No dia 12 de abril, os húngaros vão às urnas para eleições gerais. O Fidesz, partido do primeiro-ministro Viktor Orbán, enfrenta seu maior desafio desde sua ascensão ao poder em 2010. O principal nome da oposição é o Partido Tisza, do candidato Péter Magyar.
Assim como em eleições anteriores, a desinformação patrocinada pelo Estado tem desempenhado papel dominante na campanha. A Ucrânia e a União Europeia são os principais alvos das notícias falsas disseminadas pelo partido governista, seus veículos de mídia e organizações associadas. A tática mais usada é a manipulação de vídeos. Já o partido opositor Tisza utiliza formas mais comuns de distorção, como a apresentação de estatísticas enganosas.
O site independente húngaro de checagem de fatos Lakmusz sintetizou os principais temas e técnicas de desinformação observados até agora na campanha e destaca três fenômenos importantes que impactaram o ecossistema de (des)informação: o uso de inteligência artificial (IA) generativa, a proibição de propaganda política em redes sociais e a interferência estrangeira.
Embora a campanha oficial tenha começado em 21 de fevereiro (50 dias antes da eleição), o Lakmusz analisou um período mais amplo, uma vez que algumas das tendências analisadas já estavam em curso no último trimestre de 2025.
Do lado do governo, o uso de IA é onipresente na campanha. No entanto, na maioria dos casos, este conteúdo tem sido relativamente fácil de reconhecer e, portanto, seu potencial de engano tem sido relativamente baixo.
O partido governista e seus aliados também violaram repetidamente a proibição de anúncios políticos imposta pela Meta, e a aplicação das regras pela empresa de tecnologia é ineficiente. Ainda assim, o volume de publicidade online diminuiu claramente em comparação com eleições anteriores, em 2024 e 2022.
No país, reportagens sobre uma operação de interferência russa geraram preocupação generalizada. Diversas campanhas de desinformação foram associadas a grupos russos já conhecidos. No entanto, seu alcance e impacto até agora permaneceram limitados em comparação com a desinformação disseminada internamente, na própria Hungria.
Táticas de desinformação
Diversos pesquisadores já detectaram a predominância da desinformação patrocinada pelo Estado na Hungria. Alegações falsas e enganosas que permanecem à margem do debate público em outros países europeus são frequentemente levadas ao centro das discussões no país pelo Fidesz, partido de Orbán, e por diversas organizações associadas ou por veículos de mídia controlados ou influenciados pelo partido.
Nesta campanha eleitoral, o principal tema destacado pelo governo é o mesmo das eleições de 2022 e 2024: a guerra entre Rússia e Ucrânia. No entanto, enquanto em 2022 o Fidesz enfatizava a “paz” e, em 2024, seu principal alvo era a “elite de Bruxelas” (sede da União Europeia), desta vez a comunicação do partido assumiu um viés visivelmente antiucraniano. A mensagem central da campanha do Fidesz é que, em caso de mudança de governo, a União Europeia e o Partido Tisza priorizariam as necessidades da Ucrânia, retirariam recursos dos húngaros para destiná-los ao país e arrastariam a Hungria para a guerra.
Essa mensagem política é frequentemente sustentada por conteúdo desinformativo, na forma de vídeos manipulados. Em outubro, a ala jovem do Fidesz iniciou uma campanha contra o político do Tisza Romulusz Ruszin-Szendi, alegando que ele queria a volta do serviço militar obrigatório. Para isso, utilizou um trecho de vídeo em que Ruszin-Szendi diz: “Devemos reintroduzir o serviço militar obrigatório”.
O vídeo omite a primeira parte da fala do político, na qual ele diz: “Hoje, a situação na Hungria não justifica que devemos reintroduzir o serviço militar obrigatório”. A citação enganosa foi posteriormente repetida em um panfleto oficial do governo enviado a aposentados.
Em fevereiro, o ministro das Relações Exteriores, Péter Szijjártó, afirmou que o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, havia feito uma declaração “pró-guerra” ao dizer: “Nosso compromisso em apoiar a Ucrânia é inabalável. Tropas em terra, aviões no ar, navios no Mar Negro”.
Na verdade, Szijjártó juntou duas frases de Rutte que apareciam em partes separadas de seu discurso, dando a impressão de que a Otan enviaria imediatamente forças à Ucrânia. No discurso original, Rutte se referia a missões de paz oferecidas por alguns aliados caso um acordo de paz fosse alcançado.
Em março, vários políticos do Fidesz afirmaram que o alemão Manfred Weber, membro do parlamento europeu e presidente do Partido Popular Europeu (PPE), “admitiu” lutar na linha de frente pela Ucrânia ao lado de Péter Magyar, líder do Partido Tisza. Mais uma vez, tratava-se de uma edição manipulada e distorcida das palavras de Weber.
Primeiro, ele afirmou que a União Europeia estava ao lado da Ucrânia; depois, mais adiante em seu discurso, mencionou Péter Magyar e a luta travada pelo PPE. Nesse momento, porém, não se referia à Ucrânia, mas sim ao combate ao populismo de direita e ao extremismo.
A interpretação enganosa de textos também faz parte do repertório do Fidesz. Em janeiro, Viktor Orbán afirmou que a União Europeia queria abolir diversas políticas de benefícios sociais húngaras para apoiar a Ucrânia com os recursos, incluindo um programa de empréstimos para jovens trabalhadores. Segundo ele, isso estava descrito no relatório semestral da Comissão Europeia. No entanto, o relatório afirma que o empréstimo “pode ser menos eficaz para apoiar jovens com menor nível de escolaridade”.
Durante a campanha, o governo aproveitou todas as oportunidades para buscar situações de confronto com a Ucrânia. Quando uma tenista húngara recebeu mensagens de texto ameaçadoras antes de uma partida contra uma adversária ucraniana, o ministro das Relações Exteriores húngaro tirou conclusões precipitadas e culpou a Ucrânia.
No entanto, vários jogadores de outras nacionalidades receberam ameaças semelhantes, independentemente do país de origem de seus próximos oponentes. As mensagens estavam provavelmente ligadas a uma fraude em apostas esportivas e não tinham relação com as tensões entre Hungria e Ucrânia.
O Lakmusz também checou diversas declarações de políticos do Tisza. O partido de oposição recorre a formas mais comuns de distorção, como a apresentação enganosa de estatísticas. Por exemplo, seu programa mostra de forma equivocada dados de preços, como se os valores de alguns produtos tivessem aumentado entre 15 e 24 vezes entre 2010 e 2025. Já um de seus principais políticos citou dados enganosos para sugerir que os números de emigração da Hungria eram mais altos que os da Polônia.
Uso de IA na campanha
A novidade mais marcante desta campanha é o uso de inteligência artificial generativa, onipresente na comunicação do partido governista e de seus aliados. O exemplo mais memorável foi o vídeo publicado em janeiro de 2026 pelo diretório de Budapeste do Fidesz, no qual um soldado húngaro é executado na guerra enquanto sua filha o aguarda em casa.
Como relatado pelo Lakmusz, muitos vídeos semelhantes, enfatizando a ameaça da guerra e, assim, reforçando a mensagem do governo, foram publicados por páginas menores no Facebook, de origem pouco transparente, direcionadas especificamente a eleitores no distrito eleitoral onde o candidato do Fidesz é o ministro da Justiça húngaro, Bence Tuzson.
O Movimento de Resistência Nacional, uma organização associada ao Fidesz criada recentemente, conseguiu alcançar milhões de visualizações com seus vídeos gerados por IA, como aquele em que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, liga para Péter Magyar e ordena (em húngaro) que ele envie dinheiro à Ucrânia em caso de vitória da oposição.
Esse vídeo também foi publicado na página de Facebook de Viktor Orbán, mas a ligação entre o Fidesz e o Movimento de Resistência Nacional é ainda mais direta: como informado pelo veículo de comunicação local Telex, Gábor Szűcs, um dos fundadores do movimento, é candidato na lista partidária do Fidesz.
Conteúdos produzidos por IA, como a cena fictícia de guerra ou a ligação telefônica, embora não identificados como tal, são fáceis de reconhecer. O potencial de engano desse tipo de material é relativamente baixo (mesmo considerando os diferentes níveis de letramento em IA na população). Ainda assim, especialistas alertam que conteúdos gerados por IA podem provocar forte impacto emocional nos espectadores, mesmo quando estes sabem que o que veem não corresponde à realidade.
Também foram identificados alguns casos de uso mais realista — e, portanto, mais enganoso — de IA generativa. Um deles foi publicado após autoridades húngaras interceptarem, em março, uma van ucraniana transportando dinheiro e ouro. O site pró-governo Ripost criou uma imagem do incidente gerada por IA, inflando a quantidade de dinheiro envolvida e retratando os banqueiros ucranianos detidos como mafiosos.
Com frequência, o uso de IA reforça táticas mais tradicionais de desinformação. Em um vídeo do Movimento de Resistência Nacional, por exemplo, o oponente de Orbán, Péter Magyar, e o político do Tisza Romulusz Ruszin-Szendi invadem a casa de um jovem casal e forçam o homem a se alistar no exército. O vídeo inclui um trecho de um vídeo real de Ruszin-Szendi com a citação manipulada sobre o serviço militar mencionada anteriormente.
Em outro caso, a mídia pró-governo distorceu uma declaração de outro político do Tisza, István Kapitány, para dar a impressão de que o partido de oposição ocultava deliberadamente seu programa de governo. Em seguida, um político do Fidesz, Balázs Hidvéghi, criou um vídeo gerado por IA de Kapitány dizendo a frase que, na verdade, ele nunca disse (nesse caso, havia uma indicação de IA pouco visível no vídeo).
Não foram identificados conteúdos gerados por IA promovidos por partidos de oposição em volumes semelhantes. Foi detectada, entre fevereiro e março, uma campanha de vídeos gerados por IA por um veículo de mídia que reproduzia a principal mensagem política do partido de oposição Coalizão Democrática, segundo a qual o voto por correspondência para húngaros residentes no exterior deveria ser abolido.
Anúncios impulsionados
Em outubro de 2025, a Meta (seguindo medida semelhante adotada pelo Google) proibiu o impulsionamento de anúncios de política em seus serviços na União Europeia. Na campanha húngara, o Fidesz e suas organizações associadas violaram repetidamente essa proibição, enquanto a Meta foi lenta e inconsistente na aplicação de suas próprias regras.
O Movimento de Resistência Nacional, braço do Fidesz, conseguiu impulsionar todos os seus vídeos gerados por IA na Meta, embora contivessem mensagens políticas claras. No mês seguinte à entrada em vigor da proibição, o grupo gastou pelo menos 24 milhões de forints húngaros (62 mil euros) em anúncios. O movimento Círculos Cívicos Digitais, uma rede de ativismo online que apoia o Fidesz, veiculou centenas de anúncios para recrutar novos membros após a proibição da Meta.
Até mesmo contas oficiais de alguns candidatos do Fidesz conseguiram publicar centenas de anúncios em plataformas da Meta.
No distrito eleitoral onde o candidato do Fidesz é o atual ministro da Justiça, foram identificadas três páginas no Facebook veiculando anúncios, além de sua conta oficial. Os vídeos de guerra gerados por IA também foram impulsionados aos eleitores do distrito de forma direcionada.
Além disso, anúncios promovendo candidatos menores da oposição e atacando o candidato do Tisza apareciam nas plataformas da Meta. Os partidos menores da oposição negaram envolvimento e afirmaram suspeitar que o Fidesz estivesse por trás dessas campanhas.
O Lakmusz já verificou que a Meta costuma remover esses anúncios, mas apenas de forma retroativa e, em muitos casos, somente depois de terem alcançado centenas de milhares ou até milhões de eleitores.
O tempo de resposta da plataforma parece ter melhorado desde outubro de 2025, mas a empresa ainda não adota medidas contra infratores reincidentes, o que permite que anunciantes cujos conteúdos tenham sido removidos por violarem a proibição voltem a publicá-los.
Ainda assim, o volume geral de anúncios de política na Meta diminuiu após a proibição de outubro. No período anterior, os gastos na Hungria eram muito elevados na comparação com outros países europeus.
Interferência russa
A interferência estrangeira na eleição se tornou um tema central na imprensa em março de 2026, após veículos investigativos relatarem um plano russo para manter Viktor Orbán no poder. A newsletter Vsquare informou que uma equipe de três pessoas, dirigida por Sergei Kiriyenko, primeiro vice-chefe de gabinete de Vladimir Putin, foi enviada a Budapeste. Já o Financial Times revelou que o Kremlin endossou um plano de interferência eleitoral elaborado pela empresa de tecnologia russa Social Design Agency.
Pesquisadores atribuíram alguns ataques de desinformação na campanha húngara a grupos russos já conhecidos. No entanto, seu alcance e impacto até o momento permaneceram limitados, pelo menos em comparação com os vídeos de desinformaçáo feitos com IA e os conteúdos impulsionados nas redes sociais.
Foram analisadas três campanhas de desinformação que o Projeto Gnida, especializado em checagem de fatos em campanhas de desinformaçao russas, vinculou ao grupo de operação política russo Storm-1516. Todas envolveram a criação recente de sites de notícias falsas que publicaram artigos direcionados a figuras proeminentes da oposição, sem qualquer evidência concreta: um padre crítico de Orbán foi acusado de pedofilia; um político do Tisza foi acusado de recrutar húngaros para lutar na Ucrânia; e outro político do Tisza foi associado ao caso Jeffrey Epstein. Embora, nos dois primeiros casos, os artigos tenham sido impulsionados no Facebook e alcançado cerca de 100 mil usuários, essas narrativas não conseguiram chegar aos maiores meios de comunicação.
O coletivo Antibot4Navalny identificou diversas publicações na plataforma X contendo desinformação sobre a Hungria. Essas postagens foram associadas à rede de bots Matryoshka. Os vídeos presentes nas publicações utilizavam logotipos de veículos de imprensa ou de organizações da sociedade civil reconhecidos para disseminar ideias falsas.
Uma delas afirmava que o presidente da Ucrânia Volodymyr Zelensky estaria perdendo força na Europa devido ao seu conflito com Orbán. Todas as publicações e vídeos estavam em inglês, e as narrativas não conseguiram ganhar tração no ambiente informacional húngaro. Além disso, muitas das postagens analisadas foram enviadas ao Lakmusz por contas de e-mail suspeitas, sugerindo que um dos objetivos da operação pode ser difundir mensagens e ampliar influência justamente com desmentidos e com uma atenção midiática artificialmente inflada.


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