Buscar
Coluna

Financiamento de grupo ligado a J. D. Vance pode ser maior escândalo da eleição

Site Amado Mundo obteve documento vendendo terras raras, que teria sido apresentado ao vice dos EUA

Coluna
14 de setembro de 2026
15:00
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Xeque na Democracia, enviada toda segunda-feira, 12h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

A denúncia vem de fonte suspeita: Renan Santos. O candidato do Missão está bradando aos quatro ventos que a campanha de Flávio Bolsonaro recebeu dinheiro do Rockbridge Network, uma rede de financiadores da extrema direita ligados ao Vale do Silício e que foi fundada pelo vice-presidente dos EUA, J. D. Vance. O principal interesse do grupo é organizar uma infraestrutura mundial para a evolução da IA, incluindo terras raras e data centers.  

Segundo Renan, dois empresários, chamados Tallis Gomes e Pedro Sang, são representantes da Rockbridge no Brasil e intermediariam os fundos. “Esses caras vieram para o Brasil e saíram oferecendo apoio a várias candidaturas: Flávio, antes tentaram o Tarcísio, e fecharam com o Flávio. Esses caras trabalham com muitas coisas, entre elas terras raras. Eles entraram na campanha do Flávio, naturalmente e ilegalmente”, afirmou Renan Santos.

Se fato, Renan está desesperado por atenção desde que viu a ascensão de Augusto Cury (Avante).

Mas graças ao site Amado Mundo, do jornalista Guilherme Amado, sabemos que pelo menos parte das acusações é verdade. E elas são graves, porque financiamento externo de campanha é proibido pela lei eleitoral. 

Segundo o site, o carioca Pedro Sang atua de fato dentro do comitê da campanha de Flávio Bolsonaro em São Paulo, em um casarão perto do parque Ibirapuera, na zona sul, onde despacha de uma sala no segundo andar. Pedro teria providenciado imóveis e infraestrutura ao local. A quem pergunta, ele se apresenta, segundo o Amado Mundo, como “Pedro da Rockbridge”. Pedro Sang reconheceu que é ligado ao Rockbridge, mas negou ser intermediador de fundos. 

Flávio mudou seu QG de campanha de Brasília para São Paulo no começo de julho. O objetivo propalado era facilitar viagens para Minas, Rio e Paraná e estar mais perto da Faria Lima.  

O especialista em direito eleitoral, advogado Fernando Neisser, afirma que “a entrada de recursos internacionais em campanha eleitoral no Brasil é absolutamente proibida, seja oriundos de pessoas físicas, cidadãos não brasileiros, seja por meio de empresas, de pessoas jurídicas”.

É uma grave irregularidade, constitui abuso de poder econômico, que, se for comprovado, levaria à instauração de uma ação de investigação judicial eleitoral perante o TSE e, caso haja, como disse, prova suficiente, a condenação levaria à cassação do registro, do diploma ou do mandato, caso seja vencedor e isso aconteça depois das eleições, e a necessidade de convocação de novas eleições, além de acarretar a inelegibilidade de oito anos das pessoas consideradas responsáveis por esse ato de abuso de poder econômico”.

Para ele, “não faz diferença se esse pagamento é em dinheiro, se esse pagamento é em bens, como aluguéis, enfim, fornecimento de material, de insumos, ou no pagamento de serviços”. 

Ele alerta ainda para outra hipótese. Caso o trabalho de algum colaborador ou serviço seja pago por fora da campanha, isso poderia constituir Caixa 2.

Fundado em 2019 por J. D. Vance, vice-presidente dos Estados Unidos, e o empresário Chris Buskirk, o Rockbridge Network é tido como responsável pelo impulsionamento do vice para o círculo de Trump. O objetivo declarado de Buskirk é “transformar” o Partido Republicano. Editor do site American Greatness, ele diz ser a “voz da nova geração de conservadorismo americano” e que os conservadores dos EUA “perderam seu caminho”. Além dele, manteve durante anos um Podcast com as tais “novas vozes” do conservadorismo, entre elas Darren Beattie, que hoje é o principal aliado de Eduardo Bolsonaro no Departamento de Estado.  

Chris é um velho conhecido de Eduardo Bolsonaro. Em 17 de março de 2019, ambos estiveram presentes no jantar oferecido a Olavo de Carvalho e Jair Bolsonaro em Washington, às vésperas da primeira reunião do ex-presidente com Donald Trump. No jantar oferecido pelo embaixador Sérgio Amaral na residência oficial, Olavo de Carvalho, ainda vivo, foi o centro das atenções, recepcionado junto a estrelas hoje caídas do bolsonarismo, como general Heleno, o general Rego Barros e Filipe Martins. Mas, segundo relevou O Globo, Eduardo Bolsonaro deu atenção a Chris Buskirk e Steve Bannon, ao lado do ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. 

O Amado Mundo descobriu outras ligações diretas entre a turma do Rockbridge e a campanha de Flávio Bolsonaro. 

Um memorando chamado “Prosperity Partnership” elaborado por André Marinho, candidato do Partido Novo a governador do Rio de Janeiro e filho do suplente de Flávio Bolsonaro ao Senado, inclui diretrizes em inglês de como seria uma parceria do potencial governo de Flávio Bolsonaro com os Estados Unidos para exploração de minerais críticos e terras raras. Em suma, ele propõe o afastamento da China e um completo alinhamento com os EUA, notando que o tema destes minerais é considerado um tema de “segurança nacional” para os EUA. 

Os termos da apresentação são idênticos ao discurso feito por Flávio Bolsonaro no CPAC deste ano, que já tinham um tom de “pitch” de vendas para investidores, como apontei nesta coluna. O discurso aconteceu nove dias depois da elaboração do documento.     

André Marinho admitiu ser autor do documento mas nega que ele tenha sido apresentado a qualquer estrangeiro. Mas o Amado Mundo descobriu que, três semanas depois de elaborar o documento, Marinho esteve nos EUA com J. D. Vance. 

Marinho é irmão de Giulia Be, que é casada com Conor Kennedy, filho do secretário de Saúde do governo Donald Trump, Robert Kennedy Jr. O encontro com J. D. Vance teria sido articulado pelo cunhado. 

Procurado, Flávio não respondeu aos questionamentos do site Amado Mundo. 

Em meio a tantas revelações nas últimas semanas, todas elas tingidas de interferência nas eleições, é importante mantermos o foco no que de fato importa. Como já argumentei aqui nesta coluna algumas vezes, os EUA já interferiram de pelo menos 5 maneiras nas eleições brasileiras. Mas até agora nunca apareceu uma transferência de verbas ou bens diretamente para a campanha de Flávio Bolsonaro por grupos ou potências estrangeiras. 

Embora ainda não haja provas de que isso tenha de fato acontecido, a aliança com Rockbridge Network pode levar ao elo que falta para entendermos se o candidato do PL cometeu crime eleitoral na sanha de vencer a corrida para a presidência do país – e o que ele estava disposto a dar em troca.  

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 233 A fábrica de radicais do Discord – com João Victor Ferreira

Cientista político explica como os discursos extremos rompem as fronteiras virtuais e incentivam uma sociedade violenta

0:00

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Na urna com o ex: Rivais históricos se unem por espaço e poder nas eleições 2026

|

Antigos adversários superam críticas, ideologias e até acusações de crimes para disputar voto do eleitor em outubro

Espionado por Mendonça em 2020, professor vê “natureza golpista” em atuação de ministro

|

Luiz Eduardo Soares conta como foi monitorado por ordem do atual ministro do STF e critica instrumentalização da Corte

Deputado federal Mário Frias durante sessão na Câmara dos Deputados

Como Mário Frias chegou ao centro da máquina de propaganda da família Bolsonaro

|

Ex-ator foi colocado na política por Jair para juntar cultura e armas em estratégia olavista de guerra ideológica

Foto mostra modelo atual de urna eletrônica usada nas eleições brasileiras

Ministério Público Eleitoral impugna 15 candidatos em SP ligados a crimes, dois ao PCC

|

Órgão contesta 557 registros e utiliza nova regra do TSE para afastar crime organizado da política

Flávio Bolsonaro (PL) participou no sábado 29 de agosto de um ato de campanha à Presidência em Angra dos Reis (RJ) ao lado do candidato a deputado federal, o empresário Renato Araújo, também do PL

O amigo do Flávio Bolsonaro em Angra dos Reis

|

Quem é Renato Araújo, candidato a deputado que cresce no círculo dos Bolsonaro assim como os problemas ao seu redor

Congresso travou regulação de câmeras corporais enquanto letalidade policial batia recorde

|

Câmeras corporais de policiais se tornaram campo de disputa política que vai muito além da responsabilização por abusos