selva da infância. Depois, desembalar as dezenas de porções zero nutritivas em frente à TV. Com um copo de Baré Tutti Fruti ao lado, assistindo famosos deslizantes na banheira do Gugu. Ah, os anos 90…
[música de propaganda do Guaraná Antárctica]
[música de propaganda da Elma Chips e promoção com Tazos Tiny Toon]
[música de propaganda do chocolate Tortuguita]
[Ed Wanderley]: Os intervalos comerciais já foram uma grande festa de cores, luzes e canções apelativas. Para mim, nada foi tão fortemente associado à infância quanto o açúcar. E ele foi o primeiro elemento crucial do qual tive que me abster 100% para iniciar uma mudança significativa na saúde. A partir do segundo mês fora do hospital, após tentar inutilmente apostar em jejuns irresponsáveis, foi a hora de apostar em novas fórmulas. Não tirei o pé da academia. Uma, duas vezes por dia, inclusive nos fins de semana. E protagonizei o meu próprio 50 tons de verde, fazendo as pazes com saladas que não ingeria desde que deixei de ser colocado de castigo por rejeitar comida, nos idos tempos da educação bruta, do engole o choro e come. As semanas mais naturebas da minha existência me renderam menos 8 quilos na balança. Eu ainda tinha 36 anos, ainda com capacidade cardíaca em 36%, a morte ainda daria um jeito de me encontrar, mas de algum modo eu sentia estar colocando um pouco mais de distância entre mim e a temida maldição dos 36.
Era um começo, mas eu sentia que uma restrição tinha mais peso que as demais e que ficar sem consumir doces seria um dos grandes motivos dessa marca. Eu precisava investigar melhor essa sensação e essa dependência.
Eu sou Ed Wanderley, e nos próximos minutos eu te conto como eu morri. Esse é o A Última Bolacha, uma jornada que teve início no fim. Depois de um ataque cardíaco aos 36 anos, durante um show de Paul McCartney, meus caminhos pessoais e profissionais se misturaram. Nos meses seguintes, passei a investigar não apenas para reportar, mas para reaprender a viver. Foram dezenas de documentos lidos, entrevistas conduzidas, 6 mil quilômetros rodados e, enfim, mais de 50 quilos eliminados. Agora, eu levo você comigo a cada passo.
Neste episódio, você desembarca comigo em Pernambuco, minha terra, para entender o quão sozinho estou nesse vício em açúcar, principal entrave na minha jornada contra a obesidade por mais de três décadas. E o quanto essa dominância da cana é maturada, caramelizada e despejada não apenas na cultura familiar, mas também molha os beiços de um racismo silencioso que expressa, sem rodeios, um saudosismo dos tempos de colônia.
Episódio 2: A senzala é de casa
[Gravação no avião, registro pessoal de Ed Wanderley]
Senhoras e senhores, bem-vindos a Recife. Permaneçam sentados com cintos de segurança afivelados.
[Ed Wanderley]: O vício em açúcar me acompanha por toda a vida. Adulto, eu consigo perceber o quanto crescer em Pernambuco, especialmente enquanto um preto, fora dos ambientes da elite de sobrenomes tradicionais, significou também me deixar dominar pela especiaria que fez a capitania dos altos coqueiros prosperar enquanto colônia hereditária. A questão que ainda hoje grita é, “prosperar para quem?” E eu fui tentar ouvir de perto se alguém tinha respostas para me ajudar. Eu cresci entre o Conjunto Marcos Freire, em Jaboatão dos Guararapes, e Pau Amarelo, no município do Paulista, onde eu nasci. Somente adulto finalmente me mudei para o Recife, onde já estudava, trabalhava e, enfim, vivia. Eu deixei a cidade há quase uma década. E, apesar de eu já não reconhecer ruas e visuais como a palma da mão, pouco parece ter mudado. Recife tem muitos cheiros, mas alguns despertam memórias mais vívidas. Estamos no Recife Antigo, onde percebo todos eles. Recife tem cheiro de maresia, mijo, biscoito assando e caramelo de pipoca. E se a maior parte dos cheiros de casa são doces, os sabores também são.
[Sonora Entrevista Fala Povo no Recife | Gravação de Ed Wanderley]
[Ed]: Para você, o que mais representa Pernambuco?
[Sonora Entrevista Fala Povo no Recife]
[Du]: Frevo e praia
[Sonora Entrevista Fala Povo no Recife]
[Edjane]: Festa
[Sonora Entrevista Fala Povo no Recife]
[Luiz]: Bolo de rolo, obviamente, né? Mas cuscuz com salsichinha
[Sonora Entrevista Fala Povo no Recife]
[Ca]: Frevo, Maracatu, Chico Science
[Sonora Entrevista Fala Povo no Recife]
[Luiza]: Bolo de noiva
[Sonora Entrevista Fala Povo no Recife]
[Lucas]: Canjica
[Sonora Entrevista Fala Povo no Recife]
[Edjane]: Cajuína
[Sonora Entrevista Fala Povo no Recife]
[Beatriz]: Pamonha, munguzá
[Sonora Entrevista Fala Povo no Recife]
[Tiago]: Tapioca com leite de coco
[Sonora Entrevista Fala Povo no Recife]
[Luiza]: Tapioca, Cartola
[Sonora Entrevista Fala Povo no Recife]
[Elian]: Bolo de rolo, em primeiro lugar
[Sonora Entrevista Fala Povo no Recife]
[Du]: Bolo de rolo
[Sonora Entrevista Fala Povo no Recife]
[Ca]: Bolo de rolo
[Ed Wanderley]: Ritmo. Doces. Açúcar, cana, melaço. Recife é um grande engenho.
[Entrevista com Augusto Lira | Gravação de Ed Wanderley]
[Augusto Lira]: Praticamente, o porto do Recife, a indústria do açúcar, é o que vai fazer com que toda a fisionomia da cidade vá se construindo naquele estreito de terra, digamos assim.
[Ed Wanderley]: Esse é o historiador Augusto Lira, gerente de arquivo histórico da Assembleia Legislativa de Pernambuco.
[Entrevista com Augusto Lira]
[Augusto Lira]: Foram criadas ali alguns engenhos para abastecer essa indústria do açúcar. Também tinha outros produtos, mas o açúcar nessa época vai ser o principal produto. E a partir disso vai se construindo estradas, vai se construindo caminhos para expor esse produto, meios de fazer esse produto chegar até o porto. E é assim que a cidade vai se desenvolvendo naqueles anos.
[Entrevista com Augusto Lira]
[Ed]: Então, essa área toda que é zona oeste, zona norte do Recife, isso tudo era engenho?
[Entrevista com Augusto Lira]
[Augusto Lira]: É. Quando não era mata, era engenho.
[Ed Wanderley]: Era engenho, não. É. Presente. Logo mais você vai entender o porquê.
[Sonora Entrevista com vendedor ambulante | Gravação de Ed Wanderley]
[Ambulante]: Cocada, pastilha, amendoim, bolo de goma, chiclete.
[Sonora Entrevista com vendedor ambulante]
[Ed]: Desses doces aqui o que é que vende mais?
[Sonora Entrevista com vendedor ambulante]
[Ambulante]: Paçoca.
[Sonora Entrevista com vendedor ambulante]
[Ed]: Paçoca o povo gosta muito aqui, né?
[Sonora Entrevista com vendedor ambulante]
[Ambulante]: Paçoca, doce de leite. Aquele bolo de rolo ali, é… Sequilho. Esse bolo de rolo aqui, é.
[Ed Wanderley]: Avenida 17 de agosto, bairro de Casa Forte, área nobre na zona norte do Recife, em Pernambuco. Estamos na calçada do Centro Médico Senador José Ermínio de Moraes.
[Sonora Entrevista com vendedor ambulante]
[Ed]: Mas nessa unidade aqui que o pessoal trata diabetes, essas coisas, né?
[Sonora Entrevista com vendedor ambulante]
[Ambulante]: É.
[Sonora Entrevista com vendedor ambulante]
[Ed]: É o melhor lugar pra vender esse doce aí, né?
[Sonora Entrevista com vendedor ambulante]
[Ambulante]: É.
[Sonora Entrevista com vendedor ambulante]
[Ed]: Quem pode, quem não pode, acaba comprando, né?
[Sonora Entrevista com vendedor ambulante]
[Ambulante]: Ôh.
[Ed Wanderley]: Essa é a unidade pública de maior referência no atendimento ao diabetes em Pernambuco. Segundo a Prefeitura do Recife, são mais de 11.200 atendimentos por ano, e a maior parte deles relacionada à doença. De acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes, no país como um todo, já são aproximadamente 20 milhões de pessoas com a condição no Brasil. De cada 10 conhecidos que você tem, provavelmente um tem o problema, mesmo que ainda não saiba disso. Essa é uma condição causada pela produção insuficiente de insulina, o hormônio que regula a glicose, o açúcar, no sangue. Ou pela má absorção dessa substância em nosso corpo, o que interfere no nosso estoque de energia corporal. O diabetes tipo 2, que responde por 90% dos casos, é justamente quando o corpo não aproveita da melhor maneira a insulina produzida e tem a ver diretamente com sobrepeso, sedentarismo, hábitos alimentares, além de hipertensão e triglicerídeos elevados. Cento e vinte e seis passos. Sim, eu contei. São poucos metros entre o centro de referência do diabetes e o Museu do Homem do Nordeste. Por que isso é relevante? Porque a instalação da Fundação Joaquim Nabuco poderia ser facilmente confundida com um museu da cana de açúcar. Os dois lados da moeda, aqui, são os dois lados da avenida.
[Sonora Entrevista com Cibele Rodrigues | Gravação de Ed Wanderley]
[Cibele]: Foi preciso então muita propaganda do açúcar, muita representação desse açúcar, muitos sentidos atribuídos ao açúcar, incluindo o afetivo principalmente, para que essa cultura, enfim, não só ocidental, mas de modo global, passasse a consumir. Na verdade, é uma construção social.
[Ed Wanderley]: A cientista social e doutora em sociologia Cibele Rodrigues nos recebeu no Museu do Homem do Nordeste. Ela, que respira o universo da cana de açúcar, fala como a dependência desse produto passa longe do acaso.
[Sonora Entrevista com Cibele Rodrigues]
[Cibele]: Quer dizer, o açúcar foi muito definidor do Sul e do Norte Global, quem se beneficiou e quem se subdesenvolveu em razão dela.
[Ed Wanderley]: E dentro de um país subdesenvolvido como o Brasil, há áreas que recebem menos atenção, menos chance de crescer e acaba sendo vista quase como um outro país, uma lógica muito mais recente do que se pensa.
[Sonora Entrevista com Cibele Rodrigues]
[Cibele]: Se nós pensarmos até o início do século XX, era o Norte, o Grande Norte, não se falava o termo Nordeste. Mas vamos encontrar nos anos 20 com o livro do Nordeste, que foi coordenado na época por Gilberto Freire, que era um jornalista do Diário Pernambuco, que fez essa publicação. Então claro que o nome Nordeste aparece, mas vai se tornar uma região só no período Vargas. Agora, entre uma região, um recorte geográfico e o que é, ou seja, os valores, ideias, símbolos que foram atribuídos, realmente são construções do século XX. Em parte, aqueles que pintaram esse Nordeste, ou escreveram esse Nordeste, ou discutiram esse Nordeste, são, eram acadêmicos, jornalistas, pessoas formadoras de opinião que, de alguma forma, tinham uma relação com o setor açucareiro, filhos de antigos senhores de engenho ou parentes.
[Ed Wanderley]: Não por acaso, a riqueza de Pernambuco, calçada no açúcar, foi granulando a um índice de pobreza, sem refino, nos moldes de uma escravidão moderna.
[Sonora Entrevista com Cibele Rodrigues]
[Cibele]: Hotéis, com nomes ligados não só ao açúcar, aos senhores de engenho ou às usinas, mas também a elementos que são relacionados à escravidão. As narrativas que mostram que essa açucarocracia é manchada com sangue, é uma açucarocracia cuja riqueza vem de trabalho escravizado e de tráfico ilegal de escravos, que eram parte dos traficantes. Traficantes, já no século XIX, são riquezas oriundas de um comércio ilegal. E as lutas, posteriormente, contra essa outra escravidão, que é a escravidão, entre aspas, já no período de pós-emancipação, que são as condições análogas à escravidão, as condições de trabalho.
[Ed Wanderley]: Se você já conheceu um pernambucano, certamente se deparou com o bairrismo cultural que marca o discurso doce de qualquer fruto dessa terra. É uma tentativa de reforçar uma importância local, mas que, como tanto por aqui, tem muito a ver com a elite açucareira e com o apagamento histórico inconsciente para muitos.
[Sonora Entrevista com Cibele Rodrigues]
[Cibele]: Eu acho que Pernambuco construiu uma narrativa sobre, e não só apenas ligada ao açúcar, mas exatamente essa ideia dos movimentos republicanos. Aqui, o primeiro grito da República foi… Então essa ideia é muito estadualista, inclusive. Então, essa ideia de que o período holandês aqui em Pernambuco é muito forte. Mas olha, estamos falando de uma companhia, uma empresa açucareira, na verdade. Uma companhia holandesa, que os holandeses detinham todo esse circuito de distribuição do açúcar na Europa. Os holandeses vêm para Pernambuco e são assim exaltados ainda no imaginário. Você tem ainda hoje representações de Maurício Nassau, o boi voando, o boi voador. Pernambuco era o maior produtor de açúcar. Então, houve melhoramentos na cidade do Recife, promovidos pelo Maurício Nassau, que, na verdade, era um empregado a serviço de uma empresa, que fez algumas melhorias, mas não melhorias pontuais, urbanas. E as pessoas começaram, no senso comum, a pensar se fôssemos colonizadas pelos holandeses, seríamos melhores que os portugueses. Quando? Viraríamos o quê? A África do Sul?
[Ed Wanderley]: O discurso, na realidade, é estruturado de forma semelhante ao forte desenvolvimento nos anos de chumbo da ditadura militar, como se obras estruturantes justificassem a dinâmica social, mas o que o museu lembra é como o açúcar, por aqui, foi mais doença que remédio.
[Sonora Entrevista com Cibele Rodrigues]
[Cibele]: Porque as pessoas têm a imaginação que existe colonizador melhor que os outros. Isso mostra muito um imaginário que tenta apagar essa história, como se existe colonizador bonzinho, ou pensar esse momento do século XVII, como naqueles tempos fôssemos os maiores produtores, como se isso tivesse reverberado em melhorias substanciais na região, na cultura. Não. Quer dizer, boa parte do nosso subdesenvolvimento vem exatamente dessa cultura mono-açucareira, da plantation.
[Ed Wanderley]: A pesquisa dessa realidade do açúcar não se restringe às paredes do museu. Em campo, Cibele soma forças com outro grande pesquisador do impacto da cana na sociedade pernambucana, o professor Alexandre de Jesus.
[Sonora Entrevista com Alexandre de Jesus | Gravação de Ed Wanderley]
[Alex]: Venho de uma família de diabéticos, a minha tia materna é diabética, meu pai foi diabético, morreu em função da diabetes, e eu descobri a diabetes aqui em Pernambuco um ano depois de ter chegado.
[Sonora Entrevista com Alexandre de Jesus]
[Ed]: Quantos anos você lida com diabetes?
[Sonora Entrevista com Alexandre de Jesus]
[Alexandre]: Eu tenho 51, descobri com 20, 31.
[Ed Wanderley]: O professor Alexandre de Jesus é um homem negro, acadêmico, diabético e viciado em açúcar. A contragosto. Ou por excesso de gosto.
[Sonora Entrevista com Alexandre de Jesus]
[Alex]: Mas é uma questão afetiva que aí eu ligo mesmo à experiência da negrura, e não como simplesmente o mundo projeta a negrura, mas como a minha subjetividade também lida com a negrura. Na experiência de cozinha familiar. A minha família, como uma parte significativa da família brasileira, as suas alegrias, as suas tristezas, as suas festividades, surgiram muito em torno da mesa. Então a minha família é uma família que mesmo com diabetes, por exemplo, minha tia é diabética, mas minha tia é uma cozinheira, é uma doceira. Então ela passou uma parte significativa da vida dela produzindo doce e chamando a gente para provar, porque ela mesma não provava. Então acho que tem de um lado o exemplo e do outro essa memória de uma tradição gastronômica que, de vez em quando, nos meus momentos mais livres, ainda reproduzo cozinhando, fazendo as coisas, os pratos que minha avó fazia, que minha tia faz, que minha mãe não faz mais porque está mais velha.
[Ed Wanderley]: Eu me identifiquei de cara com o professor. Ambos carregamos a herança do Nordeste no corpo.
[Sonora Entrevista com Alexandre de Jesus]
[Alex]: A diabetes é uma doença irônica, historicamente irônica, para os próprios negros. Porque se a gente pensa a realidade da produção do açúcar, quanto mais o negro produziu açúcar, mais ele dissolvia o seu próprio corpo. E as duas coisas que a gente está interessado em perceber é como é que as pessoas lidam com açúcar na sua experiência cotidiana e familiar e como o papel da experiência familiar e das tradições informam o modo dessa relação. É a experiência também da mesa de bar, onde o açúcar não passa para o consumo direto, mas talvez igualmente direto da cana, da aguardente, a relação disso com a energia para o trabalho, energia para lidar com a angústia, o amortecimento da dor. Toda essa experiência do consumo do açúcar, no lugar mesmo onde ele é produzido, isso nos interessa muito, mas principalmente a dimensão afetiva. O que faz eu ter o açúcar como um bem cultural, mais do que um gênero alimentar de necessidade.
[Ed Wanderley]: E o que os pesquisadores destacam é como, no passado, a elite tinha no consumo do açúcar o símbolo de distinção, exclusividade, tornando a especiaria valiosa até pelo acesso, e o quanto a nova elite é a primeira a se afastar dele, dessa vez, com a preocupação com a saúde. Esses movimentos influenciam o que entendemos aqui por cultura e afeto, não apenas por saúde.
[Sonora Entrevista com Alexandre de Jesus]
[Alex]: E por isso que eu acho que a diabetes é essa doença tópica da experiência escravocrata. Mas, ao mesmo tempo, a grande ambivalência é que a gente não odeia apenas. A gente ama isso. Que a gente está, de alguma forma, aprendendo a odiar. Antes pela história e agora pela própria matéria. E pode haver as condições materiais, a consciência é só uma experiência formal de percepção do mundo, mas o que guia mesmo a nossa relação com o mundo é o afeto. E se o nosso afeto, a nossa subjetividade, continua afirmada nos efeitos do açúcar, porque são muitos, são variados, são de droga, é tecnológico, é simbólico, é de tradição. O maracatu é uma resposta também a esse mundo do açúcar. Então se a gente não fizer essa aposta de que a gente vai precisar primeiro lidar emocionalmente e subjetivamente para que a consciência e a matéria reflita isso, eu acho que a gente vai ter muita dificuldade de fazer transições entre os sistemas alimentares.
[Ed Wanderley]: O Maracatu foi uma resposta dos negros escravizados ao mundo do açúcar. Uma prova de que o Carnaval, um dos maiores bens da minha terra, de perto, também pode ser amargo.
[Sonora Entrevista com Teresa Leitão | Gravação de Ed Wanderley]
[Teresa]: Ciclo áureo do açúcar, né? Ele, não vamos dizer que ele não trouxe benefícios. Ele trouxe benefícios de desenvolvimento, é evidente que trouxe. Mas ele trouxe também muita exploração.
[Ed Wanderley]: Aqui eu estou conversando com a senadora pernambucana Teresa Leitão. Falamos sobre nossa luta contra a balança, mas também sobre política de saúde, ultraprocessados e, como não poderia ser diferente, entramos no assunto do açúcar.
[Sonora Entrevista com Teresa Leitão]
[Teresa]: Do ponto de vista do solo, a monocultura escravizou também o solo. Porque fica o solo muito viciado naquele plantio exclusivo, né? E com a derrocada do ciclo do açúcar, para onde foram esses trabalhadores mesmo depois da famosa abolição, entre aspas, da escravidão, né? Ficaram subempregados.
[Ed Wanderley]: Essa realidade, no entanto, segue sendo imposta aos trabalhadores.
[Sonora Entrevista Teresa Leitão]
[Teresa]: Nós tivemos na década de 60, antes do golpe militar de 64, o chamado Acordo do Campo, que foi feito pelo governo de Miguel Arraes, que foi inclusive deposto pela ditadura. E esse Acordo do Campo foi o primeiro ponto de inflexão de um acordo de trabalho, de respeito à mão de obra, de ter regras de trabalho, mas tudo sob a égide do império da cana de açúcar, né? Você ainda tem na Zona da Mata Norte e na Zona da Mata Sul, você ainda tem muitos engenhos moendo.
[Ed Wanderley]: A senadora petista enfrentou resistência de nomes ligados à cana-de-açúcar ao propor emendas que regulam o uso de agrotóxicos na agricultura.
[Sonora Entrevista Teresa Leitão]
[Teresa]: Essa emenda foi justamente pra precaver o uso de agrotóxicos, que a gente pensa que na cana não precisa, porque é uma cultura tão secular, né? Mas tá se usando também. E você veja que a cana, ela tem o consumo imediato. Ou você chupa a cana, né? Corta o roletezinho, ou você moe a cana, e toma o caldo da cana, ou você faz aquele preparo dali pra virar uma rapadura, um mel. Quer dizer, tem pouco ingrediente alheio ao próprio caldo da cana, ao sumo da cana. E aquilo é absorvido, absorvido no agrotóxico, vai direto pro organismo.
[Ed Wanderley]: O Brasil como um todo consome muito açúcar. Eu disse muito. De acordo com o Ministério da Agricultura e Pecuária, foram quase 11 milhões e 200 mil toneladas de açúcar consumidos no Brasil na safra de 2024 para 2025. O que isso representa? São 52 kg e 700 gramas de açúcar por pessoa em um ano. Em todo o país. Mas, em estados como Pernambuco, a presença do açúcar vem carregada de história, de uma saudade gritante da colônia canavieira e de feridas que vão além das provocadas pelo diabetes, mas que têm tudo a ver com a cor da pele…
[Gravação de GPS, registro pessoal de Ed Wanderley]
[GPS]: Pegue a saída em direção a Dois Irmãos e depois vire à direita na rua Senzala. Seu destino está à direita.
[Ed Wanderley]: Entre os bairros de Guabiraba e Apipucos, a placa do motel Soho ainda causa estranheza. No GPS e na memória coletiva, ali fica o motel que antes se chamava Senzala. O nome de mau gosto seria uma provocação à viúva de Gilberto Freyre, dona Magdalena. A história conta que ela ficou revoltada que o templo da luxúria seria construído vizinho ao Solar dos Apipucos, sua propriedade, em 1988, apenas um ano após o falecimento do antropólogo. Ela mobilizou esforços, protestos e a imprensa contra o empreendimento, mas perdeu a briga. O proprietário, Aécio Araújo, teria então “homenageado” o falecido batizando o reduto antisolidão de “Senzala”, como contraponto à “Casa Grande” da viúva. É o oficial. Batizar as suítes cheias de recursos sadomasoquistas como opções “Quilombo”, “Zumbi” e “Xica da Silva” talvez não encontre justificativa tão articulada. O local virou Soho em 2024, atualizando o local para tempos menos permissivos, mantendo a tradição do gosto duvidoso. E você pode não acreditar, mas se voltarmos um pouco mais no tempo, piora. No número 5000 da Avenida Conselheiro Aguiar, em Boa Viagem, uma das regiões mais movimentadas do estado, uma outra hospedaria também recorreu a Gilberto Freyre para justificar suas atividades. O próprio, em 14 de novembro de 1972, participou da inauguração do empreendimento do Grupo Devettori, o Hotel Casa Grande e Senzala, que ficou ainda mais conhecido por seu restaurante.
[Leitura Nota | Áudio gravado]
[Stela Diogo]: Sempre aos domingos no seu terraço coberto o Casa Grande e Senzala estará servindo a partir das 18 horas uma ceia com as melhores receitas culinárias do tempo dos nossos avós. No terraço colonial você vai voltar a um passado delicioso e morder com muita emoção quitutes que tornam a gula um verdadeiro pecado.
[Ed Wanderley]: A publicidade veiculada em jornais pernambucanos, aqui lida na voz da nossa produtora Stela Diogo, mostra um casal com finas vestimentas sociais servido por uma mulher negra usando um lenço amarrado na cabeça e grandes colares.
[Leitura Nota | Áudio gravado]
[Stela Diogo]: E você é atendido na hora por mucamas sempre prontas a lhe servir. Agora, fique sabendo que você pode repetir de acordo com o seu apetite todos os quitutes que sua gula desejar. Sem nenhum pecado na conta.
[Ed Wanderley]: Mulheres negras vestidas de mucamas. Homens negros, semicobertos fazendo as vezes de escravizados e uma clientela experimentando um passado dito “delicioso”. O Hotel Casa Grande e Senzala foi um dos pontos turísticos e referências de festas desde a inauguração até fechar em 1990.
[Sonora Entrevista com João Alberto | Gravação de Ed Wanderley]
[João]: Ele era alinhado e frequentava as pessoas de poder, porque não era barato não. Era top, era real, foi durante muito tempo aqui o restaurante top do Recife.
[Ed Wanderley]: Esse é o jornalista João Alberto, um dos dois colunistas sociais com 60 anos de carreira e ainda em atividade no Brasil. João cobriu das trocas dos papas à visita da Rainha Elizabeth 2ª ao Brasil e viu de perto não apenas a transformação social no país quanto a comoção no Recife provocado pelo Casa Grande e Senzala. Essa foi a nota de inauguração publicada na época no Diário de Pernambuco.
[Leitura Nota | Áudio gravado]
[Stela Diogo]: O Recife vai ganhar o primeiro hotel típico do Nordeste, com a inauguração do Casa Grande e Senzala, cuja arquitetura e decoração recompõe o nosso mundo colonial. Na decoração, inclusive, todos os instrumentos de suplício dos escravos e os hóspedes serão servidos por mucamas e escravos trajados ao rigor da época colonial. A decoração deste hotel, que fica em Boa Viagem, tem trabalhos de Brennand e outros artistas, sendo tudo baseado no grande livro do mestre Gilberto Freyre.
[Sonora Entrevista com João Alberto]
[João]: Funcionou alguns anos e era realmente um grande sucesso porque era aquele clima realmente de, a senzala com as atendentes vestidas a caráter e a gastronomia é muito boa, sempre de coisas ligadas ao açúcar, né?
[Sonora Entrevista com João Alberto]
[Ed]: Ninguém estranhava, ninguém levava em consideração a questão do racismo estrutural, por exemplo?
[Sonora Entrevista com João Alberto]
[João]: Não, não, não. E ela era apenas a pessoa que tava recebendo vestido daquele jeito, né? As pessoas não iam ver, iam normal. Eu tô dizendo, eram os funcionários que tavam lá, principalmente as mucamas, né? As mulheres que atendia o vestido lá com aquela roupa de mucamas. Era um charme, era um charme.
[Sonora Entrevista com João Alberto]
[Ed]: O João e me diz uma coisa, tu acha que com essa mesma proposta, um restaurante como esse poderia abrir hoje no Recife?
[Sonora Entrevista com João Alberto]
[João]: Não, acho que não passou, né? Hoje, o mundo está muito modernizado, os restaurantes são coisas muito normais, não acredito que daria.
[Ed Wanderley]: A falta de estranhamento talvez possa soar para você como algo do passado, eu sei. Mas, moderno ou não, o Recife parece sempre encontrar espaço para uma nostalgia do tempo escravocrata.
[Sonora chegada no edifício Senzala | Gravação de Ed Wanderley]
[Ed]: Boa tarde, amigo, tudo bom? Meu nome é Ed Wanderley, eu sou repórter. Estava procurando o síndico desse prédio.
[Sonora chegada no edifício Senzala]
[João/Ricardo]: João: O síndico?
[Ed Wanderley]: No Recife, para alguns, Senzala é também morada. Quase vizinho ao Museu do Homem do Nordeste, resolvi bater à porta do Edifício Senzala. Estamos na Avenida Dezessete de Agosto, bairro Parnamirim, na zona norte da capital.
[Sonora Entrevista com João/Ricardo | Gravação de Ed Wanderley]
[Ed]: Isso nunca deu problema, não?
[Sonora Entrevista com João/Ricardo]
[João/Ricardo]: Não.
[Sonora Entrevista com João/Ricardo]
[Ed]: Ninguém nunca reclamou?
[Sonora Entrevista com João/Ricardo]
[João/Ricardo]: Não.
[Ed Wanderley]: Esse é o porteiro do Edifício Senzala, o João. Na verdade o nome dele, mesmo, é Ricardo. Mas os moradores só o conhecem por João. Sabe aquela história que você vê em filme de quem não presta atenção nos nomes dos empregados e chama de qualquer outra coisa “mais fácil de lembrar”? Pois é, não é só clichê de cinema. Ricardo virou João, desde que chegou no Senzala…
[Sonora Entrevista com João/Ricardo]
[Ed]: E me diz uma coisa, tem algum morador aqui no prédio que é uma pessoa negra?
[Sonora Entrevista com João/Ricardo]
[João/Ricardo]: Não.
[Sonora Entrevista com João/Ricardo]
[Ed]: Não tem? Todo mundo branco?
[Sonora Entrevista com João/Ricardo]
[João/Ricardo]: Só a maioria dos empregados são morenas. A maioria dos empregados é morena. Agora, tudo é assim, ó. É, mais claro que a gente, branco, galego.
[Ed Wanderley]: Naquele momento, eu conheci Ladjane, que riu ao passar por mim e por João. Fiquei curioso. Jane disse ser cuidadora de idosos e que assumiu o trabalho que foi da mãe. Preciso mesmo descrever o visual dela?
[Sonora Entrevista com Ladjane| Gravação de Ed Wanderley]
[Ladjane]: É misturado, né? Nem branco, nem muito moreno. É meio misturado, né?
[Sonora Entrevista com Ladjane]
[Ed]: Entendi, misturado. E me diz uma coisa, esse nome Senzala, ele não te incomoda?
[Sonora Entrevista com Ladjane]
[Ladjane]: Não, não me incomoda não. Eu até arreto pra eu dizer realmente, a gente trabalha tanto aqui que é dos escravos. Somos todos escravos. Mas não me incomoda não.
[Sonora Entrevista com Ladjane]
[Ed]: Entendi. E me diz uma coisa, ele tava falando aqui que os moradores daqui, é todo mundo branco?
[Sonora Entrevista com Ladjane]
[Ladjane]: É todo mundo branco. Minha mãe trabalhou há muitos anos aqui também, e o tempo que eu vinha com ela, é todo mundo branco aqui.
[Sonora Entrevista com Ladjane]
[Ed]: Entendi. Mas tem gente negra aqui também, no prédio?
[Sonora Entrevista com Ladjane]
[Ladjane]: Que trabalha, sim.
[Sonora Entrevista com Ladjane]
[Ed]: Ah, os que trabalham.
[Sonora Entrevista com Ladjane]
[Ladjane]: Morador, não. Morador, não tem não. Mas eu acho que o pessoal não para muito pra saber assim, não, vou incriminar aqui porque é Senzala e tal. Que é um termo de preconceito, eu acho que não. Até então, as vezes que eu converso, eles falam assim, só pra arretar mesmo. Aqui é o Senzala, começou a escravidão, vou subir.
[Sonora Entrevista com Luiz Kehrle | Gravação de Ed Wanderley]
[Ed]: Senzala é bem emblemático, porque tinha um hotel aqui inclusive, que chamava o Senzala Casa Grande.
[Sonora Entrevista com Luiz Kehrle]
[Luiz]: Porque esse apartamento, quando ele acabou de ser construído, era o apartamento mais caro de Recife. Eu nunca me incomodei com o nome. Sempre achei uma coisa curiosa tudo, mas acho que isso faz parte do Recife, não achei que isso era nada demais.
[Ed Wanderley]: Esse é o economista Luiz Kehrle, morador do Edifício Senzala desde a inauguração do prédio e integrante do conselho da administração, uma espécie de subsíndico.
[Sonora Entrevista com Luiz Kehrle]
[Luiz]: A melhor referência que você pode fazer a Recife, Recife nesse período, é o fato que talvez você não tenha percebido o elevador, ele não desce na garagem. Não desce. Significava dizer que as pessoas que moravam aqui, primeiramente, que eram realmente pessoas muito ricas de Recife, nem sequer desciam para o piloti pra tomar o carro. Era como se todos esperassem que o motorista pegasse o carro lá e entregasse aqui na frente. É uma coisa do Recife, na veia, na veia, na veia.
[Ed Wanderley]: O Recife açúcar, Recife na veia, como diz Luiz, não incomoda. A relação é naturalizada. E há uma dificuldade em associar o legado da cana com a construção do que é ser negro por aqui e os espaços que ocupamos.
[Sonora Entrevista com Luiz Kehrle]
[Luiz]: Como é que você se define no censo?
[Sonora Entrevista com Luiz Kehrle]
[Ed]: Eu sou preto.
[Sonora Entrevista com Luiz Kehrle]
[Luiz]: Preto?
[Sonora Entrevista com Luiz Kehrle]
[Ed]: Uhum.
[Sonora Entrevista com Luiz Kehrle]
[Luiz]: É, eu sou ruim também nesse negócio de classificar gente, ele eu sei que eu classificaria como branco, ela como brasileira
[Sonora Entrevista com Luiz Kehrle]
[Ed]: Brasileira é?
[Sonora Entrevista com Luiz Kehrle]
[Luiz]: É, ele ser branco, preto, eu me classificaria… eu me classifico como branco no censo, não podia, meu pai é estrangeiro. Você é preto?
[Sonora Entrevista com Luiz Kehrle]
[Ed]: Eu sou.
[Sonora Entrevista com Luiz Kehrle]
[Luiz]: Então talvez tenha um bocado de preto aqui no prédio. Pra mim, é tudo igual.
[Ed Wanderley]: Mas não é tudo igual. Não é ideologia. Não é mimimi. Nomes atribuem importância, personalidade. Nomes comunicam sem qualquer outra palavra. Nomear é também reconhecer existências. E respeitá-las.
[Sonora Entrevista com Luiz Kehrle]
[Luiz]: E sempre digo também pro meu filho, não me enche o saco. Se encher o saco e eu deixo o apartamento de herança pra você. E se eu quiser eu posso deixar pra você também.
[Sonora Entrevista com Luiz Kehrle]
[Ed]: Ah é?
[Sonora Entrevista com Luiz Kehrle]
[Luiz]: Quanto é o valor de mercado de um bem que gera renda zero? Não tem nada. Se você quiser eu posso candidatar na fila.
[Sonora Entrevista com Luiz Kehrle]
[Ed]: Seu Luiz, onde é que é assina? Eu boto meu nome agorinha.
[Sonora Entrevista com Luiz Kehrle]
[Luiz]: Deixa aí. Deixa aí e é assim.
[Sonora Entrevista com Luiz Kehrle]
[Ed]: Só que tem um problema.
[Sonora Entrevista com Luiz Kehrle]
[Luiz]: Você ia pedir pra mudar o nome.
[Sonora Entrevista com Luiz Kehrle]
[Ed]: Eu teria que pedir pra mudar o nome. Porque aqui tá mais pra casa grande do que pra senzala, né?
[Sonora Entrevista com Luiz Kehrle]
[Luiz]: Isso não tem dúvida. Muito mais pra Casa Grande do que pra senzala.
[Ed Wanderley]: A construção social de Pernambuco e a cultura do açúcar, por aqui, não têm como serem dissociadas, algo que já foi sacramentado lá atrás por Gilberto Freyre. Quem ajuda a explicar é o gerente do arquivo público da Assembleia Legislativa de Pernambuco, Augusto Lira, com quem começamos essa viagem no início do episódio.
[Entrevista com Augusto Lira | Gravação de Ed Wanderley]
[Augusto Lira]: Então, os trabalhos do Freyre, lá nos anos 30, ele vai tratar a questão do açúcar do ponto de vista civilizatório. Então, ele vai dizer, praticamente, que o Nordeste do Brasil, que está sendo inventado, inclusive, naquele momento, em termos ideológicos, digamos assim, não geográficos, esse Nordeste do Brasil seria uma grande civilização do açúcar. Então, quando você traz a ideia de uma civilização do açúcar, colocando todo um contexto sociocultural alinhado a um tipo de produto específico, ou seja, uma mercadoria, naquele caso, a sacarose, que nem é nossa, é uma linha indígena que foi implantada aqui, você acaba fundando uma identidade em torno disso.
[Ed Wanderley]: Mas sempre tem aquela história do “foi ruim, mas trouxe desenvolvimento”, né?
[Entrevista com Augusto Lira]
[Augusto Lira]: O Freyre acreditava que Recife era o núcleo do Nordeste, vai trazer essa ideia de que o açúcar faz parte da nossa identidade. A ponto de a gente encontrar relatos de um enamorado, falar para sua enamorada, você é meu docinho de coco, essas coisas não são soltas, isso tem uma correspondência cultural e simbólica muito forte.
[Ed Wanderley]: A criação do Nordeste, a megalomania pernambucana e a escravidão entram em um bar. E Freyre ajudava a contar a piada.
[Entrevista com Augusto Lira]
[Augusto Lira]: Para o Freyre, a Casa Grande é o núcleo da formação de uma sociedade tipicamente brasileira.
[Ed Wanderley]: Monocultura, escravização, condições de trabalho, racismo, desigualdade, consumo exagerado de açúcar. As chagas da chamada “plantation”, esse tipo de produção podem ser vistos no Nordeste, mas também na Índia, na Martinica, em outras regiões caribenhas. A construção de um subdesenvolvimento parece se repetir em estrutura, em cultura. Só que aqui, a gente tem o bolo de rolo…
[Entrevista com Augusto Lira]
[Augusto Lira]: Outra coisa que a gente percebe também é, no centro da cidade do Recife, onde ali a gente tem localizado o Marco Zero, a gente tem de um lado a estátua do Barão do Rio Branco e do outro lado a gente tem a estátua do nosso percussionista Naná Vasconcelos. Um ícone da música popular brasileira, um homem negro, periférico. Então você vê que são duas realidades distintas e todas duas patrimonializadas nessa cidade que é o Recife. Por isso que eu falo que o Recife é uma cidade de contradições e é uma cidade de contradições que tenta se ajustar, de alguma forma, a essas políticas patrimoniais que estão sendo colocadas e que configuram a iniquidade da cidade. É uma cidade que se quer moderna, mas que flerta com o tradicionalismo e uma aristocracia rural, patriarcal e escravocrata. Então a gente tem esses processos.
[Entrevista com Augusto Lira]
[Ed]: E nada mais doce que uma bela contradição.
[Entrevista com Augusto Lira]
[Augusto Lira]: É, nada mais doce que uma bela contradição.
[Ed Wanderley]: Augusto é um homem branco, em busca de ressignificados. E fala comigo, um preto rendido ao açúcar, numa busca semelhante. Finalizamos o papo do alto de um prédio em Casa Forte, num dos metros quadrados mais caros da cidade, vizinho aos Edificios Engenho Guimarães, Engenho Casa Forte e Engenho Apipucos. Tá aí outra palavra colonial sempre doce e que não sai de moda por aqui. À distância, a cidade segue sem refletir sobre o existir amargo de parte de seus filhos e normaliza uma saudade tão avassaladora quanto cega. É a engenhosidade do sistema que poucos ousam nomear.
No próximo episódio, eu sigo com você ainda em Pernambuco, e detalho como eu conheci de perto o universo da cirurgia bariátrica. Com 36 anos e a maldição dos 36 no meu encalço, a balança deixou de reagir com tanta pressa e eu tinha que correr. O platô de emagrecimento era apenas mais um momento de temor em toda essa jornada. Duas escolhas se puseram no meu caminho. A tradicional, agora ainda mais recomendada cirurgia bariátrica ou um acompanhamento mais profissional que apostasse novamente no combo dieta e exercícios que andava me falhando. Eu te adianto que pelos oito meses seguintes, a balança não negava que minha escolha poderia me devolver esperança. Será que eu consigo? Será que como tantos bullyings e idosas cheias de opinião bradavam, qualquer um consegue? Será que eu posso te contar algo sem fazer tantas perguntas?
Se você quiser seguir comigo, eu te respondo, mas é no próximo episódio. Antes disso, é hora do placar. Comecei a jornada com 145kg. Passei a 125kg um mês após sair do hospital. E nos três meses seguintes consegui me livrar de mais 8kg. Chegando a 117. Põe 28 negativos nessa conta aí! Até o próximo episódio.
[som da vinheta]
Créditos Podcast
[Ed Wanderley]: A Última Bolacha é uma produção original da Agência Pública de Jornalismo Investigativo, realizada com apoio dos Institutos Ibirapitanga e Serrapilheira. Esse podcast foi escrito por mim, Ed Wanderley, com a colaboração de Stela Diogo e Cláudia Jardim. Cláudia também colaborou com a investigação jornalística que deu origem a essa série. A produção e pesquisa de material de arquivo é de Stela Diogo com apoio de Rafaela de Oliveira. O projeto é uma ideia original de Natalia Viana. A captação de áudio em campo foi feita pelos técnicos Davison Barbosa, Ethieny Karen, Gil Neves, Stela Diogo, Tatiane Santos e Vinícius Machado. A locução foi gravada no estúdio da Agência Pública, com trabalhos técnicos de Ricardo Terto. Sofia Amaral fez a direção de locução e a coordenação geral da série. O desenho de som é de Ricardo Terto, que também fez a edição e finalização dos episódios. A trilha sonora original é de Ana Sucha e trilhas adicionais do Epidemic Sound. A identidade visual é assinada por Matheus Pigozzi. Obrigado por sua companhia. Gostou? Então compartilhe esse resultado e segue a Agência Pública nos tocadores e redes sociais para não perder nenhum lançamento. E acesse o nosso site, apublica.org.




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